Farian Sabahi, italo-iraniana especialista em história contemporânea, tem dúvidas sobre os resultados de "protestos que não têm um líder nem uma organização”.
O Irão vive um momento de tensão depois dos protestos desencadeados pela crise económica que assola o país e a queda abrupta do valor da moeda se terem espalhados por várias cidades. Vídeos partilhados nas redes sociais, antes de o país ter sofrido um apagão digital, mostram momentos de tensão entre os manifestantes e as forças de segurança. Manifestações ocorreram em mais de 340 locais nas 31 províncias do Irão num único dia. Farian Sabahi, professora associada em História Contemporânea na Universidade de Insubria, Itália, considera que é um momento único, mas duvida dos resultados que os protestos possam atingir.
AP Photo/Vahid Salemi, File
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Milhares de pessoas em protesto nas ruas de Teerão
“A maioria desses protestos aconteceu em cidades pequenas e áreas rurais. A presença constante de manifestantes nessas áreas sugere que o epicentro da agitação se deslocou dos grandes centros metropolitanos para municípios menores, mais afetados pelo aprofundamento das crises económica e política do Irão”, diz Sabahi à SÁBADO. A Human Rights Activist Agency já registou 36 mortes entre manifestantes e quatro entre membros das forças de segurança. 2.200 manifestantes foram presos.
Farian Sabahi considera que “é difícil” prever se estes protestos vão conseguir levar a uma mudança de regime, até “porque os protestos não têm um líder nem uma organização”. Ainda assim, explica à SÁBADO que o futuro depende de “dois fatores”: “Primeiro, de como as autoridades da República Islâmica irão lidar com os protestos. O governo de Pezeshkian procura combater a corrupção e está a preparar a economia para uma monetização parcial dos subsídios indevidos e sua distribuição entre as famílias de renda baixa, o que não deixa de ter um grande impacto inflacionário. Em segundo lugar, estes protestos podem levar a uma mudança de regime se ocorrer uma intervenção militar estrangeira em larga escala, contudo tal intervenção militar não será fácil. Os bombardeamentos vão causar perdas humanas entre a população civil e não vão agradar aos iranianos”.
Os protestos começaram no domingo 28 de dezembro, quando comerciantes da capital fecharam as suas lojas e manifestaram-se para expressar a sua indignação relativa ao aumento do custo de vida. Os estudantes universitários rapidamente se juntaram aos protestos, que se começaram a espalhar por outras cidades.
Uma crise de vários anos
O rial iraniano atingiu um mínimo histórico - com um euro a valer mais de 49 mil riais - e a inflação disparou para os 52% em dezembro. Farian Sabahi refere que “a moeda nacional tem vindo a sofrer constante desvalorização nos últimos anos”, mas considera que “a inflação é apenas um aspeto”: “O aumento dos protestos está intimamente ligado a queixas económicas e promessas de desenvolvimento não cumpridas”.
A especialista ressalva que, especialmente nas zonas rurais “a retórica oficial sobre o ‘crescimento industrial’ e 'transformação económica’ contrasta fortemente com a provação generalizada, a infraestrutura precária e o desemprego crónico”.
“Décadas de má gestão e negligência deixaram as populações locais com poucas alternativas. Na ausência de respostas institucionais eficazes, a frustração transbordou para as ruas, impulsionando esses municípios antes negligenciados à vanguarda do movimento de protesto”, continua. A isto acrescentam-se os anos de sanções internacionais rigorosas, nomedamente devido ao programa nuclear iraniano.
Desde o início dos protestos os meios de comunicação estatais informaram que 71 milhões de cidadãos passaram a receber um auxílio mensal equivalente a 6 euros para aliviar o impacto do alto custo de vida.
O regresso de Pahlavi?
