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D. Manuel I chegou antes de Trump: Gronelândia já teve bandeira portuguesa

Renata Lima Lobo 09 de janeiro de 2026 às 07:00
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Num mapa de 1502, a bandeira portuguesa está plantada na Gronelândia. “Uma declaração de intenções”, explica o historiador João Paulo Oliveira e Costa.

A história da ocupação humana do território hoje conhecido como Gronelândia recua milénios, mas a SÁBADO cruzou-se com um curioso mapa português datado de 1502, e chamado Planisfério de Cantino, onde se vê uma bandeira portuguesa desenhada sobre esse mesmo território, . Falámos com o historiador João Paulo Oliveira e Costa para nos explicar o que andaram lá os portugueses a fazer.

Planisfério de Cantino
Planisfério de Cantino DR

No , a expansão marítima portuguesa vivia uma era de glória. Uma das incursões pelo mar alto do Atlântico Norte, em busca de uma nova rota para a Ásia, foi liderada pelos irmãos Gaspar e Corte Real que por ali passaram, não havendo, no entanto, provas de que ali tenham desembarcado. Mas regressaram com novidades e João Paulo Oliveira e Costa explica que este planisfério é o que se chama de Carta Padrão, “um mapa que era permanentemente atualizado na Casa da Índia conforme chegavam novas expedições de regresso a Lisboa”. Além da bandeira portuguesa, e de se ler, mesmo ao lado “Terras del rey de Portugall”, há uma legenda por cima dessa massa de terra que a SÁBADO pediu ajuda ao historiador para nos ajudar com a tradução, que, apesar de não ser cosmógrafo, conseguiu decifrar o sentido da legenda. “Esta terra se descobriu por mandado do muy excelentissimo principe dom manuel rey de portugal a qual se cree ser a ponta d asia. Os que a descobriram nam chegaram a terra mas viram la e nam viram senam serras muyto espessas polla qual segundo a opiniam dos "cosmoscicos"(?) se cree ser a ponta d asia”. Ora, João Paulo Oliveira e Costa confessa-se “surpreendido”, pelo “desconhecimento da Gronelândia dos vikings ou a incapacidade de relacionar a terra avistada com esse conhecimento”.

Planisfério de Cantino
Planisfério de Cantino DR

Voltando um pouco atrás no tempo, para entender o contexto do território onde hoje se localiza a Gronelândia, o historiador conta que foi povoado por vikings a partir do século XI e habitada por populações originárias da América desde há pelo menos 3.000 anos.

“Os primeiros contactos entre os vikings e os inuítes devem ter acontecido no século XIII e no século XV essas populações de origem europeia que lá estavam acabaram por abandonar o território”, diz o historiador, devido à falta de capacidade de subsistência, uma vez que o território “habitável e cultivável” era “muito estreito”. É importante também referir que é da Noruega que saem esses exploradores, reino que no final do século XIV se une à Dinamarca, juntamente com a Suécia, sob o domínio da coroa dinamarquesa. “Depois, no século XVI, a Suécia torna-se independente e só no século XVIII é que a Dinamarca volta a povoar o sul da Gronelândia”. Até hoje.

Mas aquando da passagem dos portugueses, “os dinamarqueses haviam abandonado a ilha há algumas décadas” e os exploradores viajavam pelo Atlântico Norte, persistindo na “continuava a persistir a possibilidade de se chegar à Ásia muito mais depressa pelo ocidente”, por não se conhecer inclusive a dimensão do ainda misterioso continente americano.

"O que acontece é que os Corte-Reais, nessas deambulações, poderão ter estado na Gronelândia, mas as crónicas não estão claras sobre o assunto. Avistam e interferem, sim, com aquilo que é chamada Terra Nova”, explica, referindo-se ao que hoje conhecemos como Canadá. É por essa altura, que começa a , introduzido então na dieta alimentar dos portugueses. “Era o bacalhau só que interessava” e muito pouco em terra firme.

