Cátia Miriam Costa explica que as duas maiores economias do mundo já perceberam que, apesar de “estarem politicamente muito afastadas, têm de se aproximar”.
Donald Trump chega esta quarta-feira à China para uma uma reunião com Xi Jinping envolta em grande expectativa. A agência estatal Xinhua informou que o líder norte-americano estará
no país até sexta-feira e que posteriormente Xi Jinping será recebido
em Washington. Os dois líderes mundiais vão-se encontrar-se amanhã - madrugada em Portugal - e há vários temas em cima da mesa.
Trump encontra-se com Xi Jinping na China AP Photo
O Ministério dos Negócios
Estrangeiros chinês referiu na segunda-feira que o país está pronto para
trabalhar com os Estados Unidos e que os dois líderes terão “discussões
aprofundadas sobre questões importantes, relacionadas com as relações entre os
países, a paz e o desenvolvimento global”. “A China está pronta para trabalhar
em pé de igualdade com os Estados Unidos, num espírito de igualdade, respeito
e benefício mútuos, para expandir a cooperação e administrar as
diferenças, injetando assim mais estabilidade e previsibilidade num mundo
marcado por turbulência e complexidade”, garantiu Guo Jiakun, porta-voz do
governo chinês.
Cátia Miriam Costa, investigadora
no Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, partilha
com a SÁBADO que “esta visita ocorre num período muito sensível, não nas
relações diretas, mas no sistema internacional”.
“A questão do Irão pode ser
fraturante neste encontro, especialmente porque não parece existir um fim à
vista”, afirma a especialista, antes de referir que, apesar de os Estados Unidos
poderem utilizar esta visita para levar Xi Jinping a pressionar o Irão a
aceitar o cessar-fogo, é também esperado que “a China tente levar alguns dos
pontos de vista do Irão para a mesa de negociações”. E é por isso mesmo que
parece pouco provável que o impasse seja resolvido nestes três dias.
Ainda dentro deste ponto vale a
pena reforçar que “o estrangulamento de Ormuz não afeta apenas a China, mas também
todos os países à sua volta, alguns dos quais têm uma relação muito próxima com
os Estados Unidos”.
Quanto aos resultados estratégicos
da cimeira, Cátia Miriam Costa considera que apesar “de as partes estarem
politicamente muito afastadas, percebem que têm de se aproximar” e que, não obstante Trump ser um presidente imprevisível, é claro que “não vai tratar a China
como tem tratado a Europa”. Desde que o republicano regressou à Casa Branca as
relações têm sido pautadas por “uma ação dos Estados Unidos que origina uma
reação da China, que completa o ciclo e volta a originar uma ação por parte da
administração Trump”. Mesmo que tal não seja desejado, Cátia Miriam Costa
acredita que esta “dança” “leva a uma aproximação técnica das partes”.
A investigadora recorda que a
comitiva norte-americana conta com representantes “das gigantes tecnológicas e
financeiras norte-americanas”, incluindo “Visa, Meta, Goldman Sachs, Tesla e Apple”, o que significa que “Trump percebeu que tinha de dar espaço ao
diálogo e transmitir uma mensagem de que quer reatar as relações”. Do lado chinês
Cátia Miriam Costa reforça que “a comitiva também esteve a preparar-se com uma
série de reuniões secundárias e que leva para as negociações novas perspetivas, com vista a reforçar a sua resiliência interna”.
Taiwan será linha vermelha
Um dos pontos que historicamente
cria mais tensão entre a China e os Estados Unidos é a independência de Taiwan,
mas não é esperado que o território seja um ponto central da cimeira: “Poderá ser uma
questão a abordar, mas Taiwan será sempre uma linha vermelha para a China. E depois do Irão é pouco provável que Trump queira entrar noutro conflito”, até
porque “neste momento os Estados Unidos não conseguiriam o apoio imediato das
nações que lhes poderiam dar algum apoio militar na região, como é o caso do Japão,
devido à sua dependência comercial da China”, reforça Cátia Miriam Costa.
A carregar o vídeo ...
Trump chega a Pequim para reunião com Xi Jinping
A relação entre as duas economias mais
importantes do mundo é marcada por altos e baixos, com vários encontros e
negociações sem resultados palpáveis. Apenas neste século, em 2006, o
presidente George W. Bush iniciou o Diálogo Económico Estratégico EUA-China com
o ambicioso objetivo de se tornar um “G2”. Três anos depois, Obama expandiu-o para o Diálogo Estratégico e Económico, mas foi descontinuado em 2017,
já durante a presidência Trump.
No seu primeiro mandato presidencial, a
política externa de Donald Trump
focou-se no ataque à China. No entanto, este segundo mandato trouxe
diversificação quanto aos pontos de tensão, com 'casos' na Gronelândia, Canadá,
Panamá, Venezuela e União Europeia. Por outro lado, à medida que os Estados
Unidos se tornam um parceiro menos confiável e menos previsível, os líderes do
Ocidente direcionam-se para a China em busca de um novo parceiro. Só em 2025 os líderes da Austrália, França, Geórgia, Nova Zelândia, Portugal, Sérvia,
Eslováquia, Espanha e União Europeia estiveram na China; este ano o ritmo
das visitas acelerou com os líderes da Finlândia, Irlanda, Coreia do Sul, Reino Unido, Uruguai, Alemanha e Espanha a fazerem
visitas oficiais ao país.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.