Com mensagens no Telegram e Snapchat ativou os "soldados das sombras" e "todas as célusas silenciosas". Seguiram-e ataques a sinagogas, escolas e até quatro ambulâncias foram incendidas em Londres. Foi detido na Turquia e está a agora nos Estados Unidos.
Uma semana depois de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irão, conta o jornal The Guardian que alguém publicou uma série de mensagens no Telegram e no Snapchat que pareciam ser instruções secretas para redes terroristas na Europa. Tratava-se de um código de três letras e 9 números. A convocatória era para os "soldados das sombras", que recebiam autorização para ativar "todas as células silenciosas".
Quatro ambulâncias pertencentes a uma instituição judaica foram incendiadas em LondresAP
Pouco depois uma bomba explodiu numa sinagoga na Bélgica, seguindo-se outra sinagoga em Roterdão e uma escola judaica em Amesterdão. Em Inglaterra foram incendiadas quatro ambulâncias pertencentes a uma instituição de caridade judaica e duas pessoas foram esfaqueadas em Londres. Ao todo foram lançados 18 ataques deste género em dois meses, ninguém morreu, mas gerou-se forte preocupação junto da comunidade judaica, bem como nas autoridades públicas.
Os ataques foram reivindicados por um grupo até então desconhecido, que se intitulava Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia (HAYI). Temeu-se que se tratasse de um novo grupo radical, mas mais tarde percebeu-se que era tudo coordenado por Mohammad Baqer Saad Dawood al-Saadi, de 32 anos, a partir de Bagdad.
Quem é Al-Saadi?
Segundo um especialista em milícias iraquianas, citado pelo The Guardian, Al-Saadi foi recrutado perto dos 20 anos para uma milícia xiita criada pelo Irão, logo após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003. Foi enviado para a Síria quando forças de milícias xiitas foram mobilizadas por Teerão para reforçar o regime de Bashar al-Assad.
Al-Saadi também participou da luta contra o Estado Islâmico no Iraque, com atividades que aparentemente incluíam assassinato, sequestro e possivelmente o fornecimento e distribuição de armas.
Tinha excelentes ligações com altos funcionários iranianos, particularmente dentro da Guarda Revolucionária. O mentor de Al-Saadi parece ter sido Qassem Soleimani, figura proeminente entre os militantes xiitas, fundador e líder da Força Quds da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que morreu em 2020. Consta que Al-Saadi estava com Soleimani quando o mentor foi atingido por um ataque de drone norte-americano no Iraque, amparando-o no momento da morte. Dizem até que seria o "filho mimado" de Soleimani.
Depois disso, o jovem iraquiano viajou um pouco por todo o mundo, estaria envolvido em redes de compras, à procura de fornecedores de drones e componentes na Europa e em outros lugares. O The Guardian revela que os carimbos no passaporte iraquiano de "serviço governamental" de Al-Saadi mostram uma viagem a Espanha em agosto de 2023. Um visto italiano de 12 meses, que lhe daria acesso a toda a zona Schengen, foi-lhe concedido naquele ano, mas acabou por ser posteriormente revogado.
No Iraque especializou-se na chamada guerra híbrida, baseada em operações de informação. Ajudou a gerir uma rede de canais no Telegram que disseminava propaganda da milícia xiita controlada pelo Irão. Quando a guerra começou, em fevereiro deste ano, acredita-se que Al-Saadi - que em janeiro terá estado com o aiatola Ali Khamenei em Teerão - terá recebido instruções da Guarda Revolucionária, no sentido de atacar alvos israelitas na Europa.
Al Saadi acabou por ser detido num hotel em Istambul pelos serviços de segurança turcos, mas ainda conseguiu publicar um vídeo curto apelando à família que se mantivesse firme. Duas semanas mais tarde foi levado para os Estados Unidos, onde anteriormente teria contactado um suposto membro de um cartel de drogas mexicano, no sentido de atacar a comunidade judaica do país, bem como Ivanka Trump, a filha de Donald Trump. O que Al-Saadi não sabia era que estava a falar com um agente do FBI...
Não houve novos ataques desde que Al-Saadi foi detido. Na última segunda-feira compareceu num tribunal em Manhattan, acusado de terrorismo - enfrenta uma pena de prisão perpétua - e declarou ao juiz: "Sou um prisioneiro de guerra, não represento uma ameaça. Há mulheres e crianças a morrer com as vossas armas."
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