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Há quem acuse os media de apresentar problemas sem soluções. Uma análise prévia aos media de serviço público, sobre as notícias relativas às alterações climáticas, concluiu isso mesmo.
Apesar da velocidade da circulação da informação, há temas que persistem, sequer deveriam abandonar a agenda pública e a mediática. A nossa atenção é um deles. O que fazemos com ela, outros e a nossa capacidade para gerir a nossa atenção, uma urgência. Há uns dias, um artigo no jornal The Guardian alertava para um possível colapso de um sistema oceânico crucial, o Atlantic Meridional Overturning Circulation, com consequências catastróficas para o clima global. Um daqueles temas que, há poucos anos, seria tratado como cenário remoto e, hoje, assume-se como real. A pergunta que o próprio artigo coloca é simples: porque é que quase ninguém ouviu falar disto?
A resposta que o autor propõe também é simples e argumenta que os media dependem de interesses económicos e os mais ricos moldam a agenda pública. Verdade mas incompleto. O problema é outro.
Dediquei algum tempo a ler os comentários à publicação do artigo nas redes sociais. É fácil perceber que o problema não está no que não chega às pessoas. Está no que acontece seguir.
Há quem pergunte o que pode fazer, sem saber por onde começar, acusando os media de apresentar o problema sem soluções. Uma análise prévia aos media de serviço público, sobre as notícias relativas às alterações climáticas, concluiu isso mesmo. Os media falam de problemas, não apresentam soluções. Nestes comentários há quem argumente que já é tarde demais. Há quem desvie a conversa para teorias mais ou menos improváveis. Há quem critique o próprio artigo por alarmismo. Há quem peça soluções práticas. E há, muito raramente, quem tente apresentar uma leitura mais estrutural do problema. E, esta é a questão.
Perante informação complexa e ameaçadora, a reação não é mobilização, antes o medo e a divisão.
A informação está disponível mas não a conseguimos compreender ou processar, pelo excesso, complexidade e contradição. A questão, portanto, não é apenas política ou económica. É cognitiva.
A forma como a informação circula hoje não favorece a compreensão, favorece a reação. O choque, a indignação momentânea, a opinião rápida. E, logo a seguir, a distração seguinte. Qual o próximo tema? Cada alerta entra num fluxo contínuo de estímulos que se misturam. Entre artigos científicos ou de opinião, vídeos de entretenimento ou crises internacionais, tudo acontece ao mesmo tempo. Tudo exige atenção imediata. Nada permanece tempo suficiente para ser realmente pensado.
O possível colapso do Atlantic Meridional Overturning Circulation não desaparece porque não é importante. Desaparece porque não consegue competir pela nossa atenção. E quando não desaparece, transforma-se noutra coisa, ou seja, ansiedade, fatalismo ou desconfiança.
No entanto, ao mesmo tempo que discutimos cenários de colapso global, multiplicam-se iniciativas concretas, locais, que tentam responder a problemas estruturais de forma prática. No dia 16 de maio, na Herdade das Servas, realiza-se mais uma edição do Regenerative Wine Fest, um encontro que reúne produtores, especialistas e consumidores em torno de práticas de viticultura regenerativa.
Tem relação com o outro artigo? Muita.
A agricultura regenerativa parte de uma premissa exigente, não basta reduzir o impacto, é necessário restaurar sistemas. Solos, ecossistemas, cadeias de valor. É um trabalho lento, invisível, pouco mediático. Exige tempo, conhecimento, cooperação. E, sobretudo, exige algo que parece cada vez mais escasso: a nossa atenção e dedicação.
É aqui que o contraste se torna evidente.
Enquanto conteúdos alarmistas circulam rapidamente, gerando picos de atenção seguidos de esquecimento, iniciativas como esta crescem devagar, exigem presença, participação e compreensão. E, por isso, raramente ocupam o centro da conversa. Porquê?
De forma simples, já não conseguimos dedicar o tempo e atenção que estas soluções exigem. Consumimos alertas como se fossem entretenimento e confundimos estar informados com compreender. Por consequência, compreender com agir. E a única acção possível depende de conseguir fazer. Alguma coisa.
Há quem acuse os media de apresentar problemas sem soluções. Uma análise prévia aos media de serviço público, sobre as notícias relativas às alterações climáticas, concluiu isso mesmo.
Estará o modelo de subscrição musical digital ameaçado? Ainda não mas, se pensarmos que veio substituir décadas de relação individual com a música, e que são os mais jovens a procurar alternativas para abandonar esta lógica, talvez estejamos perante uma inflexão cultural.
Muito se fala de uma geração à qual atribuem mais defeitos do que qualidades. Talvez seja, contudo, seja esta a geração que vai mudar tudo. E, por tudo, entenda-se, t u d o.
Pela primeira vez, discute-se de forma consequente a arquitectura destas plataformas: não apenas o conteúdo, mas os mecanismos que o tornam irresistível.
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