60 anos da Guerra Colonial

Guerra Colonial: As milícias da vingança branca

Tiago Carrasco 17 de março

Os ataques da União dos Povos de Angola (UPA) contra os colonos portugueses, a 15 de março de 1961, não pouparam mulheres nem bebés. Centenas de colonos ficaram para se vingar. A SÁBADO teve acesso exclusivo a um diário de horrores.

Embora não se conheçam, José Cardoso, 72 anos, branco, a residir no Brasil, e Carlos Mariano Manuel, 65 anos, negro, de Luanda, têm duas coisas em comum: amam o Uíge das suas infâncias, a região do Norte de Angola que, com centenas de fazendas, era o motor da segunda maior produção de café do mundo, e enganaram a morte que lhes estava agendada para a primavera de 1961.

Para José, aquela quarta-feira, 15 de março, era dia de festa: o pai fazia anos. À hora de almoço, com a família à mesa da Fazenda São Bento, onde cultivavam café e fruta, um empregado chegou com uma missiva do tio, que também tinha uma propriedade na vizinhança. O pai leu-a, atónito: "António, a tua irmã está muito mal. Temos de viajar para o Songo. Reunimo-nos na minha fazenda." Por momentos, lembrou-se do episódio recente com Sessa, o nativo bêbedo que corria as cantinas das quintas a pedir vinho e que, quando lhe haviam recusado um copo, pegara numa catana e ameaçara: "O patrão não dá vinho mas a terra vai mudar! Não se sabe se vai ficar branca ou vai ficar preta."

Sem que José soubesse, a terra já não estava preta nem branca, mas vermelha - de sangue. "Houve um levantamento e estão a matar todos os brancos, mestiços e negros que não queiram seguir as suas ordens. Já há milhares de mortos. Vamos embora, não sei se chegaremos vivos ao Songo", informaram-no, na fazenda do tio. Milhares de guerrilheiros da União dos Povos de Angola (UPA), munidos de catanas e canhangulos (armas de fogo artesanais), tinham-se insurgido naquela madrugada e atacado vilas e fazendas, eliminando colonos, os seus trabalhadores angolanos (bailundos, do Sul, na maioria), incluindo mulheres, crianças e bebés de colo.

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