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Nas suas intervenções recentes, Passos voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da meritocracia, transparência e exigência na administração.
As recentes declarações de Luís
Montenegro sobre a chamada “teoria dos três blocos” ajudam a perceber o momento
político que o país atravessa, mas
revelam também os limites estratégicos do atual líder do PSD. Ao assumir uma
divisão entre esquerda fragmentada, direita radical/populista e um bloco
central PSD/CDS, Montenegro tenta posicionar-se como o único garante de
estabilidade. O problema é que, ao fazê-lo, corre o risco de se isolar.
O “não é não” ao Chega marcou uma
fase. Hoje Montenegro tenta a todo o custo não hostilizar PS e Chega de modo a
que não inviabilizem o governo. Ainda assim, permanece a sensação de que falta
uma causa mobilizadora, um discurso que alargue a base eleitoral e entusiasme
os descontentes. A fragmentação parlamentar existe, mas a resposta não pode ser
apenas geométrica. Tem de ser política.
É aqui que entra Pedro Passos Coelho.
Nas suas intervenções recentes, Passos
voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita
democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em
PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da
meritocracia, transparência e exigência na administração. Ao recuperar a
bandeira da CReSAP e o modelo que, há quinze anos, simbolizava um avanço
institucional, com figuras como João Bilhim, Passos regressa ao terreno onde se
sente confortável: o da exigência e da competência.
E esse terreno existe. É habitado por
eleitores descontentes com o socialismo, críticos do funcionamento do Estado,
cansados de subsídios indiscriminados, mas que também valorizam mérito, esforço
e mobilidade social. Muitos destes eleitores já admitiram votar em André
Ventura. Não por convicção ideológica fascista, recuso acreditar que 1.700.000
portugueses o sejam, mas por desencanto com o sistema político.
Esse eleitorado não é homogéneo. Há
nele trabalhadores da administração pública que acreditam merecer progressão,
que assumem sempre serem merecedores do mérito, e que são sempre injustiçados;
há beneficiários de apoios que, num mecanismo metal semelhante, criticam
subsídios “para os outros”, mas que encontram sempre justificação quando são
eles a receber; há conservadores sociais que rejeitam o socialismo; há liberais
económicos órfãos de uma liderança
carismática nos espaço partidário liberal. O excelente resultado de Cotrim de
Figueiredo nas presidenciais mostrou que esse espaço é real.
Passos Coelho percebeu-o. Ele reúne
três dimensões que fazem do PSD um verdadeiro catch-all party à
portuguesa: conservadorismo cultural, liberalismo económico e uma base
social-democrata no modelo sá-carneirista. Ao falar de mérito, transparência e
crescimento, dispara diretamente ao coração desse nicho eleitoral. O mesmo
nicho que Montenegro parece ter abandonado.
Há, porém, um ponto decisivo nesta
equação: nem Ventura, nem a extrema-esquerda, incluindo a esquerda à esquerda
do PS, se sentem confortáveis com a
ideia de meritocracia. À esquerda mais
ideológica, a meritocracia é vista como conceito estruturalmente injusto, por
alegadamente perpetuar desigualdades de partida e colidir com uma leitura
maximalista da igualdade, confundindo igualdade com uniformização e recusando a
diferenciação pelo desempenho. Já Ventura enfrenta uma limitação distinta:
grande parte do seu eleitorado vive da crítica ao sistema, mas desconfia de um
modelo exigente de avaliação objetiva, progressão por mérito e competição
aberta, sobretudo quando isso implica regras iguais e escrutínio real. A
retórica contra “subsídios para os outros” convive muitas vezes com a defesa
tácita de exceções próprias. Assim, enquanto uns rejeitam a meritocracia por
dogma ideológico e outros a instrumentalizam sem a poder assumir até às últimas
consequências, sobra espaço para quem a defenda como princípio estruturante do
Estado e da mobilidade social.