Então, mas e as bandeiras no mapa?

“Tem a ver com o Tratado de Tordesilhas, por um lado. Como estamos numa época experimental, independentemente de haver ocupação ou não, as bandeiras têm muito a ver com isso. Quer dizer que se aquilo está do lado português, põe-se lá uma bandeira [no mapa] que é para dizer que a ir lá alguém são os portugueses”, conta João Paulo Oliveira e Costa. E sublinha que o famoso tratado que dividiu o mundo entre portugueses e espanhóis “não é um tratado de conquista, é um tratado de áreas de influência e áreas de negócio", embora os dois impérios ibéricos tivessem arvorado “no direito de ocupar tudo o que existe”. A verdade é que “ingleses e franceses, particularmente, vão navegar pelo Atlântico também, indiferentes ao Tratado de Tordesilhas, e onde os portugueses e os castelhanos entendem que é do interesse vital deles, combatem-nos".

A atitude de Portugal então pode encontrar um ponto em comum com o renovado interesse dos EUA pela Gronelândia, “um território que é importantíssimo nas relações internacionais e no controle daquela zona do mundo”, numa terra rica em minerais que, devido ao degelo, se está a transformar numa cobiçada rota marítima para as grandes potências mundiais. O historiador relaciona o passado com o futuro: “Por duas vezes que eles a tentaram comprar, o Trump não inventou isto. Mas há uma coisa que é importante. O que é que mudou? Além da questão dos minérios, é o próprio degelo. Com o degelo, aquela ilha torna-se muito mais importante para o controle das rotas de navegação. Quem chegar primeiro impede que os outros lá se posicionem. E, portanto, tem a ver com expectativas. A importância da Gronelândia em si não mudou de há 20 anos para hoje. A conjuntura, neste caso até geoclimática, é que mudou”. No século XVI, explica, “é a mesma coisa, mas num contexto só do desconhecido: olhando para uma área desconhecida que, a ser ocupada, é por nós”. Ou seja, a bandeira portuguesa no mapa sobre a Gronelândia é uma “declaração de intenções”, que nasce do ponto de vista da “retórica política”, numa lógica de “zona de influência, que eventualmente poderia ser interessante para as pescarias”. “Mas, por exemplo, ao nível das pescas, os portugueses pescam o bacalhau na Terra Nova, mas também há pesca com os ingleses e não houve guerra por causa disso”, acrescenta o historiador. “No mapa é muito simbólico, tem o valor da simbologia na diplomacia, numa rivalidade entre Portugal e Castela”.

Porque se chama Planisfério de Cantino?

A história envolve um espião, um duque e um talho. Alberto Cantino era um italiano que estaria por Lisboa a espiar o que andariam os portugueses a congeminar por esse mundo fora. E "deve ter subornado um qualquer oficial ou um cartógrafo da Casa da Índia para obter este mapa de subrepticiamente” para o enviar a Hercole de Este, Duque de Ferrara, “um daqueles grandes senhores da Itália daquele tempo”, cujo filho casou com Lucrécia Bórgia, filha do Papa Alexandre VI.

“O Dom Manuel I tinha uma política de sigilo que não queria que estes mapas saíssem, este escapou-lhe, mas quem o comprou também não mostrou a ninguém. Porque nós temos mapas feitos em Veneza daqui a seis anos que ainda não têm a Índia como está aqui desenhada e têm muita geografia mal representada por comparação com este mapa”, destaca o historiador, para que é “muito curioso” que este mapa, apesar de ter sido um ato de espionagem e “um falhanço da equipa portuguesa em preservar a sua informação”, acabou por não ter sido divulgado.

Permaneceu secreto, mas no século XIX, o diretor da Biblioteca Estense, em Ferrara, encontrou-o a decorar um talho da cidade e acabou por comprá-lo ao comerciante. A mesma biblioteca que o guarda nos dias que correm.

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