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João Paulo Batalha
João Paulo Batalha
23 de julho de 2026 às 07:07

Andar depressa e partir coisas

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Edição de 21 a 27 de julho

Quando um Governo assume que reformar é escavacar, vivemos tempos perigosos.

Foi preciso estender os prazos mas, no fim, lá saíram as notas dos exames nacionais. Não todas as notas, mas as que faltavam foram saindo a seguir. Várias vieram erradas, mas foram-se corrigindo. Alguns exames, primeiro em Físico-química e depois em Geografia, tiveram erros de cálculo que obrigaram a refazer as pautas, mas lá se reclassificou tudo e se mandaram novas notas aos alunos. Nem todos os exames, afinal, correspondem à prova que cada aluno realizou, mas para isso há um “procedimento”. Com resultados a conta-gotas perde-se o rasto aos prazos para recursos e reapreciações, os professores falam em “anarquia” e já não se consegue garantir equidade entre todos os alunos, mas o que importa é que se inovou, contra os protestos imobilistas da reação – e, talvez, contra a sabotagem dos professores, sugerida pelo próprio primeiro-ministro e propagada como fogo em mato seco, sem a menor sombra de prova, pelas cabeças falantes do PSD e pelas claques do Governo na imprensa e nas redes sociais.

Um teste-piloto feito o ano passado correu mal, mas o mesmo Governo, com o mesmo ministro e o mesmo secretário de Estado que decidiram fazer esse teste e generalizar o modelo este ano sem avaliar e corrigir o que tinha falhado no ano passado diz que a culpa é de quem os avisou, mas não avisou por escrito e não produziu um relatório que ninguém lhe encomendou. Mas mesmo isso pouca ou nenhuma diferença faria. Em entrevista à SIC Notícias, o ministro da Educação explicou, com poucas contemplações, que reformar é isto mesmo: “Nós temos um plano que estamos a implementar. E não é ‘vamos ter tudo preparado para depois fazer’. Porque, se estiver à espera que estejam reunidas todas as condições para fazer alguma coisa nunca vai fazer nada na vida porque nunca está tudo reunido”. O que importa é fazer e o resto logo se vê.

Quem não percebe nada disto é a Suécia, que tinha um plano de implementação faseada da digitalização dos exames em curso desde 2017, e decidiu interrompê-lo porque os testes que foi realizando revelaram mais problemas do que soluções. É por isso que a Suécia é aquele terceiro-mundismo gelado, pobre e atrasado, enquanto Portugal, farol da inovação e do reformismo, está à cabeça do mundo civilizado. Por isso e porque temos cá um Governo disposto a sacrificar (o vizinho) para avançar. Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, não vê razão para tanto barulho. O ministro da Reforma do Estado também apareceu a defender o velho conceito da “destruição criativa” aplicado aos serviços públicos. E o próprio Luís Montenegro, talvez inspirado pelas suas excursões futebolísticas, defendeu a tática da meia bola e força: “Mesmo que aqui ou ali as coisas possam correr menos bem, nós vamos arriscar na mesma”. A estrada para o Inferno está pavimentada de boas intenções e o Governo já vai a meio do caminho.

À primeira vista, a ideia de que fazer mal, depressa é melhor do que fazer bem, devagar parece apenas ignorância e excesso de voluntarismo. Mas tem raízes práticas e, ao que parece, ideológicas. A razão prática é muito portuguesa: já no Governo de António Costa, a digitalização dos exames (em moldes diferentes dos atuais) foi inscrita no PRR, que tem um prazo de conclusão em agosto deste ano. O Estado português comprometeu-se a fazer em poucos anos reformas que noutros países demoraram perto (ou mais) de uma década. Alérgicos a devolver dinheiro a Bruxelas, e sem capacidade de investimento fora da mama europeia, quisemos fazer demasiado, demasiado depressa. Será bem-vinda a já anunciada Comissão Parlamentar de Inquérito, se olhar para todo este desastre numa lógica de política pública, identificando com rigor, em Governos PS e PSD, quem decidiu o quê, quando, com que informação, ouvindo (e calando) quem. Pode ser (mas duvido) que se aprenda alguma coisa sobre a boa implementação de reformas, a capacidade da Administração Pública e a dependência estrutural do Estado à contratação das empresas amigas, ou das grandes consultoras do costume.

Mas a razão ideológica é a mais inquietante, até porque já a vimos antes, na reforma laboral, que naufragou a meio, no desmantelamento do Tribunal de Contas, que vai de vento em popa, na “agilização” das leis de contratação pública, a tempo de uma nova vaga de PPP e grandes obras capitaneada por um ministro agora apanhado num sujo negócio imobiliário nascido do conluio entre decisores públicos e empreiteiros privados. Na impreparação dos processos, na falta de fundamento das propostas, no desequilíbrio das medidas, na falta de diálogo técnico, político e social, o Governo assumiu o velho mantra de Mark Zuckerberg: “andar depressa e partir coisas”, um ethos que faz das pessoas dano colateral numa lógica de acumulação de poder e dinheiro a todo o custo. É a tal “destruição criativa” que fez do Facebook uma rede social omnipresente e omnipotente, dedicada à rapina de dados e da privacidade dos utilizadores, promovendo discurso de ódio, comportamentos aditivos em crianças e jovens, tudo, a todo o custo, desde que dê lucro ao dono.

Nesta ética da balbúrdia criadora, ensarilhar a vida de milhares de alunos, deixar professores à beira de ataques de nervos, dar cabo dos planos das famílias e culpá-las depois pela “imprudência” de marcarem férias para o período de férias, todos estes falhanços de política pública se tornam virtuosas ruturas com o status quo. Para isso, ensaiam-se até teorias da conspiração sobre sabotagens – uma narrativa sacada à alucinação do “deep state” da tropa de Trump. O errado torna-se certo, porque sem se estragar, não se está a reformar.

Nesta completa inversão de significados, sabemos que a reforma do ensino é boa porque os exames são um poço sem fundo de falhas e incertezas. Provocar dor é “inovar”, fazer mal é fazer bem. É uma narrativa que promove o caos como desejável e acelera a conflitualidade como ferramenta de transformação social. Sucede que qualquer transformação operada nestes termos é-o inevitavelmente numa lógica de “perdedores” e “ganhadores”. E quando a lógica é de perdedores e ganhadores, vinda de um poder político capturado pelos grandes negócios, perdem os que sempre perderam, e ganham os que sempre ganharam. Num país embrulhado numa longa estagnação económica e social, oficializar este estado de coisas é promover tempos muito perigosos.

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