Sábado – Pense por si

Germano Almeida
Germano Almeida

Erros crassos de homens "fortes"

Trump e Putin projetam-se como "homens fortes", mas cometeram dois erros crassos: acreditaram que poderiam tomar Kiev e Teerão (de formas diferentes), confiando em excesso na eficácia dos respetivos poderes militares. Ignoraram conselhos e planos, não quiseram saber da História e estão agora metidos num enorme sarilho: Vladimir atascado no atoleiro ucraniano, Donald encravado em Ormuz.

Temos Papa

O Papa Leão XIV veio lembrar-nos que é fundamental continuarmos humanos nas nossas imperfeições. A IA não pode ser destruída, mas deve estar ao nosso serviço -- nunca o contrário. A ilusão do "quase humano que até parece melhor que o humano" que a máquina cada vez mais projeta é o grande perigo dos dias que estão para vir. Precisamos de líderes com a coragem e a dimensão moral do antigo cardeal Prevost.

Fazer o correto e perder o lugar

Enfrentar Trump é um imperativo moral para quem quer preservar a Democracia. Por estes dias, há autênticos heróis que o fazem no Partido Republicano. São poucos e dois dos mais relevantes (Tom Massie e Bill Cassidy) perderam as primárias por causa disso. Sabem, como no passado souberam McCain e Romney, que é muito mais importante defender a honra e a clareza democrática do que se agarrar a um lugar político que se extingue e é efémero. Haja quem ainda assim seja.

O fim do bipartidarismo na Velha Albion

A "guerra civil" no Partido Trabalhista pode significar o fim definitivo do bipartidarismo no Reino Unido. Mas quer dizer muito mais: deixou de ser possível governar ao centro e pode ser impossível impedir que quem beneficie do disparate do Brexit seja quem o tenha promovido. Ainda falta muito tempo para terminar a legislatura do Labour, mas talvez seja tarde para evitar o pior.

Já nem o drama lhe vale

Trump tenta ir de drama em drama para disfarçar a sua total e manifesta incapacidade de desenvolver políticas públicas estruturadas. Sem soluções para a inflação que ele próprio criou pela aventura irresponsável no Irão, o Presidente dos EUA afunda-se num segundo mandato errático, incompetente e impopular. Nada que não se adivinhasse. Só não viu quem não quis ver. Onde andavam no primeiro mandato?

Trump já perdeu mas não sabe como disfarçar

Trump não sabe como sair da encruzilhada iraniana e anda a tentar disfarçar. Fala do tempo em que os EUA estiveram metidos no Vietname, no Iraque, no Afeganistão. Avisa que "ainda vai demorar algum tempo" até os preços dos combustíveis baixarem. Projeta uma ilusão de controlo quando, na verdade, está a perder em toda a linha: internamente, a sua aprovação está em queda e a inflação sobe; externamente, a perda de prestígio e de confiança nos EUA é muito evidente. Mesmo que continue a haver quem veja "plano" e "racionalidade" onde, manifestamente, não há.

Europa vence, Trump e Putin perdem

Os húngaros voltaram a gritar "os russos fora!", mas desta vez Orbán estava do lado dos perdedores. Magyar pode ser uma grande incógnita, mas, pelo menos, apresenta-se como alguém que quer travar a influência do Kremlin e voltar a uma relação saudável entre Budapeste e Bruxelas. Da tensão inusitada entre Vaticano e Casa Branca, o Papa Leão XIV venceu pela sabedoria serena e não se priva de proclamar: "Não tenho medo da Administração Trump". A defesa do "outro" e o respeito pelos mais fracos serão sempre o lado bom da Força.

"Uma civilização inteira desaparecerá"

Trump ficará marcado pelo que escreveu nas horas anteriores ao cessar-fogo de duas semanas. Ter ameaçado a destruição completa "de uma civilização" não é episódio que se apague só porque não foi concretizado. Este mandato presidencial entrará para os livros da História. Pelas piores razões.

