O jihadista português dos Açores preso em Espanha

Fábio Almeida foi o primeiro português a ser preso por pertencer a uma célula de recrutamento do Estado Islâmico. Preso em Espanha, prepara-se para ser julgado, apenas com uma certeza: seja condenado ou absolvido, assim que sair da prisão deverá ser deportado para Portugal.

Fábio Almeida, o jihadista português que Espanha vai julgar
O ambiente à mesa de jantar era de consternação. Era 7 de Janeiro de 2015 e na televisão passavam vezes sem conta as imagens dos irmãos Said e Chérif Kouachi, responsáveis pelo massacre na redacção do jornal satírico Charlie Hebdo, nas ruas de Paris, vestidos de negro e com armas automáticas nas mãos. A família Almeida estava chocada. O patriarca disse para a mulher:
- Por que raio fazem isto? Tantos mortos…
Fábio, o mais velho dos filhos do casal, tinha, entretanto, aparecido para ver a sua própria filha que jantava com os avós. Enquanto esboçava um sorriso a olhar para a televisão, disse:
- Bem feito. Eles merecem. Não tinham nada que se ter metido com Alá.
O pai mandou-o calar. Ele não obedeceu:
- A verdade tem de ser dita. Vai haver muitos mais [ataques] e é bem feito!
O homem levantou-se, agarrou o filho por um braço e empurrou-o em direcção à porta.
- Aqui não falas assim.
- É bem feito. E se querem saber também eu vou combater pelo meu Deus. Um dia vou para a Síria com a minha filha. Ela não vai ser criada por vocês, pecadores.
Depois de pôr o filho na rua, o homem virou-se para a mulher, nervoso, com lágrimas nos olhos.
- Ouviste o que ele disse? Ele disse que ia combater, que foi bem feito o que aconteceu. Este gajo está tolo. Disse que ia combater e que levava a criança com ele.

Maria Almeida não tinha ouvido a parte final da conversa. Mas nessa noite, depois de ver a expressão dos olhos do marido, mal dormiu. "Não era o meu Fábio que estava ali. Ele tinha muito ódio. Não era o meu filho", recorda à SÁBADO num apartamento nos arredores de Paris. "Fiquei preocupada. E no outro dia, antes de ir para o trabalho, não disse nada a ninguém e fui à polícia. Precisava de falar com alguém especializado. Precisava de um conselho."
Fábio Almeida
As preocupações tinham fundamento. Nove meses depois, a 4 de Outubro de 2015, Fábio Almeida foi preso em Espanha por, alegadamente, pertencer a uma rede que se dedicava a recrutar elementos para o autoproclamado Estado Islâmico (EI), sobretudo mulheres. Com ele foram detidas mais três pessoas: Laila Haira, Saif Aaniba e Sanae Boughroum - esta última uma marroquina com quem se casou e com quem, segundo o despacho de indiciação da Audiência Nacional Espanhola, a que a SÁBADO teve acesso, planeava viajar para a Síria para lutar pelo grupo terrorista. Desde então que está em prisão preventiva. Neste período casou-se oficialmente, teve dois filhos e mudou várias vezes de cadeia. O início do julgamento, marcado para o próximo mês de Julho, será mais uma etapa de um processo que acabará, inevitavelmente, com o seu regresso a Portugal.

Uma conversão discreta
Fábio Miguel Medeiros de Almeida nasceu na Terceira, nos Açores, a 9 de Abril de 1985. Aos 11 anos, mudou-se com a mãe e os irmãos para França, onde o pai já vivia há cerca de um ano. A família instalou-se nos arredores de Paris (uma localização omitida pela SÁBADO para manter a privacidade) e a adaptação correu bem. Aos 16 anos, quando preferia passar o tempo com os amigos e a jogar à bola na rua, Fábio decidiu deixar de estudar. "O meu marido disse-lhe: 'Se não queres estudar, vais trabalhar'", recorda Maria Almeida à SÁBADO.

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