Foi protagonista de uma das mais “brilhantes” falências da história: a queda da Air Luxor, um processo de €86 milhões ainda em aberto e repleto de histórias mirabolantes. Paulo Mirpuri criou uma fundação "de pesquisas" e aterrou um A380 em Beja
[Artigo originalmente publicado a 9 de agosto de 2018 na revista SÁBADO, recuperado agora a propósito da morte de Paulo Mirpuri]
O mais mediático dos Mirpuri teve um passado polémicoDR
O
vídeo tem quase 10 minutos e arranca com belíssimas imagens de um veleiro a sulcar o mar ao som de Elysium, do filme Gladiador. Na embarcação
lê-se Mirpuri Foundation–For a Better World (Fundação Mirpuri – Para Um Mundo
Melhor). Seguem-se aindamais belas imagens: lindas baleias que saltam, pinguins que
mergulham provocando múltiplas bolhinhas, lindos cardumes de peixes e lindas medusas
pairando.
A
beleza é interrompida ao 1m13s quando aparece Paulo Mirpuri, com ar sério.
Paraquemnão ouve falar dele há anos, desde a falência da Air Luxor, pode ser
difícil reconhecê-lo: hoje com 51 anos, está mais velho, mas deixou de ter
cabelos brancos.
Em outros vídeos e fotos, a tonalidade do cabelo oscila, indiciando logo aí as
propriedades camaleónicas do homem que parece sobreviver a tudo.
Mirpuri está
sério porque tem uma mensagem forte e impactante: “O oceano sustenta a vida na
Terra”, diz, para concluir logo a seguir, num raciocínio totalmente redondo,
que “sem o nosso oceano a vida na Terra simplesmente não poderia existir”. Paulo
Mirpuri irá terminar o vídeo com um aviso: “Se atuarmos em conjunto e sem mais
demoras, ainda temos chances, e esta pode muito bem ser a última.”
Uma fundação de “pesquisas”
Todo
o vídeo é um desenrolar de lugares-comuns ambientais, até que aos 3m31s a
narradora diz (todo o vídeo é em inglês, assim como o nome da fundação e o site):
“A Mirpuri Foundation, no decurso das suas pesquisas, descobriu que em poucas
décadas as populações de vertebrados marinhos caíram mais de 50%.”
O
vídeo é de 25 de maio de 2017, pouco mais de um ano depois de a Mirpuri
Foundation (MF) ter sido constituída
(21Março de 2016) e menos de um ano antes de ser reconhecida (23 Fevereiro de
2018, despacho da ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques). Como é
que uma empresa tão nova fez tais “pesquisas”?
Nota: à data de 2026, este vídeo já não existe no canal de YouTube da Mirpuri Foundation. Há três anos foi colocado outro vídeo, com o mesmo titulo:
Consultando
o site da MF, não há referência a um único trabalho ou investigação da sua
autoria. Sobrou a alternativa de colocar na Internet a frase sobre as
“pesquisas”. A luz veio de um comunicado da World Wildlife Fund (WWF) de 16 de
Setembro de 2015, no qual se lê que “o relatório Living Blue Planet da WWF
revela que em menos de 50 anos os oceanos perderam 50% das suas populações de
vertebrados.” Há ainda dados que originalmente aparecem num artigo do The
Independentde 1
de Outubro de 2016, num relatório das Nações Unidas de 10 de Maio de 2017, num estudo
do MIT
de 30 de Setembro de 2014 e num artigo do The Washington Post de 9 de novembro
de 2016.
“Observatórios”e “movimentos”
Paulo
Mirpuri não está sozinho no vídeo. Aos 6m35s entra a “Dr. Luiza Varela –
Medical Doctor” a falar do “colapso dos ecossistemas marinhos”. Não existe
nenhuma médica em Portugal chamada Luiza Varela. Mas existe uma Maria Luísa
Garraz Pereira Varela Mirpuri, que dá consultas em Lisboa como
otorrinolaringologista sob o nome Maria Luísa Mirpuri (cédula 33.780 da Ordem dos
Médicos).
Fotografias
das duas mostram que se trata da mesma pessoa: a mulher de Paulo Mirpuri, cargo
que acumula com um lugar no conselho de administração da MF – onde está também
a cunhada, Filomena. Por se encontrarem de férias até Setembro – como nos
informaram no consultório –, não foi possível questionar
Maria Luísa Mirpuri sobre este assunto. Aos 6m50s aparece ainda uma jovem a
falar das ameaças aos oceanos. É Laura Mirpuri – filha de Maria Luísa Mirpuri,
a “Dra. Luiza Varela”, e de Paulo Mirpuri. Laura não tem escapatória: o artigo
5º dos estatutos diz que passa automaticamente a presidente em caso de morte ou
renúncia do pai.
