Jacinda Ardern: a líder que foi muito além da Nova Zelândia

Jacinda Ardern: a líder que foi muito além da Nova Zelândia
Márcia Sobral 25 de janeiro
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Lidou com o terrorismo e uma pandemia, enquanto lutava pela igualdade e tolerância. Aos 42 anos, aquela que foi a mulher mais nova a chefiar um executivo, demitiu-se sem escândalos associados, apenas por reconhecer que o fim tinha chegado: "sou humana".

Foi com muita emoção que a mulher que mudou o paradigma da política mundial se despediu do cargo que ocupou nos últimos seis anos. Jacinda Ardern agradeceu a gentileza do povo neozelandês por aquele que considera ter sido "o maior privilégio da vida". A partir desta quarta-feira está livre para ser "muitas coisas", mas principalmente, para ser "deputada, irmã e mãe".

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Chefe de Estado de uma ilha com pouco mais de cinco milhões de habitantes, Jacinda Ardern começou por passar despercebida perante os holofotes da imprensa internacional. Tinha 18 anos quando entrou no Partido Trabalhista e bastaram poucos mais para chegar à sua liderança.

Esquerdista assumida, foi muitas vezes ligada ao movimento comunista, mas sempre reuniu consenso nos vários quadrantes da sociedade. Tornou-se num símbolo do liberalismo anti-Trump e ficou conhecida por ser "decisiva" em momentos de maior complexidade. Foi uma acérrima defensora da tolerância, um ícone do feminismo e uma ativista das alterações climáticas.

Em 2018, tornou-se na segunda líder mundial a ser mãe enquanto ainda se encontrava no cargo e, pouco tempo depois ficava nas bocas do mundo por levar a filha para uma sessão plenária da Assembleia Geral da ONU. A mensagem que queria transmitir era clara: também ela era uma representação de todas as mães que acumulam a maternidade com o trabalho.

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O ano seguinte trazia-lhe, provavelmente, o período mais negro da sua liderança. Passavam quarenta minutos da uma da tarde (hora local) quando, no dia 15 de março de 2019, Brenton Tarrant entrava de armas em riste em duas mesquitas de Christchurch, uma cidade neozelandesa, e matava 51 muçulmanos.

O caso chocou o mundo e, ainda antes de o país sentir o peso de um luto nacional, Jacinda Ardern agiu como uma verdadeira líder. Por respeito, tapou a cabeça e dirigiu-se ao local do ataque para confortar os familiares das vítimas.

Foi o rosto da força de uma nação e não se deixou ficar apenas pelas palavras. Depois do ataque, a primeira-ministra impulsionou uma legislação menos branda com as armas de fogo, proibiu as armas semiautomáticas e lançou várias campanhas contra o extremismo e o racismo.

Mais tarde, o supremacista branco viria a ser condenado por 51 crimes de homicídio, 40 crimes de tentativas de homicídio e um crime de terrorismo. Cumpre prisão perpétua sem direito a liberdade condicional, uma pena aplicada pela primeira vez no país.

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Mas as dificuldades não se ficaram por aí e, no ano seguinte, o mundo começava a debater-se com a covid-19. Ao início, a pandemia deu-lhe vantagem política e trouxe-lhe a estabilidade necessária para manter uma liderança forte.

Os números eram inequívocos e, numa altura em que o mundo se dedicava às contagens de infetados e vítimas mortais, a Nova Zelândia tornava-se num exemplo a nível de políticas de saúde. O facto de praticamente não ter infetados fazia da ilha um caso raro mas com o tempo vieram também as decisões importantes.

Jacinda não escapou às críticas, aos negacionistas e às notícias falsas difundidas nas redes sociais. Foi alvo direto daqueles que não queriam a obrigatoriedade das vacinas da covid-19 e dos fanáticos da extrema-direita. Depois de um claro sucesso nas campanhas de inoculação, foi pressionada para "abrir as fronteiras" e viu o vírus disseminar-se por todo o lado. As críticas voltaram e o poder tremeu, mas isso não foi suficiente para a fazer cair. É que os números continuaram a pôr a Nova Zelândia no topo dos países com melhores resultados perante o vírus.

Nesse mesmo ano, Ardern ousou ir ainda mais longe. Deu voz à diversidade e, depois de ser reeleita, escolheu aquele que viria a ser conhecido como o gabinete mais díspar da história da Nova Zelândia. Ao seu lado, ao lado de uma mulher primeira-ministra, 40% dos deputados eram do sexo feminino, 25% tinham origem maori e 15% pertenciam à comunidade LGBTQ.

Foram seis anos de uma liderança sem fronteiras e que foi muito além de uma ilha perdida no Pacífico. A ex-primeira ministra da Nova Zelândia, que nunca foi vista como um animal político, tornou-se num símbolo mundial e até na hora de sair fez o que poucos fariam: demitiu-se, sem escândalos, apenas porque "estava na hora".

Daqui a cerca de cinco meses, Neve, a menina que foi ao colo da mãe para as Nações Unidas prepara-se para entrar na escola. Já esta quarta-feira, Jacinda Ardern – a política, mãe e mulher – despede-se ainda "com mais amor e carinho" pelo seu país e pelo seu povo do que quando começou.

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