Atualmente muitos são os gritos contra o líder supremo do país, o aiatola Ali Khamenei e de apoio à dinastia Pahlavi, que foi derrubada pela revolução islâmica de 1979. O príncipe Reza Pahlavi “mudou-se para os Estados Unidos aos 17 anos, onde viveu toda a sua vida” e Farian Sabahi considera que “o seu nome evoca o esplendor do Império Persa”. Ainda assim reforça que o apelido Pahlavi está também ligado “às desigualdades sociais da época da monarquia, às torturas da SAVAK (a polícia secreta do xá) e a submissão do Irão aos Estados Unidos e ao Reino Unido”.
A especialista italo-iraniana recorda que Reza Pahlavi “declarou, numa entrevista, estar disposto a liderar a transição para a democracia no Irão, mas não a mudar-se para o país para o resto da sua vida, pois tem entes queridos nos EUA” e assim “perdeu parte da sua credibilidade”. Além disso “já viajou para Israel e elogiou o atual governo israelita” o que o deixa numa posição de fragilidade uma vez que “para os iranianos é difícil acreditar que Israel, tendo matado dezenas de milhares de habitantes de Gaza, seja capaz e esteja disposto a aceitar a democracia e a paz no Irão”.
A ameaça de um intrevenção internacional
Os Estados Unidos já afirmaram que poderiam intervir militarmente no país caso as forças de segurança iranianas “matassem manifestantes”, ao que o aiatola Ali Khamenei, líder supremo do Irão, respondeu: “Estamos prontos para o combate”. Farian Sabahi defende que “no tabuleiro do jogo, o Irão é apenas um peão contra a Rússia e a China”, mas considera que é difícil prever uma possível invasão devido à imprevisibilidade do seu presidente: “Tendo em conta a forma como os Estados Unidos se comportaram no Iraque e no Afeganistão, ninguém pode acreditar que iriam ser capazes de exportar a democracia para o Irão”.
O presidente do país ordenou que “nenhuma medida de segurança” fosse tomada contra manifestantes pacíficos, esta foi uma notável mudança em relação às respostas intransigentes de governos anteriores. Masoud Pezeshkian instruiu o Ministério do Interior a dialogar diretamente com os manifestantes. No entanto o vice-presidente para Assuntos Executivos, Mohammad Jafar Qaempanah, referiu na quarta-feira que “aqueles que têm armas de fogo, facas e facões e que atacam esquadram da polícia e instalações militares são arruaceiros, devemos distinguir manifestantes de arruaceiros”.
Estes são os protestos mais generalizados desde a revolta de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini, uma jovem curda que foi detida pela polícia da moralidade alegadamente por não estar a utilizar o hijab corretamente e acabou por morrer às mãos das autoridades. Na altura, os protestos que ficaram conhecidos como “Mulher, Vida, Liberdade”, levaram à morte de mais de 550 pessoas foram mortas e cerca de 20 mil pessoas foram detidas.
1999 e 2003 foram também anos de grandes protestos estudantis que pediram reformas democráticas no país e desafiavam os governantes. Depois das eleições presidenciais de 2009 surgiu o Movimento Verde durante o qual os cidadãos saíram à rua para pedira destituição do presidente Mahmoud Ahmadinejad e uma maior reforma democrática.
Os protestos começaram no domingo 28 de dezembro, quando comerciantes começaram a fechar as suas lojas e a manifestarem-se na capital do país para expressar a sua indignação relativa ao aumento do custo de vida. Os estudantes universitários rapidamente se juntaram aos protestos, que se começaram a espalhar por outras cidades.
O rial iraniano atingiu um mínimo histórico - com um euro a valer mais de 49 mil riais - e a inflação disparou para os 52% em dezembro. Farian Sabahi refere que “a moeda nacional vem sofrendo constante desvalorização nos últimos anos”, mas considera que “a inflação é apenas um aspeto”: “O aumento dos protestos está intimamente ligado a queixas económicas e promessas de desenvolvimento não cumpridas”.
A especialista ressalva que, especialmente nas zonas rurais “a retórica oficial sobre o ‘crescimento industrial’ e 0 transformação económica’ contrasta fortemente com a provação generalizada, a infraestrutura precária e o desemprego crónico”.
