Podem fazer o pino ou fazerem-se de estátuas para tentar conter a despesa e salvar a situação. Contudo, isso também não resolverá problemas às pessoas nem facilita a vida a governos em difíceis circunstâncias.
Ficámos mal habituados. Depois de
décadas de défices, desde 2016 que os governos conseguem apresentar saldos
orçamentais melhores que o esperado, quatro dos quais superavits. A dívida
baixou significativamente, tanto a do Estado como a das empresas e famílias. As
contas certas pareciam um maná que não acabava mais.
Os
sinais de aviso vieram devagarinho – pelo menos aos fiéis leitores desta
rubrica. Existiam antes
do último Orçamento. Durante a sua discussão, era claro o “fim
de festa”. Em fevereiro, apontei para as primeiras
confirmações das dificuldades. Hoje somos obrigados a fazer um novo balanço
alarmante, e não é tanto pelas previsões, embora apenas o FMI não preveja um
défice, nem pelas regras orçamentais, em que Portugal apresenta o segundo
maior desvio da Europa. Não precisamos do futuro nem do abstrato para
perceber o concreto.
Esta
passada semana foi divulgada a Síntese de Execução Orçamental de Maio,
revelando que nos primeiros 5 meses do ano, a situação financeira do Estado
está 2400
milhões de euros pior do que estava em igual período do ano passado. O
Governo desculpa-se que metade desse valor é referente a pagamentos em atraso
no SNS – ainda esta semana tiveram de voltar a meter lá dinheiro. Sucede que
tal não foi diferente no ano anterior, simplesmente com um calendário diferente
(em julho,
outubro
e dezembro).
Outras
duas
justificações para esta situação têm sido o impacto das tempestades do
início do ano e da guerra. O primeiro vem quantificado, após exigência
do PS, situando-se nos 334 milhões. O segundo poderá trazer prejuízos por
via da redução da atividade económica, mas também traz lucros por via da
inflação. O Governo tem sido muito cauteloso, por exemplo, apenas baixando o
ISP no montante que auferiria a mais em IVA.
A situação
deverá piorar, porém. Vai ser assim este ano, à medida que se comece realmente
a gastar os apoios previstos no âmbito das tempestades e se proceda ao
encerramento do PRR, tanto com “sprints” de despesa, como com falhas na
receita. Mas será assim igualmente no próximo ano, em que já não se contará com
a receita da venda do Novo Banco (767 milhões).
Só
a aflição orçamental explica algumas das atitudes que o Governo tem tido
recentemente. Confessou ao FMI que não iria voltar a baixar o IRS este
ano. Reduziu em 350
milhões o empréstimo do BEI para fazer obras nas escolas prioritárias.
Continua sem
abrir as camas sociais que prometeu em janeiro, apesar dos administradores
hospitalares dizerem que isso pode pôr em causa as cirurgias já
programadas. Ainda na Saúde, os incentivos financeiros aos obstetras foram travados
pelas Finanças, em vésperas do período crítico do verão em que tantas
maternidades encerram.
Por
sua vez, quando a Assembleia da República aprovou uma lei para obrigar o
Governo a cumprir com os pagamentos já previstos para o prémio salarial, o PSD
veio estridente falar no risco de défice
com uma medida que custaria 300 milhões. Não se compreende se o Governo deixou
de fora da previsão orçamental despesa prevista por lei ou se teme apenas o
impacto nas contas públicas de ter de cumprir. Seja de que forma for, o caso
reveste-se de uma gravidade inédita.
Numa
manobra de ilusionismo, argumentam que este apoio, que varia entre 2 e 5 mil
euros consoante se trate de um licenciado ou um mestre, não deve ser acumulado
com o IRS Jovem. Afinal, dizem, este foi alargado e é muito melhor. São
desculpas de mau pagador. Em primeiro lugar, porque os dois apoios foram criados
como sendo acumuláveis, nunca tendo o Governo tido a coragem de dizer que o
alargamento do IRS Jovem significava o corte no prémio salarial. Em segundo
lugar, porque o prémio salarial trata por igual quem é igual. Já o IRS Jovem
representa valores reduzidos para quem tem rendimentos médios e nenhuns para
quem não recebe o suficiente para pagar IRS, beneficiando desproporcionalmente
rendimentos mais elevados.
Talvez não
surpreenda o meu prezado leitor que também o alargamento
do complemento de alojamento à classe média nem é pago nem é revogado – num
enxergar de responsabilidades que acabam por cair em cima das famílias que, por
esta hora, estão a fazer contas à vida. Igual cobardia se evidenciou quando
este Governo baixou a retenção
na fonte além do que tinha reduzido o IRS. O PS apelou à poupança
dos portugueses mas, convenhamos, tal não devia ser necessário. Não é para
isso que existe este sistema. Neste momento, milhares de famílias contemplam
como gastar o seu subsídio de férias a pagar o acerto
do IRS.
O ano até pode
acabar com um superavit. Atualmente, as cativações (reclassificadas como
reservas orçamentais) são o dobro do que eram durante os governos PS, por isso
tão criticados. Podem fazer o pino ou fazerem-se de estátuas para tentar conter
a despesa e salvar a situação. Contudo, isso também não resolverá problemas às
pessoas nem facilita a vida a governos em difíceis circunstâncias. É caso para
perguntar para quem é que afinal as contas estão certas?
Podem fazer o pino ou fazerem-se de estátuas para tentar conter a despesa e salvar a situação. Contudo, isso também não resolverá problemas às pessoas nem facilita a vida a governos em difíceis circunstâncias.
Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos.
Mais que a incoerência, a questão central é financiar o quê e como. Portugal ainda tem uma dívida elevada e tanto Bruxelas como o Banco de Portugal preveem que o Governo vá incumprir os limites de despesa já no próximo ano.
Desde um pacote laboral antiquado até à Prestação Social Única, este será um dos Governos mais ideológico desde o PREC. Infelizmente, à ideologia, soma-se a incompetência.
Apesar de estarmos em situação de pleno emprego e de grande escassez de oferta, não haverá capacidade de rever salários e contratos para compensar plenamente os efeitos da inflação.
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