A
jovem Mirpuri surge identificada como pertencendo ao “Youth Thouths Movement”.
Desculpando a gralha (“thouths” em vez de “thoughts”, pensamentos), trata-se do
Youth Thoughts, um projecto online de
2016, em que vários adolescentes (Carolina Deus Pinheiro, Luís Pereira
Coutinho, Salvador Fezas Vital,
Maria Larcher Almeida, etc.) refletem sobre o mundo. Laura tem dois textos, não
sobre os oceanos, mas sobre “a sociedade consumista”, temática que hoje reflete
nas suas redes sociais em jactos, palácios e praias nas Caraíbas. O “Movement”
parou em 2017.
Sem agenda para entrevistas
Surge
ainda no vídeo a “Dr. Inês Amaral –Mirpuri Foundation Observatory”. Não é
possível encontrar nenhum “Observatory” ambiental na MP, mas é possível
encontrar Inês Amaral. Não é médica: trabalha na Uniplaces, empresa de
arrendamento de quartos para estudantes. É sobrinha de Paulo Mirpuri.
Quanto
aos curadores, um deles é há longa data colaborador da Mirpuri Investments.
Trata-se de Gabriel Goucha, que foi deputado do PSD na anterior legislatura.
Outro é Fernando Neves Gomes, que teve uma empresa de compra e venda de
aeronaves (a Jetlink, hoje em liquidação) de que foi administradora Marianela Mirpuri,
irmã de Paulo. O outro curador é Manuel Guerra Pinheiro, de que PauloMirpuri é “amigo
e cliente”, segundo nos informaram quando ligámos para uma das suas empresas, a
Across Science, que tem sede na Rua Latino Coelho, 1, em Lisboa– a mesma morada
da MF, da Hi Fly e da Mirpuri Investments. Guerra Pinheiro tem ainda registado
nesse edifício o seu escritório e mais 10 empresas.
Através
do único contacto existente no site da MF– um email –, a SÁBADO tentou
questionar a MF e o seu fundador. A assessoria de imprensa respondeu que
“lamentavelmente, por motivos de agenda, não é possível marcar uma entrevista
como Dr. Paulo Mirpuri.” A SÁBADO procurou também Paulo Mirpuri através do seu email
da Mirpuri Investments, mas não obteve resposta. Na Latino Coelho foi-nos
dito na portaria que era totalmente proibido falar com alguém pessoalmente.
O currículo “retocado”
Ficou
por saber porque está a MF aparentemente a plagiar pesquisas científicas, a
alterar nomes de médicos e a empolar e inventar movimentos e observatórios. E
porque é que os seus cargos de controlo interno estão preenchidos por
familiares, amigos e advogados do presidente. Porque quer ainda a MF “salvar o mundo”,mas
não tem um número de telefone para onde se possa ligar para ajudar? Porque
aceita donativos no site (€25, €50, €100, €500, €1.000, €5.000 ou
“Other”)?
Esta
secção tem o título “Envolva-se – Ajude-nos a Mudar o Mundo” com uma foto do
que parece ser uma criança imigrante do Magrebe. Porque quer a MF promover a
“investigação científica, da medicina e das ciências da vida” (artigo 2º), mas os
projetos que apoia nessas áreas são da irmã do presidente (“... a dr. Ivone Mirpuri
no campo da Medicina Anti-Envelhecimento”) e da mulher do presidente (“... a Dr.
Luiza Mirpuri no campo dos Factores Humanos que podem influenciar a Fadiga das Tripulações”)?
Qual a data, intervenientes e resultados das pesquisas que a MF diz fazer? E
qual o número de empregados, fontes de receita, remuneração dos órgãos sociais
e património?
Não
houve resposta ainda à questão do currículo oficial de Paulo Mirpuri colocado online,
que tem a principal curiosidade de omitir a sua grande criação, a Air Luxor. Mais
curioso, o currículo inclui “investimentos” (sem especificar) em vários
gigantes mundiais, como “Amazon, American Express, Apple, Coca-Cola, Credit
Suisse, ExxonMobile, General Electric, Goldman Sachs, JP Morgan,
Merck,Microsoft, Pfizer e Walt Disney, entre outros”.
Cheques sem contabilidade
O
regresso mediático de Paulo Mirpuri dá-se com a MF, mas sobretudo com a
aterragem em Beja, em Julho, com a bandeira da Hi Fly, de um A380, o maior
avião comercial do mundo. Não houve referências à ligação Hi Fly-Mirpuri-Air
Luxor, mas no Tribunal do Comércio de Lisboa o elo está lá, numa ação de
insolvência que dura há 12 anos e que foi consultada pela SÁBADO.