Donald Trump é uma desgraça

Trump criou o problema e não sabe como sair dele. Desconversa, mente, insulta aliados, decreta mudança de regime em Teerão que, obviamente, não aconteceu. Enquanto isso, está lançada a crise energética e a pressão inflacionista. O Presidente dos EUA é uma desgraça. E está cada vez mais difícil encontrar eufemismos para disfarçar esta evidência. Por muito que haja quem não se importe de continuar a cair no ridículo

Para quem se liga no Irão?

Trump nunca soube muito bem o que quer com a guerra ao Irão. Mas parece cada vez mais claro que tenta uma saída rápida que lhe permita decretar algum tipo de "vitória" (seja lá o que isso for). Netanyahu, com objetivos muito mais definidos, fará tudo para prolongar os EUA envolvidos na agressão. Pelo meio, Zelensky, percebendo os riscos das vantagens para a Rússia do aumento do preço dos combustíveis fósseis, fez jogada diplomática de mestre na Arábia Saudita.

Quem despreza os aliados acaba sozinho

Trump destratou os aliados e depois chamou-lhes "cobardes" por não quererem ajudar a resolver Ormuz. O Presidente dos EUA teve o seu "momento Pearl Harbor" ao lado da primeira-ministra japonesa e agravou a ideia de que partiu para o Irão sem plano e sem a mínima noção do que poderá acontecer no "dia seguinte". Já agora: quando poderá ser esse "dia seguinte"? Alguém vislumbra como é que isto pode acabar?

Putin será o vencedor no Irão

Trump não tem objetivos claramente definidos e pode ter de escalar a guerra no Irão para não ficar com figura de perdedor. Não há plano da Casa Branca, não há consistência nos comportamentos. Putin agradece, Netanyahu sai reforçado. E a base MAGA aceita, passivamente, a enorme contradição de apoiar o contrário daquilo que durante anos exigiu. Demasiado perigoso para ficarmos só a rir de tamanha incoerência.

Entregues a um irresponsável

Trump de 2026 rebentou com tudo o que Trump do primeiro mandato e até o Trump da campanha para 2024 tinham jurado: passou de "Presidente da Paz" e do "America First" para mais um Presidente dos EUA a fazer uma guerra no Médio Oriente. E logo no Irão. Não foi para isto que a base MAGA votou nele. Mas grande parte desses eleitores nem percebe que foram enganados. A América vai pagar caro este aventureirismo irresponsável. Pior: vai sobrar para nós.

As três coisas que estão longe de acontecer

A invasão de Putin está longe de parar: o presidente da Rússia não quer "só o Donbass". Quer toda a Ucrânia. Faz da agressão sobre Kiev, em capa de expansão neoimperialista, a sobrevivência do seu modo de liderar. Recuar seria admitir o erro. E, no Kremlin, o poder afirma-se de forma vertical. Sem hesitações. A sangue frio, para que eventuais críticos ou opositores não acreditem em alternativas. Não percebermos isso é não percebermos nada.

Parem de dizer que "a Ucrânia já perdeu a guerra"

Não, gente: a Ucrânia "não perdeu a guerra". Muito menos lhe resta apenas "aceitar as exigências de Trump e submeter-se ao poder russo". Putin achava que tomava Kiev em quatro dias ou, vá lá, quatro semanas. Quatro anos depois, aqui estamos. Mais arriscado que o avanço russo no terreno (pífio, demorada, insuficiente) é acreditar em quem ecoa a propaganda de Moscovo. É esse o desafio: manter o apoio e permitir que a heróica resistência ucraniana não esmoreça. Não é por eles: é por nós.

Modi, o vencedor do arranque do ano

Modi tem sabido interpretar as oportunidades desta nova ordem de geometria variável e fez acordos comerciais com Reino Unido, União Europeia e EUA em poucas semanas. A Índia será um poder crescente de potencial elevado. Zelensky foi obrigado a explicar que para haver eleições terá de haver, antes, um cessar-fogo e garantias de segurança. A insistência de Trump no tema reforça suspeitas de que Putin tem mesmo o Presidente dos EUA na mão.

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