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El Helicoide, o centro comercial de Caracas que se tornou numa prisão "de tortura"

Queda do ditador Marcos Jiménez levou o arquiteto a abandonar o seu plano. O que seria um centro comerical acabou por se tornar num local de abusos: prisioneiros eram transferidos para celas muito quentes ou muito frias, algumas tinhas iluminação constante, noutras prevalecia a escuridão.

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou esta sexta-feira uma amnistia para os presos políticos e o encerramento definitivo do centro de detenção El Helicoide, em Caracas. Concebido como um centro comercial, o El Helicoide acabou por ser transformado num pesadelo durante a ditadura chavista, com uma história sinistra de tortura e abusos. Apesar de não ser conhecido o número de celas que este edifício continha, os prisioneiros que por lá passaram relataram existir entre 90 a 120 celas estreitas sem janelas, onde se tornava impossível respirar, além de salas de interrogatório que inicialmente haviam sido projetadas como escritórios.

Helicoide, um antigo centro comercial em Caracas, transformado em prisão política
El Helicoide, de centro comercial a local de tortura em Caracas, após a queda de Marcos Jiménez
El Helicoide, centro comercial de Caracas, transformado em local de tortura e abusos
El Helicoide, em Caracas, um centro comercial inacabado tornou-se local de tortura
Polícia venezuelana mantém a segurança perto de El Helicoide em Caracas
Helicoide, um antigo centro comercial em Caracas, transformado em prisão política
El Helicoide, de centro comercial a local de tortura em Caracas, após a queda de Marcos Jiménez
El Helicoide, centro comercial de Caracas, transformado em local de tortura e abusos
El Helicoide, em Caracas, um centro comercial inacabado tornou-se local de tortura após a queda de Marcos Jiménez
Polícia venezuelana mantém a segurança perto de El Helicoide em Caracas

O plano original de construção de um centro comercial surgiu através do arquiteto Jorge Romero Gutiérrez, mas a sua visão acabou abandonada em 1958, após a queda do ditador Marcos Pérez Jiménez. A ascenção do chavismo acabou por transformar o edifício naquilo que é hoje: um centro de detenção e tortura, bem como a sede do temido SEBIN - o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional.

Apesar de algumas estruturas de hoje terem sido reaproveitadas a partir do plano inicial do arquiteto, outras foram improvisadas: o lugar que serviria de estacionamento de carros, por exemplo, acabou por se transformar num labirinto de corredores intermináveis. Enquanto isso, o local que não havia sido projetado para punir pessoas, acabou por se tornar num espaço de tortura.

"O El Helicoide é um lugar para te fazer confessar o que não fizeste", confessou ao Roberto Morrero, chefe do gabinete do ex-presidente interino da Venezuela, Juan Fuaidó, que foi detido em 2019.

Foi, aliás, a arquitetura da prisão que acabou por contribuir para os abusos físicos e psicológicos - isto porque algumas áreas tinham iluminação constante e outras permaneciam numa escuridão perpétua. Na prisão El Helicoide "não sabes se é dia ou noite. Essa incerteza faz parte da punição", recordou Juan Requesens, um  prisioneiro político lendário durante o período do chavismo.

A ventilação era precária ou quase inexistente, o que contribuía para os maus odores. Enquanto isso, as temperaturas eram sufocantes: as áreas inferiores eram muito quentes e contrastavam com o frio húmido que se fazia sentir na parte superior. "Lá eles punem-te com espaço: celas minúsculas, escuras e sem ar", recorda Gilber Caro, ex-deputado da oposição que foi preso diversas vezes.

Foram vários os presos políticos que passaram por esta prisão. Lorent Saleh, um ativista que passou dois anos na prisão de La Tumba e outros dois em El Helicoide, recorda até este local como "um centro de tortura projetado para acabar contigo". "Não é uma prisão. É um centro de tortura projetado para acabar contigo. O El Helicoide é a versão local do regime: os espancamentos, as costelas partidas, o taco de basebol... O prédio é antigo e o seu interior é sórdido, sim. O El Helicoide é superlotação, fedor, baratas e ratos. A La Tumba é espelhos, câmaras, paredes brancas."

Geraldine Chacón, diretora da ONG Fundaredes, também esteve presa neste centro de detenção. Foi enviada para lá ainda em 2018 e descreveu a prisão como um local de isolamento onde os interrogatórios são contínuos e os tratamentos degradantes: "O confinamento não era apenas físico. Eles roubavam o teu tempo, a tua noção do dia a dia e a certeza de quando irias sair". Enquanto isso, Johan León, um cidadão venezuelano detido durante os protestos antigovernamentais que se sucederam após a fraude eleitoral que levou à eleição de Nicolás Maduro, disse: "No El Helicoide nunca estás sozinho, mas estás sempre isolado."

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