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Lindsey Vonn: “Rainha do Gelo” ainda vai voltar a competir?

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Focada na recuperação, após a grave lesão nos Jogos Olímpicos, a esquiadora de 41 anos não quer falar em reforma. "Aviso quando decidir"

“Bem-vinda ao Centro de Reabilitação Vonn”, comentou, de forma humorada, Lindsey Vonn, num vídeo partilhado nas redes sociais a 18 de março, brincando com o azar da sua irmã mais nova, Karin Kildow, que, tal como ela, foi vítima de uma rotura do ligamento cruzado anterior e está a fazer a recuperação com a esquiadora, que é conhecida por “Rainha do Gelo” pelas suas muitas conquistas.

Lindsey Vonn numa prova em janeiro deste ano, antes dos Jogos Olímpicos de Inverno
Lindsey Vonn numa prova em janeiro deste ano, antes dos Jogos Olímpicos de Inverno Pier Marco Tacca/AP

Lindsey Vonn, de 41 anos, sofreu uma lesão gravíssima (fratura e rotura na perna esquerda) no passado dia 8 de fevereiro, nos Jogos Olímpicos de Inverno, e tem partilhado vídeos da recuperação. Ainda a 6 de março, surge a treinar no ginásio, trabalhando os admoninais, os ombros e mesmo a perna lesionada. E na última semana aparecia numa bicicleta estática, mostrando a grande evolução que tem registado e frisando: "Comecei com 5 minutos".

Talvez entusiasmada com o rumo da recuperação, Lindsey não é taxativa em relação ao fim da sua carreira, e recentemente deixou isso claro numa discussão nas redes sociais. Perante um comentário menos abonatório de alguém, que a acusava de ter um ego “demasiado forte” e que devia “aceitar a realidade”, pois esteve quase a ficar sem a perna, ela respondeu.

“Estás a confundir ego com alegria. Disse-o a vida toda – adoro esquiar. Porei os pés ao alto quando estiver pronta, mas não estou pronta para discutir o meu futuro no esqui. O meu foco tem sido recuperar da lesão e voltar à vida normal. Já estive retirada seis anos e tenho uma vida fantástica fora do esqui. Foi incrível ser a nº 1 do mundo novamente aos 41 anos e estabelecer novos recordes, mas sou a única que decidirá o futuro, não preciso da permissão de ninguém para fazer o que me faz feliz. Talvez isso signifique competir novamente, talvez não. Só o tempo o dirá. Por favor, parem de me dizer o que devo ou não fazer. Aviso quando decidir”.

A loucura de competir lesionada

Quando Lindsey Vonn anunciou que iria participar no slalom nos últimos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão-Cortina, apesar de ter sofrido uma lesão complicada poucos dias antes, muitas pessoas (ela tem 3,6 milhões de seguidores nas redes sociais) acharam que a esquiadora norte-americana tinha enlouquecido de vez. Afinal, ela já tinha feito isso, mas na altura tinha 21 anos.

Na segunda vez que participou nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2006 (Itália), a atleta sofreu uma queda num treino, em San Sicario, e teve de ser levada de helicóptero para um hospital em Turim. Ficou uma noite internada, mas apesar das dores numa anca, menos de 48 horas depois já estava a competir em downhill, acabando no 8º lugar.

Nos Jogos Olímpicos de 2026, Lindsey Vonn deve ter-se lembrado dessa sua “loucura” de juventude – e de muitas outras ao longo da carreira, marcada por lesões e recuperações milagrosas – e voltou a arriscar. Só que desta vez as coisas correram mal e ela sofreu uma aparatosa queda na final do slalom: um dos esquis prendeu-se numa placa de gelo e ela perdeu o controlo 13 segundos após o início da descida, sendo projetada no ar e caindo desamparada.

A gravidade das lesões obrigou a esquiadora a ter de fazer seis cirurgias. “Tive uma fratura complexa da tíbia e também fraturei a cabeça do perónio. A razão pela qual foi tão complexa é que tive síndrome compartimental”, contou, descrevendo a condição como um trauma que causa uma acumulação excessiva de sangue e que “esmaga músculos, nervos e tendões”, o que pode levar à necrose.

“O Tom [Hackett, o médico] salvou a minha perna de ser amputada. Fez o que se chama uma fasciotomia, abriu ambos os lados da minha perna para a deixar respirar e salvou-a”, afirmou.

E deu detalhes sobre a recuperação: “Levará cerca de um ano para que todos os ossos sarem. E depois decidirei se quero retirar todo o metal ou não, e só então voltarei a ser operada para finalmente recuperar o meu ligamento cruzado anterior”.