“Décadas de má gestão e negligência deixaram as populações locais com poucas alternativas para reivindicar seus direitos. Na ausência de respostas institucionais eficazes, a frustração transbordou para as ruas, impulsionando esses municípios antes negligenciados para a vanguarda do movimento de protesto”, continua. A isto acrescentam-se os anos de sanções internacionais rigorosas.
Atualmente muitos são os gritos contra o líder supremo do país, o aiatola Ali Khamenei e de apoio à dinastia Pahlavi, que foi derrubada pela revolução islâmica de 1979. O príncipe Reza Pahlavi “mudou-se para os Estados Unidos aos 17 anos, onde viveu toda a sua vida” e Farian Sabahi considera que “o seu nome evoca o esplendor do Império Persa”. Ainda assim reforça o nome Pahlavi está também ligado “às desigualdades sociais da época da monarquia, as torturas da SAVAK (a polícia secreta do xá) e a submissão do Irão aos Estados Unidos e ao Reino Unido”.
A especialista italo-iraniana recorda ainda que Reza Pahlavi “declarou, numa entrevista, estar disposto a liderar a transição para a democracia no Irão, mas não a mudar-se para o país para o resto da sua vida, pois tem entes queridos nos Estados Unidos” e assim “perdeu parte da sua credibilidade”. Além disso “já viajou para Israel e elogiou o atual governo israelita” o que o deixa numa posição de fragilidade uma vez que “para os iranianos é difícil acreditar que Israel, tendo matado dezenas de milhares de habitantes de Gaza, seja capaz e esteja disposto a trazer a democracia e a paz para o Irão”.
O presidente do país já ordenou que “nenhuma medida de segurança” fosse tomada contra manifestantes pacíficos. Esta foi uma notável mudança em relação às respostas intransigentes de governos anteriores, Masoud Pezeshkian instruiu o Ministério do Interior a dialogar diretamente com os manifestantes.
No entanto o vice-presidente para Assuntos Executivos, Mohammad Jafar Qaempanah, referiu na quarta-feira que “aqueles que têm armas de fogo, facas e facões e que atacam esquadram da polícia e instalações militares são arruaceiros, devemos distinguir manifestantes de arruaceiros”.
O aiatola Ali Khamenei, líder supremo que detém o poder absoluto no Irão, referiu no sábado que as autoridades deveriam “conversar com os manifestantes”, mas que “os arruaceiros devem ser colocados nos seus devidos lugares”.
Desde o início dos protestos os meios de comunicação estatais também informaram que 71 milhões de cidadãos passaram a receber um auxílio mensal equivalente a 6 euros para aliviar o impacto do alto custo de vida.
Os Estados Unidos já afirmaram que poderiam intervir militarmente no país caso as forças de segurança iranianas “matassem manifestantes”, ao que o aiatola respondeu: “Estamos prontos para o combate”. Farian Sabahi defende que “no tabuleiro do jogo, o Irão é apenas um peão contra a Rússia e a China”, mas considera que é difícil prever uma possível invasão devido à imprevisibilidade do seu presidente: “Tendo em conta a forma como os Estados Unidos se comportaram no Iraque e no Afeganistão, ninguém pode acreditar que iriam ser capazes de exportar a democracia para o Irão”.
Estes são os protestos mais generalizados desde a revolta de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini, uma jovem curda que foi detida pela polícia da moralidade alegadamente por não estar a utilizar o hijab corretamente e acabou por morrer às mãos das autoridades. Na altura, os protestos que ficaram conhecidos como “Mulher, Vida, Liberdade”, levaram à morte de mais de 550 pessoas foram mortas e cerca de 20 mil pessoas foram detidas.
1999 e 2003 foram também anos de grandes protestos estudantis que pediram reformas democráticas no país e desafiavam os governantes. Depois das eleições presidenciais de 2009 surgiu o Movimento Verde durante o qual os cidadãos saíram à rua para pedira destituição do presidente Mahmoud Ahmadinejad e uma maior reforma democrática.
Irão: “Décadas de má gestão deixaram a população com poucas alternativas"
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