Marcelino da Mata, o comando que escapou a uma certidão de óbito por fuzilamento

Marcelino da Mata, o comando que escapou a uma certidão de óbito por fuzilamento
Eduardo Dâmaso 14 de fevereiro

Na morte de Marcelino da Mata regressa o seu mito mas também a memória dos comandos africanos deixados a morrer em Bissau, às mãos do PAIGC. Uma página de ignomínia na história portuguesa contemporânea, que permanece como uma ferida aberta, a que mais facilmente podemos chamar crime de guerra do que a qualquer operação dos comandos africanos feitas no teatro de um conflito que representou, mais do que qualquer outro, o estertor do império colonial português.

Portugal salvou Marcelino da Mata da vingança do PAIGC mas milhares de comandos africanos não tiveram a mesma sorte. O destino de uns e outros foi meramente traçado pelo acaso histórico e pela nova situação política emergente após a revolução de Abril de 1974. Foi desenhado pelo facto de estarem ou não em território guineense, nos dias que marcaram o fim do domínio português em Bissau. E do novo poder instalado em Lisboa, liderado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) se ter resignado com as vãs promessas do PAIGC, de que tratariam os militares africanos que tinham lutado pela bandeira portuguesa com humanidade. Não aconteceu! A vingança falou mais alto.

Marcelino da Mata estava na sua terra, numa operação militar em Aldeia Formosa, quando a revolução estalou em Lisboa. Saiu rapidamente da Guiné e nunca mais voltou. Viveu quase meio século mais. Milhares de outros camaradas de armas não viveram nem mais um dia, assim que os novos senhores do país assumiram o poder.

A máquina de guerra

Marcelino da Mata foi a mais importante máquina de guerra do exército português nos onze anos em que se travou o conflito militar na Guiné. Não há um único relato divergente sobre as suas qualidades, entre a confraria dos grandes combatentes das Forças Armadas desses anos, e que vai de Alpoím Calvão, Almeida Bruno, Matos Gomes, Jaime Neves ou Raul Folques, a par de muitos outros. Era um exemplo de bravura e inteligência operacional, dominava todos os dialetos do território e tinha um ascendente incontestado sobre as tropas africanas do contingente português no território, fossem comandos ou meros soldados das milícias locais. Recrutado em 1962, rapidamente se transformou numa lenda entre os povos da Guiné.

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