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Chavista e apaixonada há 30 anos: saiba quem é 'Cilita', a mulher de Maduro acusada de narcoterrorismo

Isabel Dantas 04 de janeiro de 2026 às 12:38
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Cilia Flores foi capturada pelas forças norte-americanas, juntamente com o marido, e vai ser julgada nos Estados Unidos.

Cilia Flores dormia ao lado do marido quando as forças norte-americanas irromperam pelo quarto do casal, em Caracas, arrastando-os até um helicóptero que os levaria a bordo de um navio de guerra e depois para Nova Iorque. A mulher de Nicolás Maduro está detida, juntamente com o presidente da Venezuela, nos Estados Unidos, e vai responder, entre outras acusações, por narcoterrorismo.

Nicolás Maduro e a mulher, Cilia Flores
Nicolás Maduro e a mulher, Cilia Flores AP

'Cilita', como é carinhosamente apelidada pelo marido, não é apenas uma primeira-dama que sorri para as fotografias nas cerimónias de Estado. A advogada, de 66 anos, é deputada na Assembleia Nacional da Venezuela pelo estado de Cojedes, de onde é natural.  Embora só tenham casado em 2013, o relacionamento de Cilia e Nicolás remonta aos anos 90, quando era advogada do então presidente Hugo Chávez.

Ao longo dos anos últimos Cilia - a quem muitos se referem como 'primeira combatente' - construiu o seu próprio capital político e ficou conhecida como uma das mulheres mais poderosas da Venezuela.

Nascida na cidade de Tinaquillo, na Venezuela central, cresceu entre a classe média. Tornou-se advogada especializada em Direito do Trabalho e a sua atuação foi considerada crucial para a libertação de Hugo Chávez, em 1994, após um golpe de Estado frustrado em 1992, que organizou na tentativa de depor o então presidente Carlos Andrés Pérez. Dez anos mais tarde Cilia voltaria a ajudar Chávez e aos poucos foi ganhando prestígio entre políticos e eleitores chavistas. Chegou a integrar o grupo mais restrito de conselheiros do 'comandante'. Maduro, por sua vez, fazia parte da segurança do presidente.

"Naquela luta pela libertação de Chávez, estivemos envolvidos em atividades de rua. Lembro-me sempre de quando um jovem pediu para falar, ele falou e eu pensei 'que inteligente'", contou a primeira-dama num podcast em 2023, recordando o início da sua relação com Maduro. 

Maduro e Cilia Flores em dezembro deste ano num evento público em Caracas
Maduro e Cilia Flores em dezembro deste ano num evento público em Caracas

Para além de advogada, Flores consolidou-se no círculo próximo de Chávez e chegou a ocupar cargos como o de Procuradora-Geral da República. Em 2006, tornou-se na primeira mulher a presidir a Assembleia Nacional, substituindo Maduro, que fora nomeado ministro das Relações Exteriores. Esteve no cargo durante cinco anos e ganhou fama por aplicar uma disciplina rigorosa, que impediu ruturas dentro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) em momentos de crise.

Em 2015 Cilia esteve com Nicolás Maduro - que já era vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela - em Cuba,  numa visita a Hugo Chávez, que padecia de um cancro e ali passaria os últimos meses da sua vida. Em 2015 'Cilita' exibia no seu perfil do Twitter as palavras "filha de Chávez", que depois mudaria para "chavista". 

Controvérsias

Cilia Flores foi acusada de favorecer e atribuir cargos públicos a familiares enquanto era deputada na Assembleia Nacional. Teria 16 parentes empregados, mas a deputada negou sempre as acusações, falando numa campanha de difamação levada a cabo por "mercenários da caneta". O caso causou polémica, os familiares de Flores foram despedidos mas alguns receberam novos cargos no governo apenas um ano mais tarde.

Em 2015 o seu nome voltaria à ribalta depois de dois dos seus sobrinhos, Efraín Antonio Campo Flores e Francisco Flores de Freitas, terem sido detidos pelas forças norte-americanas no Haiti por tráfico de drogas. Foram ambos conduzidos a Nova Iorque e condenados a 18 anos de prisão por conspiração para importar drogas para os Estados Unidos. Flores falou em "rapto" mas mais tarde, em 2022, foram libertados no âmbito de uma troca de prisioneiros entre os dois países. 

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Já em 2018 os Estados Unidos apontavam Cilia Flores como uma das pessoas mais poderosas do círculo próximo de Maduro e chegaram a estender sanções à primeira-dama, o que enfureceu o presidente venezuelano. "Se quiserem atacar-me, ataquem! Mas não mexam com a Cilia. Não interfiram com a minha família. Não sejam cobardes. O único crime que cometeu é ser minha mulher."

Nesta altura, 'Cilita' já tinha regressado à Assembleia Nacional, para onde tinha sido novamente eleita em 2017.

Acusação

Os Estados Unidos garantem que Maduro e a família "forneciam cobertura policial e apoio logístico" aos cartéis que transportavam droga por toda a região, resultando no tráfico de até 250 toneladas de cocaína por ano, até 2020, segundo a acusação. As drogas seriam transportadas em lanchas rápidas, barcos de pesca e navios porta-contentores, ou em aviões a partir de pistas de aterragem clandestinas.

A acusação garante também Nicolás Maduro e Cilia Flores ordenavam raptos, espancamentos e assassinatos “contra aqueles que lhes deviam dinheiro do tráfico de droga ou que, de alguma forma, prejudicavam as suas operações de tráfico”. 

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O 'The Guardian' acrescenta ainda que a mulher de Maduro é também acusada de aceitar centenas de milhares de dólares em subornos em 2007 para intermediar um encontro entre “um grande traficante de droga” e o diretor do Gabinete Nacional Anti-Droga da Venezuela.

Num acordo corrupto, o traficante terá aceitado pagar um suborno mensal ao diretor do gabinete anti-droga, além de cerca de 100 mil dólares por cada voo com cocaína “para garantir a segurança da aeronave”. Parte desse dinheiro teria sido depois entregue à mulher de Maduro, assegura a acusação norte-americana.

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