O relatório de Ferreira da Cunha sobre o uso de napalm

O relatório de Ferreira da Cunha sobre o uso de napalm
António Araújo 25 de abril

Os comandantes militares em Angola, Moçambique e na Guiné enviaram por escrito o inventário das bombas incendiárias em cada um dos cenários. E do seu uso.

Napalm - as bombas do Zé da Várzea (3.ª e última parte)

É num contexto de progressivo isolamento internacional do Estado português, e por certo em preparação da resposta a dar às Nações Unidas, que, em 29/12/1972, a DG dos Negócios Políticos do MNE dirigiu um ofício ao gabinete do ministro da Defesa Nacional, contendo a documentação da ONU e o texto do relatório destinado a "informar indivíduos e governos acerca dos efeitos do napalm e outras armas incendiárias e de outros aspetos dos seus possíveis usos". Nada mais se afirmava neste ofício do MNE, recebido a 8 de janeiro de 1973 e distribuído ao Secretariado-Geral da Defesa Nacional (SGDN).

Dois meses depois, a 8 de março de 1973, um ofício classificado de "Muito Secreto" e da autoria de Francisco da Costa Gomes (ainda que não assinado), dirigido aos comandantes-chefes das Forças Armadas da Guiné, de Angola e de Moçambique, é particularmente ilustrativo. Sob a epígrafe "Napalm e Outras Armas Incendiárias", nesse ofício a Direção-Geral dos Negócios Políticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros solicitava ao SGDN que a habilitasse, "com os elementos que tiver por mais convenientes, para poder elaborar os comentários que [o MNE] terá de apresentar [à ONU]". E acrescentava-se: "Deverá esse comando-chefe informar se nesse TO [teatro de operações]: a) São empregues napalm ou quaisquer outras armas incendiárias; b) Em caso afirmativo, quais os tipos e circunstâncias em que são utilizadas."

O comandante-chefe das Forças Armadas de Moçambique, Kaúlza de Arriaga, em 4 de abril de 1973, informou que, desde 1968 até fins de fevereiro de 1973, tinham sido lançados por meios aéreos na 3ª Região Aérea bombas de napalm de 80 kg/100 litros e de 300 kg/350 litros e granadas INC. M/64 (as quais, advertia-se, poderiam ser lançadas por meios terrestres e aéreos).

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