Havia
226 credores a reclamar dívidas, num total de €86milhões. Destes só se
conseguiu “apanhar” €1,5milhões. O BES era (e é) um dos principais credores:
cerca de €4,2 milhões, sustentados em seis garantias bancárias, três créditos e
cinco livranças, sendo que tais operações estavam avalizadas “pelos Senhores Drs.
Paulo Mirpuri e Carlos Mirpuri e respetivas esposas Maria Luísa Mirpuri e Alexandra
irpuri”. Mas não há notícia de alguma vez o banco ter acionado essas garantias.
Porquê? Nem Fernando Duarte (representante na comissão de credores desde o
início) nem a administração do Novo Banco (ex-BES) responderam às questões da
SÁBADO.
A
ligação com Ricardo Salgado é também invocada por José Simões Coelho
(ex-braço-direito de Paulo Mirpuri
em alguns negócios) numa queixa na qual alegava que Paulo Mirpuri “coma
conivência do BES, após a sua demissão e exoneração como gerente da Air Luxor
STP, continuou a retirar elevados montantes para pagamentos”.
Este
é um dos problemas do processo. A dada altura, o grupo tinha cerca de 50 contas
bancárias e 15 empresas em vários países (catering, manutenção,
transporte, operações turísticas, etc.) e há registos da empresa A a pagar à B
algo referente à C. Num relatório pedido pela comissão de credores, a
consultora Pricewaterhouse Coopers (PwC) revela várias transferências e cheques
descontados “não refletidos na contabilidade” num total de €2,246 milhões,
incluindo “11 cheques de 125 mil euros, alegadamente assinados por e tendo como
beneficiário Paulo Mirpuri”. Era um grupo gerido numa lógica familiar. “A indistinção
entre a insolvente [Air Luxor] e os seus sócios e administradores levava a que
os mesmos beneficiassem de bens e fundos da sociedade”, escreveu o
administrador de insolvência, Fernando Bordeira Costa.
Por
exemplo (um entre vários que estão no processo), a 22/10/2003 Paulo Mirpuri
transferiu €748 mil de uma conta da Air Luxor (AL) para uma conta sua. A saída
foi justificada na contabilidade da AL como “Suprimentos Mirpuri Properties”,
sendo que as duas empresas não tinham qualquer relação comercial. O
administrador de insolvência não tem dúvidas: “O modelo de gestão do dr. Paulo
Mirpuri assenta na adulteração financeira das empresas e no engano de acionistas,
credores, fornecedores e público.”
Há
ainda um relatório do fisco a dar conta em 2003 de “transferências de valores
de €7,190milhões para empresas offshore, alegadamente detidas pelos
mesmos titulares” da AL. O mesmo fisco que obrigou ao pagamento de €4,5 milhões
e €15,6 milhões, em 2002 e 2003, por irregularidades. Atualmente, a Hi Fly
parece estar a passar pelo mesmo problema.
Um
relatório empresarial a que tivemos acesso diz que a transportadora foi
notificada para pagar €12,5 milhões referentes aos anos fiscais 2012, 2013 e
2014.
Faturas falsas
Ainda
mais grave, há referências a faturas falsas na AL. Por exemplo, uma fatura de
11 de Agosto de 2005 emitida pela americana Aero Solutions de €4,750milhões
para pagar um reator. “A fatura é falsa já
que não foi emitida pela Aero Solutions, naquela data e com aquele valor, nem o
reator teve aquele custo”,
lê-se no processo A única fatura da Aero Solutions à AL em 2005 é de €314. “Como
alegado pagamento parcial dessa fatura [€4,750 milhões], em 22/09/2005 foi
retirada de uma conta da AL para uma conta do N.I.B., pelo senhor Paulo
Mirpuri, a quantia de €1,5 milhões, não tendo tal dinheiro sido entregue à Aero
Solutions”, diz o administrador de insolvência.
O
N.I.B. foi um banco que Paulo Mirpuri criou em 2003 em São Tomé e Príncipe e
que era gerido a partir de Lisboa – bloqueado desde 2006, foi fechado em 2011.
Quanto à queixa de Simões Coelho por insolvência dolosa, foi arquivada por falta
de provas (contabilísticas).
