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Francesa de 86 anos detida pelo ICE descreve centro de detenção de imigrantes: "Há bebés na prisão"

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Marie-Thérèse Ross perdeu uma marcação para a obtenção do visto de residência depois de uma disputa familiar e acabou por ser presa. No centro de detenção de imigrantes para onde foi transferida disse ter sido submetida a regras rígidas, recordou os gritos dos bebés e as mães que não sabiam dos filhos.

Marie-Thérèse Ross, de 85 anos, foi levada para um centro de detenção de imigrantes no Louisiana depois em abril ter sido detida pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), por ter supostamente excedido o prazo de permanência nos Estados Unidos. Ross, que foi agora libertada e que já regressou a França, descreveu as 16 noites que passou sob custódia das autoridades da imigração, nomeadamente as regras rígidas a que era submetida e os gritos constantes dos guardas.

Marie-Thérèse Ross-Mahe durante entrevista à Associated Press
Marie-Thérèse Ross-Mahe durante entrevista à Associated Press Foto AP/Mathieu Pattier

“A prisão era limpa, a comida era razoável, mas o problema era a forma como falavam connosco”, disse a viúva de um veterano militar em entrevista à agência de notícias . “Os guardas não conseguiam falar sem gritar.”

E descreveu o lugar como barulhento: "Todas as pessoas falavam alto para que todos pudessem ouvir o que estavam a dizer, mas quando o silêncio chegava, dava para ouvir crianças a chorar e até bebés", disse ela. "Há bebés nesta prisão."

Apesar das condições, recordou que havia momentos de solidariedade entre os detidos. "Durante a noite, se o cobertor da minha cama escorregasse, eu sentia uma mãozinha a colocá-lo de volta no lugar", contou. "Não sabia quem era, mas eles mimavam-me porque eu era mais velha do que eles."

Ross pernoitava numa espécie de dormitório com outras 58 mulheres - a maioria mães. "Algumas delas não sabiam onde estavam os filhos", recordou. "Acho terrível uma mulher não saber onde estão os filhos." E lá as mulheres chamavam-na de "avó". Era tão acarinhada que uma vez uma prisioneira lhe deu até uma pulseira da amizade, feita de plástico colorido - um presente que usa até aos dias de hoje.

Marie-Thérèse Ross recordou ainda a sua detenção: disse que foi tão rápido que nem conseguiu perceber o que estava a acontecer. Lembra-se apenas de cinco homens que se identificaram como agentes da imigração e lhe bateram à porta pelas 8h da manhã, algemando-a. Na altura, estava de pijama, roupão e chinelos quando a colocaram num veículo e a transferiram para um centro de detenção em Basile, Louisiana. No mesmo mês, foi libertada.

O Centro de Processamento do ICE do Sul da Louisiana
O Centro de Processamento do ICE do Sul da Louisiana

Ross encontra-se atualmente a recuperar num subúrbio em Nantes, França, com a família. A sua libertação ocorreu depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, ter formalizado um pedido às autoridades norte-americanas, afirmando que os métodos do ICE "não estão em conformidade" com os padrões franceses.

Os familiares de Ross disseram que a mulher ainda enfrenta lapsos de memória e que já está a receber apoio psicológico. No entanto, em entrevista à Associated Press ela mostrou vontade em procurar ajuda médica em França para tratar também os problemas que são compatíveis com stress pós-traumático.

A experiência mudou completamente a forma como Marie-Thérèse Ross vê os Estados Unidos e políticas de imigração. Antigamente ela até assistia à Fox News com o marido - que era um grande apoiante de Trump - mas agora diz estar chocada com a forma como os imigrantes são tratados dentro dos centros de detenção.

A detenção

Marie-Thérèse Ross mudou-se para os Estados Unidos para iniciar uma nova vida com William B. Ross - um soldado americano aposentado que conheceu em França na década de 1950 e que era o seu "namorado de infância". Na altura, ela era secretária na NATO e William soldado.

Tudo mudou quando Wiliiam decidiu regressar aos Estados Unidos em 1966. Apesar disso, mantiveram sempre o contacto entre 1962 e 2022. "Depois de termos ficamos viúvos, decidimos passar férias juntos e foi então que os sentimentos ressurgiram e decidimos casar no ano passado", lembra.

Marie-Thérèse Ross-Mahe durante entrevista à Associated Press
Marie-Thérèse Ross-Mahe durante entrevista à Associated Press

A mulher atravessou o Atlântico para viver o seu amor de infância. Acontece que William acabou por morrer de causas naturais em janeiro - dando início a uma disputa pela herança.

Durante essa disputa, os filhos de William terão conseguido fazer com que Ross perdesse a marcação para a obtenção do visto. Um juiz do Alabama acabou por acusar um dos filhos do antigo soldado, que trabalha como funcionário federal, de usar a sua posição para desencadear a detenção da madrasta. 

Entretanto, já foi aberta uma investigação ao caso. O enteado negou, no entanto, qualquer envolvimento na detenção da mulher.

Marie-Therese disse ter mantido sempre uma relação afetuosa com os filhos de William antes de sua morte, mas reconheceu que depois a relação com eles "transformou-se".

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