A história dos primeiros soldados a embarcar para a Guerra do Ultramar

Marta Martins Silva 15 de fevereiro de 2020

Foram aclamados como heróis à chegada a Luanda, mas estavam mal preparados, não tinham equipamento adequado e nem sabiam bem o que estavam ali a fazer. Sobreviveram – a custo – sem saber que tinham à espera outra batalha para a vida: o regresso a casa.

O dia tinha acabado de nascer no porto de Luanda quando mais de dois mil soldados desembarcaram do paquete Niassa, depois de duas semanas no mar. Os homens pouco mais eram do que rapazes, vestiam uma farda de caqui amarela amarrotada da viagem e foram engolidos por um mundo totalmente novo e diferente do que tinham deixado para trás. Impressionaram-se com a grandeza da cidade - muitos conheciam apenas as aldeias onde haviam nascido e os quartéis onde tinham feito as recrutas -, com a beleza da baía caiada pela luz da manhã, com a multidão em êxtase que os saudava como heróis enquanto desfilavam, gritando "Vivas" alto e bom som.

Era 1 de maio de 1961. O furriel miliciano António Gomes, à época com 21 anos, foi surpreendido logo à saída do navio. Nunca imaginara ser recebido no porto por milhares de pessoas, naquela terra tão distante da sua Lisboa natal. A época das chuvas em Angola estava a terminar e aproximava-se o cacimbo, uma época mais seca que vai normalmente de maio a setembro e que costuma anunciar os carregamentos de café das fazendas do Norte para Luanda. Mas naquele ano não cheirava a café, uma das maiores riquezas do território: cheirava a guerra, embora os soldados portugueses só se tenham apercebido do sangue que corria no capim quando saíram da capital angolana em direção ao mato.

"Lembro-me de ouvir alguém dizer assim que desembarquei: ‘Obrigado por nos virem salvar.’ Eu olhei à minha volta e o que vi foi uma cidade bonita com praias, sol…Mas o que é que eu venho fazer? Salvar de quê? Salvar como? Éramos uns miúdos! Qual era a experiência que eu tinha de selva ou de guerra? E ainda tinha a responsabilidade por nove ou 10 homens da minha idade. Só pensava: ‘Como é que me sinto capaz de tomar conta deles se não consigo sequer tomar conta de mim?’", recorda António Gomes, 80 anos, em conversa com a SÁBADO a partir do Canadá, onde hoje vive.

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