Fundador da CNN, pioneiro da televisão por cabo, magnata indisciplinado, empresário e filantropo ambientalista, morreu esta quarta-feira, 6 de maio, aos 87 anos.
Quando Ted Turner lançou a CNN, em Atlanta, Geórgia, a 1 de junho de 1980, a ideia parecia quase absurda: um canal dedicado exclusivamente a notícias, 24 horas por dia, num tempo em que a informação televisiva ainda obedecia ao ritual dos noticiários a horas certas.
Turner lançou o canal televisivo CNN em junho de 1980Associated Press
A própria CNN foi troçada como a Chicken Noodle Network, uma piada com as suas iniciais e com a aparente fragilidade de um projeto que muitos julgavam condenado. Turner, com a arrogância de quem fazia da audácia método, respondeu de outra forma: “Salvo problemas de satélite, não vamos sair do ar até ao fim do mundo”. Morreu esta quarta-feira, aos 87 anos, mas o legado corrobora-lhe a frase.
Robert Edward Turner III nasceu em Cincinnati, Ohio, a 19 de novembro de 1938, mas cresceu no sul dos Estados Unidos, depois de a família se mudar para Savannah, na Geórgia. Estudou em escolas militares, nas quais se destacou como debatedor e velejador, e entrou na Universidade Brown, em Rhode Island, antes de abandonar os estudos.
O pai, proprietário de uma empresa de publicidade, queria que seguisse o negócio familiar; Turner preferiu os clássicos, uma escolha que o irritou profundamente. Aos 24 anos, depois do suicídio do pai, herdou uma empresa endividada e um destino que parecia já traçado pela dureza familiar. Em vez de a deixar desaparecer, recomprou o negócio, reergueu-o e transformou-o na plataforma de uma das maiores aventuras empresariais da televisão norte-americana.
O primeiro salto deu-se em 1970, quando comprou uma estação UHF em Atlanta por 2,5 milhões de dólares (cerca de 2,1 milhões de euros) contra o conselho de quase todos. A estação tinha sinal fraco e futuro duvidoso. Turner, porém, percebeu antes de muitos que o cabo e o satélite podiam transformar uma televisão local numa presença nacional.
Em 1976, começou a transmitir o canal por satélite para sistemas de cabo em todo o país. Nascia a TBSSuperStation, alimentada por filmes antigos, séries repetidas e jogos dos Atlanta Braves, equipa de basebol que comprou também para garantir conteúdo próprio. Foi, contudo, a CNN que o tornou numa figura histórica.
Num tempo anterior aos telemóveis, à internet e às notificações permanentes, Turner soube entender que a notícia podia deixar de ser um boletim para passar a ser fluxo. A CNN foi a primeira rede televisiva de notícias 24 horas por dia, dando ao público a possibilidade, então revolucionária, de escolher quando queria saber o que se passava no mundo.
O momento de consagração chegou em 1991, durante a Guerra do Golfo, quando a CNN permaneceu em Bagdade enquanto outros jornalistas abandonavam a cidade, transmitindo imagens e relatos do início dos bombardeamentos. Nesse ano, a revista Time escolheu Turner como “Homem do Ano”, descrevendo-o como um “televisionary” – ou televisionário – que transformara milhões de espectadores em testemunhas imediatas da história.
A sua obra, no entanto, não se esgotou na CNN. Turner construiu um império que incluía os canais TBS, TNT, CNN International, Cartoon Network, Turner Classic Movies e interesses no cinema, depois da aquisição dos estúdios MGM/UA. Em 1996, vendeu a Turner Broadcasting à Time Warner por 7,3 mil milhões de dólares em ações (aproximadamente 6,2 mil milhões de euros) num dos grandes negócios mediáticos da década. Tornou-se o maior acionista individual do novo grupo mas perdeu gradualmente o controlo daquilo que tinha criado. Mais tarde resumiria esse desfecho com uma frase amarga: “Cometi um erro. O erro foi perder o controlo da empresa.”
Havia nele uma vocação simultânea para a construção e para o excesso. Chamaram-lhe “Mouth of the South”, ("A Boca do Sul") “Captain Outrageous” ("Capitão Ultrajante") e “Terrible Ted” ("Terrível Ted"); ele próprio contribuiu para a lenda com frases como “se eu tivesse um bocadinho de humildade, seria perfeito”. Falava sem filtro, colecionava conflitos e não raramente transformava o impulso em espetáculo.
Mas a caricatura do magnata ruidoso era apenas uma parte da história. Turner foi também um velejador de elite, vencedor da America’s Cup em 1977 ao leme do Courageous; proprietário dos Atlanta Braves e da equipa de basquetebol da Atlanta Hawks (NBA); criador dos Goodwill Games, em 1986, uma competição de espírito olímpico pensada em plena Guerra Fria; e um dos maiores proprietários privados de terra nos Estados Unidos. Em anos mais recentes, concentrou parte da sua vida em ranchos, conservação ambiental e numa das maiores manadas privadas de bisontes do país.
A vida pessoal acabaria também por acompanhar a escala pública. Casou-se três vezes, todas terminadas em divórcio, a última com a atriz Jane Fonda, entre 1991 e 2001. Teve cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos. Nos últimos anos, afastado da televisão e já sem o domínio empresarial que o definira, revelou em 2018 ter sido diagnosticado com demência de corpos de Lewy, doença neurodegenerativa que afeta cognição, movimento e comportamento.
Turner foi o milionário, o provocador que financiou causas globais e que construiu impérios por satélite. A CNN, hoje tão natural no cardápio informativo, nasceu de uma ideia que parecia improvável. Turner percebeu antes dos outros que o mundo deixaria de esperar pela notícia. Depois dele, passou a vivê-la em direto.
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