Sábado – Pense por si

Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
21 de fevereiro de 2026 às 08:00

Pedro, o Desejado

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Edição de 17 a 23 de fevereiro

Nas suas intervenções recentes, Passos voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da meritocracia, transparência e exigência na administração.

As recentes declarações de Luís Montenegro sobre a chamada “teoria dos três blocos” ajudam a perceber o momento político que o país atravessa,  mas revelam também os limites estratégicos do atual líder do PSD. Ao assumir uma divisão entre esquerda fragmentada, direita radical/populista e um bloco central PSD/CDS, Montenegro tenta posicionar-se como o único garante de estabilidade. O problema é que, ao fazê-lo, corre o risco de se isolar.

O “não é não” ao Chega marcou uma fase. Hoje Montenegro tenta a todo o custo não hostilizar PS e Chega de modo a que não inviabilizem o governo. Ainda assim, permanece a sensação de que falta uma causa mobilizadora, um discurso que alargue a base eleitoral e entusiasme os descontentes. A fragmentação parlamentar existe, mas a resposta não pode ser apenas geométrica.  Tem de ser política.

É aqui que entra Pedro Passos Coelho.

Nas suas intervenções recentes, Passos voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da meritocracia, transparência e exigência na administração. Ao recuperar a bandeira da CReSAP e o modelo que, há quinze anos, simbolizava um avanço institucional, com figuras como João Bilhim, Passos regressa ao terreno onde se sente confortável: o da exigência e da competência.

E esse terreno existe. É habitado por eleitores descontentes com o socialismo, críticos do funcionamento do Estado, cansados de subsídios indiscriminados, mas que também valorizam mérito, esforço e mobilidade social. Muitos destes eleitores já admitiram votar em André Ventura. Não por convicção ideológica fascista, recuso acreditar que 1.700.000 portugueses o sejam, mas por desencanto com o sistema político.

Esse eleitorado não é homogéneo. Há nele trabalhadores da administração pública que acreditam merecer progressão, que assumem sempre serem merecedores do mérito, e que são sempre injustiçados; há beneficiários de apoios que, num mecanismo metal semelhante, criticam subsídios “para os outros”, mas que encontram sempre justificação quando são eles a receber; há conservadores sociais que rejeitam o socialismo; há liberais económicos órfãos de uma  liderança carismática nos espaço partidário liberal. O excelente resultado de Cotrim de Figueiredo nas presidenciais mostrou que esse espaço é real.

Passos Coelho percebeu-o. Ele reúne três dimensões que fazem do PSD um verdadeiro catch-all party à portuguesa: conservadorismo cultural, liberalismo económico e uma base social-democrata no modelo sá-carneirista. Ao falar de mérito, transparência e crescimento, dispara diretamente ao coração desse nicho eleitoral. O mesmo nicho que Montenegro parece ter abandonado.

Há, porém, um ponto decisivo nesta equação: nem Ventura, nem a extrema-esquerda, incluindo a esquerda à esquerda do PS,  se sentem confortáveis com a ideia de  meritocracia. À esquerda mais ideológica, a meritocracia é vista como conceito estruturalmente injusto, por alegadamente perpetuar desigualdades de partida e colidir com uma leitura maximalista da igualdade, confundindo igualdade com uniformização e recusando a diferenciação pelo desempenho. Já Ventura enfrenta uma limitação distinta: grande parte do seu eleitorado vive da crítica ao sistema, mas desconfia de um modelo exigente de avaliação objetiva, progressão por mérito e competição aberta, sobretudo quando isso implica regras iguais e escrutínio real. A retórica contra “subsídios para os outros” convive muitas vezes com a defesa tácita de exceções próprias. Assim, enquanto uns rejeitam a meritocracia por dogma ideológico e outros a instrumentalizam sem a poder assumir até às últimas consequências, sobra espaço para quem a defenda como princípio estruturante do Estado e da mobilidade social.

Por outro lado, quando alguns críticos acusam Passos de ter perdido “a aura sebastiânica” por não ter apoiado claramente Seguro na segunda volta presidencial, ignoram um dado essencial: há setores à direita, incluindo muitos dos 1,7 milhões que votaram Ventura, que simplesmente não votam num socialista. Se Montenegro não deu indicação de voto, por que razão Passos hipotecaria essa fatia que o vê como alternativa democrática ao voto de protesto?

Passos não disputa o centro que já vota “por obrigação” no PS ou no PSD. Disputa quem está à direita, até mesmo à sua direita. E faz bem. O erro estratégico seria deixar esse eleitorado entregue ao radicalismo.

Há ainda outra armadilha: o “centrão”. A imagem de bloco central de interesses é corrosiva. No Brasil, a palavra tornou-se mais pejorativa do que “fascista” ou “comunista”. Simboliza décadas de conivência, corrupção e estagnação. Nos fenómenos polarizados que emergem pelo mundo, a estratégia é precisamente essa: empurrar o centro para um vazio eleitoral. Rui Rio tentou recentrar o PSD e acabou por alimentar Chega e Iniciativa Liberal, partidos que nasceram, em parte, das excrescências do próprio espaço social-democrata e democrata-cristão.

Quando um líder, ou ex-líder, da direita adota um discurso que agrada sobretudo à esquerda mediática, pode recolher aplausos, mas não votos. A esquerda gosta de celebrar conservadores “convertidos”. Porém, isso raramente se traduz em reforço eleitoral. Temos recentemente o fenómeno de Chicão. É ver tudo o que simpatiza com a esquerda a louvar a “agradável surpresa” em que se tornou aquele que se apelidou de “caricatura de si próprio”. 

Já Ventura e Passos têm em comum algo decisivo: não falam para agradar à opinião pública de esquerda. Falam para quem pode efetivamente votar neles.

Montenegro, ao assumir-se como líder de um bloco central e ao renegar, de facto, 1,7 milhões de votos à sua direita, parece resignar-se a uma base limitada. Pior: ao fazê-lo, empurra o PS para uma esquerda cada vez mais estreita e minguada, reforçando a lógica de trincheiras.

A questão essencial é esta: quem quer governar não pode ignorar um milhão e setecentos mil cidadãos. Não para ceder à radicalização, mas para os resgatar para a esfera democrática. Um bom político não compromete a honorabilidade,  o sentido institucional, ou os pilares democráticos ; mas também não exclui eleitores por preconceito moral.

Passos Coelho percebe que o eleitorado está à direita, e quer agregá-lo. Montenegro parece ainda procurar o mapa. Num cenário de três blocos, talvez o verdadeiro desafio não seja escolher um deles, mas ocupar o espaço que ficou vazio entre o protesto e a governação.

As evidências sugerem que as recentes e frequentes aparições públicas de Pedro Passos Coelho não visam apenas preservar memória política, comentar a espuma dos dias ou sequer ensaiar uma candidatura presidencial. Se quisesse ser Chefe de Estado, ter-se-ia apresentado e, muito provavelmente, vencido de forma expressiva a eleição deste ano. O que se desenha é algo distinto: a preparação de um regresso ao lugar de onde nunca se conformou com a saída,  depois de ter ganho uma eleição legislativa e de ter interrompido o seu projeto a meio da sua execução. Passos saiu após aplicar as medidas difíceis e impopulares, e antes de poder consolidar um modelo de crescimento estrutural e transformador que defendia para o país. Hoje, ao recentrar o debate na reforma do Estado, na meritocracia e na competitividade, parece reconstruir o fio desse projeto. E, ironicamente, cada hesitação estratégica de Montenegro pode estar a oferecer-lhe as razões políticas de que necessita para acreditar que esse regresso não é apenas possível,  mas necessário.

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