Iniciativa Liberal: Um partido com dores de crescimento

Iniciativa Liberal: Um partido com dores de crescimento
Margarida Davim 22 de janeiro
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As sondagens mostram a Iniciativa Liberal a crescer, mas o partido ainda está a tentar perceber como deixar de ser uma start-up. A escolha da sucessão a João Cotrim Figueiredo mostrou divisões, falhas na organização e uma discussão quase toda feita para dentro.

À entrada do Centro de Congressos de Lisboa, uma banca exibia o merchandising da Iniciativa Liberal. "Sou um bom partido. Agora imagina inteiro", lia-se numa das t-shirts expostas. O trocadilho encaixa bem na retórica de comunicação que fez escola na IL, mas é também uma forma irónica de resumir o que, dentro da sala da Convenção, se passava.

LUSA

Quando João Cotrim Figueiredo anunciou, de forma inesperada, a saída da liderança, e Rui Rocha avançou, a escolha parecia feita. Mas a transição tranquila rapidamente se transformou numa disputa interna renhida, que este fim de semana subiu de tom a ponto de se transformar num verdadeiro lavar de roupa suja.

Carla Castro, que fazia parte da Comissão Executiva de Cotrim, veio a jogo. E, nesta Convenção, apresentou-se como a candidata contra "caciques e barões". A narrativa da sua lista pôs a tónica no ataque ao "centralismo" e à "autocracia" da direção de Cotrim Figueiredo. E até houve quem, como Inês Rosete, viesse ao palco levantar suspeitas sobre um verdadeiro familygate, com 12 pessoas com relações familiares entre si a ocupar 25 cargos na IL.

José Cardoso, o outsider que fez caminho no Conselho Nacional como crítico interno, não chegou para que a discussão sobre a liderança deixasse de se fazer entre Carla Castro e Rui Rocha. Mas ajudou a contribuir para a ideia de que o partido não estava a ser gerido de forma descentralizada e transparente. "Lutei pela liberdade dos núcleos, contra regulamento que foi apagão na força individual dos membros", disse num dos discursos que fez na Convenção.

Claques e falhas de comunicação

Na sala, ao longo dos dois dias do conclave, os apoiantes de um e de outro lado foram formando claques, ao ponto de os jornalistas tentarem medir as hipóteses dos candidatos a líder pelo nível sonoro dos aplausos e apupos.

Ao contrário do que acontece noutros partidos, nesta Convenção da IL, a comunicação social pôde circular por todos os espaços, sem restrições. Os militantes, que na IL se chamam "membros", puderam falar mais do que uma vez, com uma inscrição por cada ponto de discussão. E houve votações confusas, com boletins de voto em papel distribuídos pelas mesas da sala, em vez da votação de braço no ar que quase sempre é regra noutras organizações partidárias.

As falhas na organização notaram-se logo no arranque da reunião, com um atraso de quase duas horas, por falta de quórum para iniciar os trabalhos. Um sobressalto que haveria de ter consequências no resto da agenda da Convenção, atrasando toda a agenda prevista para os dois dias.

O atraso inicial levou, contudo, a que no domingo o quórum ficasse garantido bem cedo. Pouco passava das nove da manhã e já a sala da antiga FIL se juntavam os membros da IL.



Menos queques e muito PCP

Muito longe do estereótipo dos "queques que guincham" – na colorida expressão de António Costa – os militantes que vieram à Convenção mostram um leque bem mais diversificado de idades, classes e regiões. Mas, como em quase todos os partidos, era evidente que a esmagadora maioria é ainda do sexo masculino.

A visão deste grupo mais heterógeno do que muitas vezes os adversários da IL imaginam os seus militantes fazia um dirigente do partido confidenciar que talvez estivesse aí a explicação para algumas críticas que se ouviram nesta Convenção.

"Se calhar não atraímos bem o tipo de pessoas que pensávamos. E há aqui muita gente sem noção de como funcionam os partidos", desabafava, exasperado com a ideia – promovida pelos apoiantes de Carla Castro – de que as atas do Conselho Nacional deviam ser integrais e públicas. "O CDS fazia streaming dos Conselhos Nacionais e veja-se como isso correu", notava.

A referência ao CDS era muitas vezes, nos corredores, a bitola para aferir o estado da IL. Não é de estranhar, alguns dos que agora estão no partido vieram do centrismo. Mas no palco, estranhamente, o PCP foi o mais referido.

Paulo Carmona, número dois de Carla Castro, propôs a criação de um festival liberal para competir com o Avante!. João Cotrim Figueiredo não resistiu a reagir à forma como Tiago Mayan (outro apoiante de Carla Castro) se referiu à sua direção como "o comité central". Houve quem apontasse o dedo a Rui Rocha por ser "o Paulo Raimundo da IL", numa referência ao facto de ter tido desde logo o apoio de Cotrim. E José Cardoso até falou nos comunistas para garantir que é a IL quem mais luta pela liberdade dos outros. "Até os comunistas gostam de ter liberdade. O problema é quando temos de lutar pela liberdade dos outros. Isso é que é ser liberal", disse.



Como deixar de ser uma start-up?

Numa Convenção que até teve direito a uma App para congressistas e jornalistas e na qual puderam participar remotamente mais de 300 membros da IL, Cardoso foi, aliás, quem pôs o dedo na ferida sobre este partido novo ainda em afirmação.

"Acabou o tempo de 'start-up' política", disse José Cardoso, reclamando mais discussão sobre o país e menos guerra interna. Um apelo que também foi feito, mas não concretizado, por Rui Rocha.

Mesmo sem tendências internas organizadas e com muitos gritos de "liberal" pelo meio, ficou evidente que há divergências internas, mesmo que algumas correntes pareçam ser claramente minoritárias, pelo menos a julgar pelo forte apupo que recebeu o representante da ala mais conservadora da IL.

Nuno Simões de Melo veio citar Hayek e Friedman, ao mesmo tempo que atacava a ideologia de género e recusava a ideia de uma "melância azul, azul por fora e bloquista por dentro", com membros da IL próximos do BE, na defesa das minorias e da eutanásia. Simões de Melo disse que "Portugal não começa no Saldanha e não acaba nas Amoreiras", pediu atenção ao "mundo rural" e defendeu que a IL deve "deixar as minorias ativistas a falar sozinhas".

À margem de toda esta guerrilha interna, a sondagem publicada pelo DN e pela TSF neste domingo mostra uma IL em claro crescimento, com 9,5% das intenções de voto. Um estudo que indica também a perda de maioria do lado esquerdo do hemiciclo e abre a hipótese a uma geringonça de direita, com PSD, Chega e IL. Mas essa foi uma discussão pouco feita dentro do Centro de Congressos de Lisboa.

 

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