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Trump e avalanche mediática geram exaustão na Gronelândia: "Só queremos ser deixados em paz"

Lusa 16:04
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Presidente dos EUA tem afirmado a intenção de controlar a ilha, território autónomo da Dinamarca com cerca de 57 mil habitantes.

Na capital da Gronelândia, a palavra na boca de todos é "cansaço". Muitos resistem a entrevistas, mas há uma geração que despertou para a política e o ativismo. À Lusa, jovens gronelandeses dizem-se exaustos, mas com a sua identidade bem clara.

Habitantes da Gronelândia estão cansados da atenção mediática
Habitantes da Gronelândia estão cansados da atenção mediática AP

São poucos os que, nas ruas de Nuuk, não suspiram de cansaço a mais um jornalista de gravador em punho, a perguntar-lhes o que pensam. Muitos negam entrevistas, revelando uma exaustão depois da avalanche de repórteres das últimas semanas.

Aputsiaq Larsen, de 19 anos, aceita falar com a Lusa. "É avassalador", diz o estudante de Direito. Entre os amigos a opinião prevalente é clara: "Não queremos ser parte dos Estados Unidos, isso é certo", diz.

"Não é óbvio o que pensamos?", atira Nivi, 32 anos, que se confessa cansada de repórteres. "Estou muito cansada, é tudo muito incerto, não sabemos com o que acordamos de manhã". Não acredita na independência no seu tempo de vida, mas talvez na geração a seguir à sua. A exaustão é partilhada por Inuna, de 31 anos, que diz ainda discutir as notícias com os amigos, o que a deixa stressada.

Num café no centro da cidade, Malik, de 21 anos, conta que já se habituou aos media. O estudante tornou-se uma espécie de celebridade local, com alcance internacional. Já foi entrevistado por jornalistas de muitas partes do mundo, já esteve em direto na televisão e não tem a certeza se a entrevista à Lusa, num dia 31 de janeiro de manhã, será a última do mês.

No início do ano, quando Trump Jr. veio a Nuuk, foi com um amigo conhecer o filho do presidente americano, a um bar. Disse-lhe que a Gronelândia não estava à venda e aceitou tirar uma foto de grupo com outros habitantes locais, de boné MAGA na cabeça. "Estava só a ser simpático. E depois vi que fomos usados como parte de uma campanha para fazer a Gronelândia parecer um país MAGA. Foi um grande erro", admite.

A namorada, Parnûna, de 25 anos, mostra com orgulho as suas tradicionais tatuagens Inuit. "Estes aqui são para proteger os meus olhos", diz apontando para pequenos pontos em linha, sobre as têmporas. "E estes representam a minha família, pai, mãe, irmão, eu, as minhas irmãs e este espaço em branco para o meu irmão que nasceu há um ano", explica. As tatuagens de Parnûna tornaram-se mais comuns entre a geração mais jovem.

"Hans Egede [o pastor luterano dinamarquês que iniciou a cristianização dos Inuit] proibiu-as", conta. Estas tatuagens marcam a reconexão desta geração com a sua ancestralidade. Querem mostrar que são gronelandeses e se orgulham disso. "Não queremos ser dinamarqueses, culturalmente. Somos gronelandeses", diz claramente.

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Os últimos tempos, conta, têm sido difíceis. "Não sabemos o que vai acontecer. Não dormimos bem", diz Parnûna. "Depois do que aconteceu com a Venezuela, entrei em pânico. Pensei que nos poderia acontecer a nós também", diz Malik.

"Gostaríamos de pensar que são ameaças vazias", diz Malik, "mas somos nós que vivemos aqui e sabemos como foi intenso, com todos os americanos que cá estiveram. Depois de Trump Jr. foram os influencers e os empresários dos Estados Unidos que veiram cá com a retórica Make Greenland Great Again".

Caso a situação piore, Parnûna já tem um plano de fuga e conta que não é a única. Irá para a Dinamarca com a família e o namorado. "Sei de pessoas que, em caso de invasão, já têm planos para ir para os fiordes, onde têm pequenas casas, até ser seguro viajar para outro país. Estão ativamente a planear sair daqui".

Entretanto, dizem, a sua geração tornou-se mais assertiva e vocal em relação ao que querem para o seu país, porque temem perder a sua cultura. "Se passarmos a ser parte da América, perderemos a nossa língua e a nossa cultura", diz Parnûna.

Para corrigir o erro inicial, Malik usa agora um boné MAGA, mas de outro tipo: Make America Go Away, com a bandeira da Gronelândia e ainda uma outra mensagem: "Nu det Nuuk", um jogo de palavras com a expressão dinamarquesa "nu er det nok", que significa "já chega". Parnûna prefere dizer em Gronelandês: "Maanna naammappoq!", diz, reafirmando a exaustão, "só queremos ser deixados em paz".

Donald Trump tem afirmado a intenção de controlar a Gronelândia, território autónomo da Dinamarca com cerca de 57 mil habitantes, considerando a sua localização estratégica no Ártico crucial para a defesa dos Estados Unidos. Apesar de várias negociações entre os EUA, a Dinamarca, a Gronelândia e a NATO, não houve ainda resultados concretos.

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