A atleta, que também fraturou o tornozelo direito, considerou que é preciso “aguentar os golpes” que a vida nos dá e frisou que já fez seis cirurgias. “Estive no hospital um pouco mais do que esperava por causa da perda de sangue de todas as operações. Estava a sofrer muito, a dor estava fora de controlo”.

Os primeiros tempos no esqui

Esta resiliência é a imagem de marca de Lindsey Vonn, que começou a esquiar com apenas 2 anos. Nascida em Kildow, no Minnesota (EUA), a 18 de outubro de 1984, aprendeu a esquiar com o avô, Don Kildow, no Wisconsin, e aos 7 anos já tinha estado nas principais pistas do Minnesota, Oregon e Colorado, chegando a fazer viagens de carro de 16 horas para ir esquiar com a família ou ter aulas em locais como o famoso Ski Club Vail. Aliás, quando ela tinha 8 anos os pais decidiram mudar-se para o Colorado para ela poder esquiar a tempo inteiro em Vail.

Os resultados não tardaram a chegar, com a conquista de um importante troféu em Itália (aos 15 anos), e a sua primeira participação numa Taça do Mundo, aos 16 anos, em Park City, no Utah. Dois anos depois, em 2002, ainda com 17 anos, fez a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Inverno (Salt Lake City), onde disputou o slalom e o combinado, conseguindo um 6º lugar. Em 2003, ganhou uma medalha de prata no Campeonato do Mundo de Juniores e em 2004, um mês depois de fazer 20 anos, obteve a sua primeira vitória numa Taça do Mundoa, após vencer o downhill em Lake Louise.

No total da carreira, Lindsey Vonn participou em cinco Jogos Olímpicos e somou 82 vitórias em Taças do Mundo, um recorde que só foi superado em janeiro de 2023, por Mikaela Shiffrin (atualmente, Shiffrin e Ingemar Stenmark detêm o máximo de vitórias, 86).

Lindsey Vonn ganhou quatro títulos absolutos da Taça do Mundo de esqui alpino (é uma das duas únicas esquiadoras a consegui-lo, a outra é Annemarie Moser-Proll), sendo três consecutivos (2008, 2009 e 2010), conseguindo outro em 2012.

Conquistou ainda a medalha de ouro no downhill nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 (tem mais duas medalhas de bronze em Jogos Olímpicos) e seis títulos consecutivos na Taça do Mundo na disciplina de downhill (2008-2013). O currículo inclui ainda quatro títulos consecutivos em super-G (2009-2012) e três títulos consecutivos no combinado (2010-2012).

Lindsey Vonn é uma das seis mulheres, no mundo, que conseguiram vencer provas da Taça do Mundo em todas as cinco disciplinas de esqui alpino: downhill, super-G, slalom gigante, slalom e combinado.

Aprender com as lesões

As lesões têm-na acompanhado ao longo da carreira, com a atleta a garantir que quer sair dos problemas ainda mais forte. "Sempre aprendi com cada lesão. Cada uma delas tornou-me uma pessoa melhor e mais forte de diferentes maneiras... mas a batalha da mente pode ser sombria, dura e implacável".

Em 2014, por exemplo, devido a uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito (sofrida três meses antes da competição), não pôde entrar nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, mas esteve no local a trabalhar como… comentadora da televisão NBC.

No campeonato do mundo de 2009, em Val d’Isere (França), sofreu uma lesão caricata. Depois de ter ganho duas medalhas de ouro (super-G e downhill), ao celebrar a segunda conquista, uma garrafa de champanhe estourou-lhe numa mão e cortou-lhe o tendão do polegar. Após uma cirurgia de emergência, falhou a prova de slalom, mas com uma proteção especial (que pesava quase 2 kg) entrou no slalom gigante – sofreu uma queda na descida que, apesar de não ser grave, tirou-lhe a possibilidade de chegar às medalhas.

Depois de ter anunciado a reforma, em fevereiro de 2019, dali a cinco anos e meio (novembro de 2024) regressou às competições, graças ao sucesso de uma cirurgia inovadora num joelho (reconstruído com implantes de titânio sete meses antes), o que lhe permitiu viver sem as dores que a impossibilitavam de esquiar.

Entrou em quatro provas da Taça do Mundo entre 21 de dezembro de 2024 e 23 de março de 2025, obtendo um 14º lugar, um 6º, um 4º e um 2º, tornando-se, aos 40 anos, a mais velha esquiadora alpina a alcançar um pódio. O seu regresso foi descrito como “o maior comeback da história do desporto” e Lindsey Vonn conseguiu mesmo tornar-se a nº 1 do mundo. Agora que teve novo (e bastante complicado) revés, será esta a saída definitiva ou ainda vamos ter um novo e incrível retorno da “Rainha da Neve”?