Declaração de rendimentos não permite escrutínio total porque casas e terrenos foram transferidos para as empresas que tem com os filhos.
Tal como acontece com Marques Mendes, André Ventura e Gouveia
e Melo, a declaração de rendimentos, património e interesses de António José Seguro
– obrigatória para candidatos presidenciais – não está ainda disponível no
portal da Entidade para a Transparência, e pode nem vir a estar antes das
eleições de domingo, porque o regulamento desta estrutura anexa ao Tribunal Constitucional
dita que depois de cada político apresentar uma declaração a mesma fica
congelada durante 30 dias e só depois pode ser acedida, como explica o Público.
Marcos Borga/Lusa/EPA
Em alguns casos, é possível disfarçar essa lacuna
acedendo às declarações que estes políticos já apresentaram este ano por ocuparem
outros cargos. No caso de António José Seguro, tal não é possível porque há
mais de uma década (desde 2014) que não ocupa qualquer cargo político que
obrigue a apresentação de declaração.
No entanto, o candidato, por sua iniciativa, criou no seu
site uma secção chamada “Transparência”, onde voluntariamente apresentou os
seus rendimentos, patrimónios e interesses. Antes de lá irmos, importa realçar
que os mesmos estão incompletos. E a declaração que apresentou na Entidade para
a Transparência também está (o que será confirmado quando estiver acesso disponível).
Isto porque os políticos só têm de declarar património pessoal, e não o
património que pertence às empresas de que são sócios - ficando assim também vedado o escrutínio das alterações nesse património.
Seguro é um caso evidente disso. O candidato é sócio
maioritário da Amarcor, empresa que “tem casas de Alojamento Local”, segundo
resposta lacónica do candidato, via assessoria. Os dois filhos são os sócios minoritários.
A empresa gere o Casas da Penha, empreendimento turístico em Penamacor, terra
natal de Seguro. Desconhece-se que património imobiliário e financeiro tem esta
empresa – o candidato não respondeu.
A mesma situação com a empresa Mimos da Beira, que tem “terreno
agrícola de 3,5 hectares”, segundo a sua assessoria. É daqui que produz vinho e
azeite. A empresa é detida por Seguro – diretamente por si, e indiretamente
pela outra empresa familiar, a Amarcor. Desconhece-se também o património financeiro
desta empresa e deduz-se que o imobiliário seja apenas o terreno.
Via assessoria, Seguro referiu apenas que "o património afeto à atividade empresarial é propriedade das empresas que desenvolvem as respetivas atividades".
O mesmo não se passa com outros candidatos que exploram alojamentos locais, como João Cotrim Figueiredo, que declara ser proprietario de um “prédio urbano de um só piso destinado a habitação, com 9 divisões” no Redondo, de valor patrimonial a rondar os 128 mil euros. É aqui que tem também um “terreno com várias parcelas num total de 13,695 hectares, sito nas Courelas do Hospital, Redondo”. Ou Gouveia e Melo, que declara também ser proprietário do terreno e casas em Odemira onde explora um AL.
Em 2018, a SÁBADO foi até Penamacor conhecer a nova vida de Seguro, que na altura estava a fazer a sua travessia no deserto em termos políticos e mediáticos.
Seguro indicou no seu site que em 2024,
“o valor de faturação total das empresas de que é sócio (Amarcor, Lda – Mimos
da Beira, Lda – N&A, Lda) foi de €347.255,34, dos quais 88% no âmbito da
sua atividade principal de alojamento local e venda de produtos alimentares”.
Esta terceira empresa referida, a N&A, servirá para a
faturação dos serviços de consultoria, conferências, docência e comentário
político.
Quanto aos rendimentos individuais, Seguro declarou €54.647
em 2024.
Quanto ao património individual, referiu não ter qualquer
conta à ordem que tenha saldo superior a 50 salários mínimos, ou seja, não tem
de declarar.
Casado em regime de comunhão de adquiridos, declarou ser proprietário
e coproprietário (com a mulher) de três apartamentos: um em Lisboa (freguesia de
São Domingos de Benfica) e dois nas Caldas da Rainha.
Segundo informações prestadas ao Observador há poucos dias, Seguro não tem passivo, nem carro. No mesmo artigo, são discriminados os atrás referidos rendimentos de 2024: "O valor foi possível através da empresa Mimos da Beira (7.129,66 euros), da atividade como professor na Universidade Autónoma (16.660) e no ISCSP (14.436,94), de rendimentos prediais (10.902) e do comentário na CNN (5.518,75)".
Num artigo publicado pela SÁBADO em outubro, era recordado o património de Seguro em 2014, data da última declaração (que permite comparar com a que estará agora disponível). Aí declarava como único rendimento os €46.123 de deputado. Tinha €36 mil e duas “carteiras de títulos” com o valor nominal inicial ainda em
escudos (o valor à data era impercetível).
No imobiliário, além da casa própria
em Lisboa (deduz-se que a mesma de agora), declarava propriedades em Penamacor e nas Caldas da Rainha (que terão sido entretantos transferidas para as empresas). Tinha um passivo de €251 mil de dívida hipotecária referente a uma casa das Caldas da Rainha (passivo que já não existirá).
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui ,
para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana. Boas leituras!
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.