Sábado – Pense por si

João Pereira Coutinho
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor

Um cómico e um génio

James Marriott responde no seu The New Dark Ages: o leitor está a desaparecer – e a sociedade, viciada em ecrãs e simulações, caminha alegremente para um mundo pós-literário. As consequências – pessoais, neuronais, políticas, democráticas – serão assustadoras.

Justiceiros

Se alguma originalidade coube à Europa, não foi a escravatura; foi a singular ideia de transformar a sua abolição num movimento político e, depois, numa política de Estado. Muitas vezes contra a resistência indignada dos governantes e comerciantes africanos que lucravam com o tráfico.

Resistir é preciso

Como é evidente, quem se define como militante de uma causa jamais poderá ser um pensador ou um jornalista, adverte Garrocho. Pensar a sério é duvidar. E pensar a sério é pensar de forma inoportuna, ou seja, contra as modas da sua época.

Corpo de delito

Fazer escolhas de vida sem ter de as submeter a visto prévio –, eis um pensamento herético que não entra na cabeça dos novos reaccionários. No fundo, todos querem mulheres domesticadas: uns pelo avental, outros pela causa.

Adolescentes

Com a sua habitual sabedoria, Carl Sagan acrescentava que seria uma boa notícia recebermos uma mensagem de uma civilização extraterrestre. Seria a prova de que alguém, algures, conseguira sobreviver à adolescência tecnológica para comunicar de forma interestelar.

A merdificação do mundo

Quando um médico está mais interessado na quantidade de doentes que consegue ver por hora do que na qualidade do diagnóstico e do tratamento, a merdificação do mundo ganha mais um praticante.

Filmes de terror

O alegado roubo no gabinete parlamentar do Chega é pura encenação? Deus me livre de tal pensamento: a realidade, ao contrário da ficção, nem sempre é verosímil. Significa apenas que, no dia em que o dr. Ventura pretender levar aos ecrãs este episódio, terá de o alterar significativamente. Ninguém pagaria bilhete para um filme tão mal-amanhado.

A preto e branco

O que acontece quando a inteligência humana, deslumbrada consigo própria, deixa de reconhecer limites morais? A pergunta pode parecer supérflua para a cabeça acelerada de Elon Musk – um Ulisses moderno, com a mesma arrogância do antigo. Mas, em tempos sombrios para a civilização ocidental, é de aplaudir que exista um realizador de cinema que ainda tenha espaço e talento para a formular.

Memorando de desentendimentos

E é esta mesma Europa, tão fecunda nas suas lamúrias, que deplora o afastamento anunciado dos Estados Unidos em matérias de defesa! Quando leio notícias destas, não é o afastamento dos americanos que me espanta; é o facto de, apesar de tudo, eles ainda por cá andarem.

Aberrações de circo

Quando Trump pediu clemência para Balogun antes do jogo com a Bélgica, limitou-se a repetir uma prática antiga. Mas enquanto os seus antecessores manobravam na sombra, Trump exibiu o abuso às claras

A guerra continua

Os avisos americanos são sérios e devem ser levados a sério. Para que a Europa não acorde amanhã como acordou naquela madrugada de 2022: pasmada e perdida.

Temor e tremor

Uma democracia, por definição, precisa de cidadãos autónomos capazes de se autogovernarem. A cultura do medo corrói estas virtudes democráticas até só restar um rebanho temente e obediente, o sonho húmido de qualquer tirano.

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