Por outro lado, quando alguns críticos
acusam Passos de ter perdido “a aura sebastiânica” por não ter apoiado
claramente Seguro na segunda volta presidencial, ignoram um dado essencial: há
setores à direita, incluindo muitos dos 1,7 milhões que votaram Ventura, que
simplesmente não votam num socialista. Se Montenegro não deu indicação de voto,
por que razão Passos hipotecaria essa fatia que o vê como alternativa
democrática ao voto de protesto?
Passos não disputa o centro que já
vota “por obrigação” no PS ou no PSD. Disputa quem está à direita, até mesmo à
sua direita. E faz bem. O erro estratégico seria deixar esse eleitorado
entregue ao radicalismo.
Há ainda outra armadilha: o “centrão”.
A imagem de bloco central de interesses é corrosiva. No Brasil, a palavra
tornou-se mais pejorativa do que “fascista” ou “comunista”. Simboliza décadas
de conivência, corrupção e estagnação. Nos fenómenos polarizados que emergem
pelo mundo, a estratégia é precisamente essa: empurrar o centro para um vazio
eleitoral. Rui Rio tentou recentrar o PSD e acabou por alimentar Chega e
Iniciativa Liberal, partidos que nasceram, em parte, das excrescências do
próprio espaço social-democrata e democrata-cristão.
Quando um líder, ou ex-líder, da
direita adota um discurso que agrada sobretudo à esquerda mediática, pode
recolher aplausos, mas não votos. A esquerda gosta de celebrar conservadores
“convertidos”. Porém, isso raramente se traduz em reforço eleitoral. Temos
recentemente o fenómeno de Chicão. É ver tudo o que simpatiza com a esquerda a
louvar a “agradável surpresa” em que se tornou aquele que se apelidou de
“caricatura de si próprio”.
Já Ventura e Passos têm em comum algo
decisivo: não falam para agradar à opinião pública de esquerda. Falam para quem
pode efetivamente votar neles.
Montenegro, ao assumir-se como líder
de um bloco central e ao renegar, de facto, 1,7 milhões de votos à sua direita,
parece resignar-se a uma base limitada. Pior: ao fazê-lo, empurra o PS para uma
esquerda cada vez mais estreita e minguada, reforçando a lógica de trincheiras.
A questão essencial é esta: quem quer
governar não pode ignorar um milhão e setecentos mil cidadãos. Não para ceder à
radicalização, mas para os resgatar para a esfera democrática. Um bom político
não compromete a honorabilidade, o
sentido institucional, ou os pilares democráticos ; mas também não exclui
eleitores por preconceito moral.
Passos Coelho percebe que o eleitorado
está à direita, e quer agregá-lo. Montenegro parece ainda procurar o mapa. Num
cenário de três blocos, talvez o verdadeiro desafio não seja escolher um deles,
mas ocupar o espaço que ficou vazio entre o protesto e a governação.
As evidências sugerem que as recentes e frequentes aparições
públicas de Pedro Passos Coelho não visam apenas preservar memória política,
comentar a espuma dos dias ou sequer ensaiar uma candidatura presidencial. Se
quisesse ser Chefe de Estado, ter-se-ia apresentado e, muito provavelmente,
vencido de forma expressiva a eleição deste ano. O que se desenha é algo
distinto: a preparação de um regresso ao lugar de onde nunca se conformou com a
saída, depois de ter ganho uma eleição
legislativa e de ter interrompido o seu projeto a meio da sua execução. Passos
saiu após aplicar as medidas difíceis e impopulares, e antes de poder
consolidar um modelo de crescimento estrutural e transformador que defendia
para o país. Hoje, ao recentrar o debate na reforma do Estado, na meritocracia
e na competitividade, parece reconstruir o fio desse projeto. E, ironicamente,
cada hesitação estratégica de Montenegro pode estar a oferecer-lhe as razões
políticas de que necessita para acreditar que esse regresso não é apenas possível,
mas necessário.
Nas suas intervenções recentes, Passos voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da meritocracia, transparência e exigência na administração.
Ventura não ganhará. E talvez fosse desejável que fizesse um percurso semelhante ao de Paulo Portas: não para se diluir numa voz indistinta, mas para, defendendo uma visão mais populista da sociedade, abandonar a verve de ameaça direta à democracia que hoje o define.
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