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Mulher conta como foi torturada e conseguiu sobreviver a um cativeiro secreto russo na Ucrânia

Raptada à porta de casa e enviada para uma prisão de tortura russa, Liudmyla Huseinova, de 64 anos, sobreviveu a três anos de abuso: foi agredida sexualmente, obrigada a permanecer em pé das 6h às 22h e forçada a comer comida crua misturada com terra e lixo. Entretanto libertada, agora apoia outras mulheres detidas.

A madrugada de outubro de 2019 marcou o início do que Liudmyla Huseinova descreveu como um "pesadelo". Um grupo de homens saiu de um carro, agarrou a mulher de 64 anos à porta de casa, confiscou-lhe a mala e atirou-a para o banco de trás do veículo. Assim começou o percurso pelo sistema secreto de detenção russo, que se encontra instalado em várias partes da Ucrânia ocupada. "Durante três anos e 13 dias da minha vida, a minha alma e o meu corpo foram mutilados", começou por contar à .

Cidade de Donetsk é palco de combates intensos
Cidade de Donetsk é palco de combates intensos AP Photo/Yevhen Titov

Na altura, Liudmyla trabalhava como engenheira de segurança numa exploração avícola em Novoazovsk, na região de Donetsk, perto da fronteira com a Rússia, mas dedicava também parte do seu tempo a tomar conta de órfãos e a levar comida às forças ucranianas - que lhe ofereceram uma bandeira da Ucrânia com mensagens de agradecimento. Acredita que foi a fotografia da bandeira que partilhou com amigos de confiança que acabou por chegar às forças apoiadas pela Rússia. "Provavelmente foi por isso que me prenderam", diz.

Liudmyla acabou por ser acusada de espionagem e levada para Izolyatsia - uma antiga fábrica transformada em galeria de arte moderna que foi depois tomada pelas forças apoiadas por Moscovo. À chegada, conta, um grupo de homens desconhecidos cercou-a e começou a beliscá-la. "Não é um pêssego", dizia um deles. "Nem um damasco seco. É uma passa."

As condições naquele centro eram brutais: os detidos eram obrigados a permanecer em pé das 6h às 22h e as luzes fortes permaneciam acesas durante a noite. Nos primeiros dias, Liudmyla lembra-se até dos sons de angústia que vinham de outras celas. "Nunca tinha ouvido gritos tão terríveis", recorda.

Duas semanas depois, foi transferida para o segundo andar, onde um homem chamado "Koval" lhe disse que ela era "velha de mais para rapazes que vêm para 'relaxar'". Ali estava Yurii Temerbek - um antigo polícia de trânsito ucraniano que se juntou aos separatistas apoiados pela Rússia - que "fazia comentários sarcásticos e a rir". Koval acabou por agredi-la sexualmente enquanto Temerbek ficava a assistir. 

Liudmyla viu Temerbek pela última vez por volta de 2021, quando ele a apelidou de "vadia" e ameaçou enviá-la para a Sibéria. Mais tarde, à medida que iam surgindo inúmeros relatos de tortura por parte de ex-detidos, o local passou a ser amplamente conhecido e temido.

Liudmyla só conseguiu identificar Temerbek quando viu um documento e lembrou-se que ele era conhecido localmente pela sua atuação na polícia ucraniana. O homem foi acusado de trabalhar para o Ministério da Segurança e do Estado, estabelecido pela República Popular de Donetsk, que foi criada por paramilitares apoiados pela Rússia. Enfrenta agora um processo criminal por pertencer a um "grupo terrorista".

A BBC, que trabalhou com investigadores, descobriu ainda que Temerbek estudou ucraniano na universidade, tem mulher, uma filha e um filho na casa dos 20 anos, além de um neto, e vive na região de Rostov, na Rússia, perto da fronteira com a Ucrânia. Uma fotografia publicada nas redes sociais antes de 2014 mostra-o com um uniforme da polícia ucraniana e um distintivo que o identifica como polícia de trânsito. A BBC não conseguiu apurar, contudo, se o homem está empregado atualmente.

Além de Temerbek, a investigação da BBC conseguiu identificar ainda outros guardas acusados de abusar de detidos. Um deles é Yermark, cuja cara Liudmyla nunca viu porque lhe colocavam um saco na cabeça. Uma das vezes, Yermark ordenou-lhe que comesse comida crua misturada com terra e lixo. "Cuspi tudo, mas ainda ficou alguma coisa. O sabor desta comida vai ficar-me na memória para o resto da vida", recorda. Agora, até o cheiro da comida a cozinhar considera insuportável e tem dificuldade em seguir uma alimentação normal.

Numa outra ocasião, Yermark entrou na cela de Liudmyla e gritou: "'És a favor da Ucrânia'? E eu respondi: 'Sou a favor da justiça'. Depois disso, ele começou a bater-me."

Yermark tem hoje 46 anos e segundo informação que consta nas suas redes sociais, estudou direito na Universidade Nacional de Donetsk. É ainda acusado de múltiplos crimes, incluindo de tratamento cruel de prisioneiros de guerra e civis.

Liudmyla foi libertada em 2022, durante uma troca de prisioneiros. Agora, vive com o marido em Kiev e gere uma organização que apoia outras mulheres detidas, ajudando a enviar encomendas das famílias para quem continua em cativeiro.

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