Coelho
e Mirpuri eram amigos, depois desentenderam-se e têm vindo a trocar processos,
mesmo depois de o primeiro ter adoecido gravemente em 2015 (o que o impediu de
falar com a SÁBADO). Rui Lopes dos Santos, advogado de um dos principais
credores, a companhia belga Sabena (foram eles que conseguiram cobrar os tais €1,5
milhões), deixa à SÁBADO outra perplexidade: “Esta insolvência tem
12 anos, está em liquidação há 10 e há um incidente de qualificação (para
determinar o que se passou com a AL), mas o tribunal ainda não marcou o
julgamento. Paulo Mirpuri nunca veio explicar o que se passou. Continuamos à
espera.”
A
tese perpassa por todo o processo: por volta de 2004 ou 2005, Paulo Mirpuri
percebeu que a Air Luxor ia abaixo e tentou salvar para si as coisas boas (que
colocou num novo grupo, a Mirpuri Investments) e deixar de lado as más.
O
administrador de insolvência diz que nesta janela de transferências “desapareceram
pura e simplesmente bens do imobilizado”, o que foi “uma situação de crime de roubo”.
As “transferências” incluíram um Porsche e dois aviões, cujos
contratos de leasing passaram da AL para a Hi Fly.
As "transferências" incluíram um Porsche e dois aviões, cujos contratos de leasing passaram da Air Luxor para a Hi Fly. Avaliado em 64 mil euros, o veículo matrícula NH-08-07 estava no imobilizado da Air Luxor. O administrador de insolvência atesta com o registo do automóvel que o mesmo, a 8 de Setembro de 2006, passou para o nome da filha de Paulo Mirpuri, Laura, que na altura tinha apenas 6 anos.
Um relatório da Price waterhouse Cooper, pedido pela comissão de credores, recorda a mesma "transferência", referindo que "Paulo Mirpuri, na qualidade de presidente de presidente do conselho de administração da Air Luxor transferiu a titularidade do Porsche, por simulada venda, para a sua filha de 6 anos de idade, Laura Mirpuri." Lê-se ainda que outros quatro veículos (todos comerciais) passaram para a MESA, uma empresa de manutenção de aeronaves que Paulo Mirpuri criou em Agosto de 2004 e que passou para o lado "bom" do grupo.
Paulo Mirpuri
conseguiu, por exemplo, passar da AL para a Hi Fly o contrato com a Strategic
Aviation para o transporte de tropas australianas que gerava €1,4 milhões
mensais.
Na
“parte boa” do grupo estava ainda a Air Luxor Cabo Verde (ALCV), que Paulo
Mirpuri vendeu a si
próprio (da AL para a Mirpuri Investments) em Novembro de 2005 por €1,2milhões.
Mas como o comprador
e o vendedor eram o mesmo, nem se encontrou suporte contabilístico para a
operação, o administrador de insolvência anulou o negócio. Só que terá falhado um
prazo e o tribunal anulou tudo.
Foi
assim que Paulo Mirpuri conseguiu salvar para si a rentável empresa que gere
(com contrato de 30 anos)
o espaço aéreo executivo na ilha do Sal, um importante apoio logístico a meio
do Atlântico.
Quanto
à “parte má” do grupo, Paulo Mirpuri vendeu-a por €50 mil em Julho de 2006 a
Vítor Pinto da Costa, um empresário desconhecido, que poucos meses depois voltaria
a desaparecer. Comprou através de duas empresas (Biorecolhe e Bioconcreta)
criadas dias antes com sede numa morada (Av. Mário Sacramento, 113, Ílhavo) que
é um hotel.
Foi
um contrato perfeito para Paulo Mirpuri. Pinto da Costa cedeu também “80% do
valor de indemnização que a AL venha a receber do Estado pelo processo judicial
relativo à rota Lisboa-Ponta Delgada.” Trata-se de uma batalha ganha pela AL,
que estima receber €105 milhões. Será a próxima batalha: quem Tem direito a
estes milhões?
O
contrato estabelece ainda que quaisquer dívidas de Paulo, Carlos, Marianela,
Sílvia e Luís Mirpuri às empresas da Air Luxor Holdings “consideram-se
saldadas”. O mesmo para qualquer empréstimo que haja
entre as sociedades entre si. Cláudio Têmpera, chefe de contabilidade da AL,
chegou a dizer em
tribunal que uma das lacunas contabilísticas tinha sido um empréstimo de €16,7
milhões à Mirpuri Investments
sem qualquer plano de pagamentos. A PwC afirma que os empréstimos da AL
serviram para lançar o novo grupo.
Ou
seja, Paulo Mirpuri terá usado dinheiro da parte má do grupo para alavancar a
boa. Terminava assim a vida da Air Luxor – mesmo ao lado, a Hi Fly levantava
voo. A nova companhia foi dar uma volta tão grande e demorada que já ninguém se
lembrava de quem é que estava aos comandos daquele Airbus A380 que aterrou em
Beja.
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