Como Portugal ajudou a desmantelar uma rede jihadista europeia

Como Portugal ajudou a desmantelar uma rede jihadista europeia
Nuno Tiago Pinto 31 de agosto de 2018

Uma investigação iniciada em Portugal detectou uma célula do Estado Islâmico com ramificações em vários países europeus. O grupo estava a preparar um atentado seguindo instruções vindas da Síria e tinha ligações aos responsáveis pelos ataques de Paris e Bruxelas.

Podia ser uma denúncia alarmista, como tantas outras. Mas quando o inspector do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras ouviu Mohamed H. dizer que havia dois marroquinos em Portugal a recrutar pessoas para as fileiras do Estado Islâmico (EI), percebeu que o testemunho era tudo menos fantasioso: Mohamed deu-lhe dois nomes – e um deles era o do próprio irmão. 

Foi a partir daí que a Polícia Judiciária (PJ) – em paralelo com o Serviço de Informações de Segurança – iniciou uma investigação de vários meses que identificou dezenas de viagens, inúmeras transferências financeiras e diversos contactos. Dados que viriam a revelar-se úteis a partir do momento em que as autoridades francesas, informadas da iminência de um atentado pelos serviços secretos israelitas, puseram em marcha uma operação de infiltração nas estruturas do EI que levou à detenção de vários suspeitos de planear um ataque, em Novembro de 2016 – entre eles estava o irmão de Mohamed. 

Os meses seguintes foram uma corrida na recolha de testemunhos e provas por parte das forças de segurança europeias. Foram realizadas buscas e detenções em Portugal, Espanha, França, Alemanha e Marrocos. O percurso dos suspeitos e as suas ligações foram reconstituídos. Enquanto isso, os serviços de informações europeus recorreram a uma estrutura de cooperação recém -criada para partilhar todos os dados que pudessem ajudar à investigação. Em paralelo, foi montada uma operação que levou à eliminação, na Síria, dos responsáveis pelas operações do EI na Europa. 

Esta é a história inédita desta investigação à escala europeia, feita com base em entrevistas a testemunhas, conversas com várias fontes das forças de segurança e serviços de informações, nacionais e europeus, bem como em centenas de documentos disponíveis nos processos judiciais que decorrem em vários países. Um trabalho realizado nos últimos seis meses, pela SÁBADO em conjunto com o jornal online El Español, o semanário alemão Die Zeit e o jornal belga Het Laatste Nieuws

A DENÚNCIA MAIS DIFÍCIL: IRMÃO CONTRA IRMÃO 
Há mais de um ano que Mohamed H. não via o irmão. Tinham estado juntos pela última vez em Fez, em Setembro de 2013, minutos antes de Hicham El Hanafi, então com 23 anos, apanhar o autocarro rumo a Agadir, de onde seguiria para a Mauritânia, Senegal, Guiné-Bissau e, finalmente, Portugal. Com ele ia um homem mais velho, de 59 anos, que lhe foi apresentado como Abdesselam Tazi. "Ele disse-me para não me preocupar porque ia tratar do meu irmão da melhor maneira possível", recorda Mohamed H. à SÁBADO.

Os três voltaram a estar juntos no início de 2015. Mohamed tinha seguido os passos do irmão e viajado para Portugal, onde também pediu asilo. Mas quando se reencontraram, percebeu que o irmão mais novo estava diferente. O rapaz que em Fez bebia, tinha namoradas e trabalhava como chef num restaurante turco, tinha-se transformado num fiel devoto, que cumpria religiosamente as cinco orações diárias, não cumprimentava uma prima por ela não estava "devidamente" vestida e cujas conversas iam, invariavelmente, ter à religião, à jihad e à guerra na Síria. 

"Vi logo que ele estava diferente", diz, sentado à mesa de um café nos arredores de Lisboa. A mudança foi -se tornando cada vez mais clara ao longo dos dias em que passeavam juntos pela Baixa de Lisboa ou visitavam o estádio do Benfica. E confirmou-se semanas depois, numa madrugada passada na zona das partidas do aeroporto do Porto. 

Era 12 de Abril de 2015. No início do mês, Abdesselam Tazi e Hicham El Hanafi convidaram Mohamed e dois outros marroquinos que também estavam alojados no Centro de Acolhimento para Refugiados, Outmane J. e Mohammed M., a visitá-los em Aveiro, onde viviam. Compraram-lhes os bilhetes de avião de Lisboa para o Porto (cada um custou 10 euros, ida e volta), onde apanharam um comboio para Aveiro. "Fomos ao apartamento dele almoçar e depois saímos para passear junto ao rio e ir ao centro comercial", recorda à SÁBADO Outmane J. Pelas 20h30 desse mesmo dia regressaram os cinco ao Porto, onde passaram algum tempo no centro histórico antes de apanharem o último autocarro para o aeroporto. 

O voo para Lisboa era só de madrugada. Para passar o tempo, falaram. Da situação em Marrocos, de trabalho, mas por iniciativa de Hicham El Hanafi a conversa ia sempre parar à jihad. "A certa altura o meu irmão começou a discutir com o Outmane", diz Mohamed. Hicham garantia que é obrigação de todos os muçulmanos fazerem a jihad. Outmane dizia que não. Hicham referia que havia um sítio onde todos podiam ter um bom nível de vida e que estavam a perder tempo na Europa. Outmane respondia que o que era bom era viver sem fazer mal a ninguém. "Nós estávamos a assistir. A certa altura eu disse: ‘Tazi, você é mais velho, se estivermos a dizer alguma coisa errada, corrija.’ E ele disse: ‘O teu irmão tem razão. Você quer ganhar a outra vida, tem de seguir o caminho dele’", afirma Mohamed. 

Sem ser explícito, ficou claro para todos o que estava em causa. "Tive a certeza de que havia algo que não estava bem e comecei a evitá-los. Eles eram praticantes a 200% – rezaram até no avião", garante Outmane, acrescentando outro detalhe que lhe chamou a atenção: "Nunca usavam o telemóvel." Já Mohamed quis ter certezas. Mostrou-se receptivo às conversas, o que fez o seu irmão, segundo disse mais tarde à PJ, confessar que tinha estado dois meses a receber treino militar na Síria. Ainda tentou demovê-lo, ameaçou-o com uma ida à polícia, sem sucesso. 

Só quando soube que o irmão tentou levar a família para a Síria – com o pretexto de assistir ao seu casamento na Turquia – é que decidiu contactar as autoridades. Com a ajuda do Conselho Português para os Refugiados, falou com um inspector do SEF. "Só o meu pai e dois irmãos voltaram a Marrocos. Ainda hoje não sei da minha mãe e irmãs", lamenta. Outmane fez o mesmo no fim de Maio: "Estive algum tempo em pânico. Mas tomei a decisão quando a família do Mohamed foi para a Síria e ele perdeu o contacto com eles."

Rede jihadista


A INVESTIGAÇÃO PORTUGUESA E O RASTO DO DINHEIRO 
A 30 de Julho de 2015, o Departamento Central de Investigação e Acção Penal abriu um inquérito para investigar as actividades de Abdesselam Tazi e Hicham El Hanafi. O primeiro foi desde logo considerado o principal suspeito, responsável pela radicalização do segundo – na linha do que foi denunciado. 

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