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Tragédia nas Maldivas: "Temos de resgatar os corpos, estão à mercê dos tubarões"

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Supermergulhadores que salvaram 12 crianças na Tailândia estão a caminho do Atol de Vaavu para tentar recuperar os corpos dos italianos que morreram num mergulho a mais de 50 metros de profundidade.

Uma equipa de mergulhadores finlandeses da fundação privada DAN Europe (Divers Alert Network Europe), especializada em operações de resgate e recuperações subaquáticas, deve chegar nas próximas horas às Maldivas para ajudar nas operações de recuperação dos corpos dos quatro italianos que ainda se encontram submersos, numa gruta a mais de 50 metros de profundidade. Trata-se da mesma organização que salvou as 12 crianças tailandesas que estiveram presas durante 17 dias numa gruta na província de Chiang Rai, em 2018.

Giorgia Sommacal, Monica Montefalcone, Gianluca Benedetti, Federico Gualtieri, Muriel Oddenino morreram nas Maldivas
Giorgia Sommacal, Monica Montefalcone, Gianluca Benedetti, Federico Gualtieri, Muriel Oddenino morreram nas Maldivas DR

Laura Marroni, vice-presidente e CEO da DAN Europe, referiu em declarações aos jornais italianos La Repubblica e La Stampa que a prioridade "é encontrar os corpos". "Estão à mercê dos tubarões, precisamos encontrá-los rapidamente. Mas não será fácil."

"Oferecemos décadas de experiência e selecionámos os melhores e mais experientes mergulhadores disponíveis: a equipa finlandesa. São especialistas que conseguem atingir profundidades de mais de 150 metros. Estamos a falar de algumas das pessoas mais competentes do mundo para estas operações", prosseguiu aquela responsável, aludindo aos riscos. "Pouca visibilidade, causada pelo aumento dos sedimentos. Há também o problema do corredor que liga a primeira gruta à segunda, que parece ser bastante estreito, com dois metros e meio a três metros."

Durante o dia de ontem um mergulhador das Forças de Defesa Nacional das Maldivas morreu nas operações de resgate, as primeiras informações indicavam que o problema poderá ter sido a despressurização durante a subida à superfície, ou o facto de ter estado demasiado tempo a uma grande profundidade. O homem ainda foi retirado da água com vida, mas acabou por morrer no hospital.

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Laura Marroni explica que as Maldivas "não são conhecidas pelo mergulho em águas profundas ou exploração de grutas, por isso há falta de treino e organização neste tipo de resgate". Aliás, o limite máximo permitido no país é o mergulho a 30 metros de profundidade e os cinco italianos - o corpo de instrutor de mergulho, Gianluca Benedetti, de 44 anos, foi o único resgatado - terão ido a mais de 50 metros.  

Os especialistas finlandeses vão mergulhar com um sistema de rebreather, explica ainda a CEO da DAN Europe aos jornais transalpinos. Trata-se de um dispositivo subaquático especial que permite a recirculação e reciclagem do ar, permitindo que os profissionais permaneçam submersos por mais tempo. Com este sistema podem operar durante horas entre os 50 e 60 metros, dependendo dos gases disponíveis. "Vão usar uma mistura 'trimix', que inclui oxigénio, nitrogénio e hélio: encontramos a mistura no local, mas nosso stock é limitado."

Além disso, os três mergulhadores que vão liderar a operação estarão munidos de scooters subaquáticas, essenciais para enfrentar as correntes. "Com esses veículos poderão recuperar tudo: os corpos e até mesmo o equipamento dos mergulhadores mortos", fundamental para entender o que correu mal na expedição dos italianos.

O que correu mal?

Recorde-se que na última quinta-feira Gianluca Benedetti, instrutor de mergulho, de 44 anos, Monica Montefalcone, investigadora e professora na Universidade de Génova, de 52 anos, a sua filha Giogia Sommacal, de 23, e os biólogos marinhos Muriel Oddenino e Federico Gualtieri, ambos de 31, viajaram até ao Atol de Vaavu a bordo do iate 'Duke of York' com mais 20 passageiros italianos e mergulharam, aparentemente para explorar grutas subaquáticas naquele local, a uma profundidade de mais de 50 metros. Só que algo correu mal e nenhum deles conseguiu regressar a bordo.

Laura Marroni avisa que não quer especular sem conhecer os factos, mas adianta que o problema pode ter sido a mistura de ar que levaram nas garrafas, que não seria adequada para aquela profundidade. "Se for verdade que estavam com garrafas de ar comprimido de 12 litros, significa que só poderiam ter ficado uns 5 minutos dentro da gruta. Ou estavam a planear uma passagem rápida, ou acabaram num mundo mais profundo do que o esperado, talvez devido às correntes ou a um acidente. Mas estamos a falar de profissionais e jamais teriam descido sem estarem devidamente preparados, não faz sentido. Em ambientes como grutas, frequentemente com baixa visibilidade, basta uma pessoa em cada cinco ter um problema para que tudo fique comprometido. Estamos a falar de situações muito complexas: se perderes a saída lá em baixo, nunca mais voltas."

Mistura de gases correta

Shafraz Naeem é um ex-mergulhador militar das Maldivas com 30 de experiência e profundamente conhecedor das grutas que os italianos tentaram explorar. "Experiência e precaução são essenciais: mergulhar em Alimatha não foi difícil. Sou um mergulhador especializado em mergulho em grutas e, em todas as ocasiões, tive a mistura de gases correta, o equipamento adequado e um sistema de reserva", explica o agora consultor da Defesa e da Polícia das Maldivas ao jornal La Stampa.

Naeem não tem dúvidas de que os italianos infringiram as regras, pois além de terem ultrapassado os 30 metros de limite estipulado no país para mergulho recreativo, "nem sequer tinham permissão para realizar pesquisas naquelas profundidades". 

O mergulhador conhece bem as grutas em causa. "A entrada fica entre os 55 e os 58 metros de profundidade, estendendo-se até cerca de 100 metros, depois bifurca-se e continua cada vez mais fundo. O mergulho em grutas profundas é geralmente considerado técnico avançado, exigindo treino especializado, procedimentos rigorosos, planeamento adequado de gases e configurações apropriadas de equipamentos. Mesmo os mergulhadores mais experientes podem enfrentar desafios consideráveis nestes ambientes." 

Naeem logicamente não sabe o que aconteceu, mas levanta hipóteses. "Com base na minha experiência, um mergulho numa gruta a quase 58 metros com ar comprimido normal apresenta por si só múltiplos fatores de risco. A essa profundidade, a narcose por nitrogénio [ocorre quando o nitrogénio, que por estar sob pressão, começa a ser dissolvido nos tecidos do corpo resultando num estado de embriaguez e em alguns casos extremos alucinações], pode prejudicar gravemente a consciência. Portanto, qualquer que seja o fator desencadeador - narcose, stress, desorientação, perda de visibilidade, problemas de navegação, reserva insuficiente de gás, problemas com o equipamento, separação do grupo ou pânico - todos podem ocorrer numa sequência, em cascata." 

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