Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
21 de fevereiro de 2026 às 08:00

A Ucrânia e política de alianças

Uma aliança formal ou mesmo um entendimento sobre interesses conjunturais é, também, a forma que um estado adopta para controlar o comportamento dos seus aliados.

Chegados ao quarto ano de guerra em larga escala na Ucrânia os aliados de Kiiv ao declararem um entendimento sobre convergência de interesses visam algo mais do que a mera contenção de veleidades expansionistas de Moscovo.

A dissociação estratégica entre a maioria dos países europeus e os Estados Unidos é irremediável.

Para os estados da linha da frente, em particular países bálticos, escandinavos e Polónia, a ameaça de pressões e incursões russas, a pretexto de diferendos territoriais ou estatuto de minorias étnicas (sobretudo na Letónia e Estónia), deixa em aberto a possibilidade de uma escalada com riscos militares a curto prazo.

Divergências entre os actuais governo da Eslováquia e Hungria, favoráveis a concessões a Moscovo, são, contudo, menos significativas do que os atritos entre Paris e Berlim que procuram hegemonizar uma frente dos 27 da União Europeia a que se associaria o Reino Unido.

O fiasco do projecto lançado por Angela Merkel e Emmanuel Macron, em 2017, a que a Espanha aderiu dois anos mais tarde, do «Sistema de Combate Aéreo do Futuro» – orçado em cerca de 100 mil milhões de euros – inviabiliza um avião de nova geração de concepção e fabrico europeu, mas demonstra, sobretudo, a compita pela liderança de uma aliança militar com suas vertentes logísticas e económicas.

A opção, cada vez mais consensual na Polónia, de eventual desenvolvimento de capacidade nuclear militar autónoma é, outro exemplo, da dificuldade de articulação de um sistema de alianças que possibilite apoio militar e financeiro efectivo à Ucrânia num quadro europeu.

Mesmo que dificilmente poderes instituídos se arrisquem pela sobrevivência alheia é, no entanto, de crer, que Grã-Bretanha e França, com seus arsenais nucleares, não admitam alhear-se ante uma investida russa sem adoptar contramedidas em defesa dos seus aliados formais da NATO.

Nos círculos alargados de consideração de interesses, de Washington a Pequim, seriam ponderados cenários mais vastos e, genericamente, a redução de tensão visaria evitar o recurso a armas nucleares.

O cerne da questão é que uma aliança formal ou mesmo um entendimento sobre interesses conjunturais é, também, a forma que um estado adopta para controlar o comportamento dos seus aliados.

Na guerra ucraniana, em que é impossível ignorar o arsenal nuclear russo, uma das prioridades dos aliados de Kiiv é, consequentemente, conter dentro de limites que considerem ser os compatíveis com seus interesses, a capacidade de retaliação ucraniana.

Nem o colapso do estado ucraniano, nem o apoio ao revanchismo de Kiiv, são do interesse dos aliados europeus que terão de avaliar a curtíssimo prazo as consequências da previsível derrota republicana nas eleições para o Congresso, em Novembro, que levará Trump a investir ainda mais na frente externa.

A desfeita do Supremo Tribunal de Washington a Trump ao declarar a ilegalidade de sanções comerciais ilimitadas que o presidente promulgou sem autorização do Congresso demonstra como as dinâmicas política internas são cruciais para configurar a relação com outros estados.

A guerra no horizonte dos Estados Unidos com o Irão torna ainda mais urgente uma clarificação estratégica dos aliados europeus de Kiiv, nomeadamente os termos de adesão da Ucrânia à União Europeia.

O conceito e prática de esfera de influência implicam o controlo indirecto pelo estado hegemónico de decisões políticas, com impacto relevante nos seus interesses e/ou implicando outras potências rivais ou aliadas, nos países subordinados.

Ao lidar com Moscovo há um axioma que define a política de grande potência da política russa que muitos estados europeus menosprezam.

Só a capacidade autónoma de defesa e ofensiva – agregando aliados de circunstância ou com interesses compatíveis a médio prazo – define uma grande potência.

No final do século XIX, entre 1881-1894, nos anos do reinado de Alexandre III, a Rússia, apesar de alargar o seu domínio russo na Ásia Central, perdeu influência nos Balcãs e Mar Negro.

O tzar, malogradas alianças com a Grã-Bretanha, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, viu-se obrigado a procurar um entendimento com a França republicana.

O genro do «imperador pacificador», o Grão-Duque Alexandre Mikhalovitch, haveria de recordar, depois de 1917, numa das suas memórias de exilado em Paris, como o tzar se queixava amargamente aos seus ministros de que a Rússia só podia contar com dois aliados fiéis: o exército e a marinha imperiais.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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