As várias comemorações de Maio podem e devem motivar debates profundos acerca do nosso quotidiano. Debates de natureza política, sem dúvida, mas também éticos e morais.
O mês de maio inicia-se com as celebrações, logo no dia 1, do Dia Mundial do Trabalhador, sendo que em Portugal o 1º de Maio começou a ser festejado logo em 1890, deixando de o ser (a não ser de modo clandestino) durante o período do Estado Novo, e sendo a tradição restaurada em 1974, logo após o 25 de Abril.
Mas muito se comemora em maio para além desse dia, o qual, para os católicos, é também o dia em que se festeja São José Operário, em honra do pai registral do judeu sefardita Yeshua ben David, a que os ocidentais chamam Jesus Cristo, palavra esta (Cristo) que significa em grego “Ungido”, que é igualmente o que significa, em hebraico, a expressão Messias.
Pequenas curiosidades, como é igualmente o facto de Yossef (José) - tal como Yeshua o foi -, ser um artesão (um carpinteiro) que trabalhava por conta própria, ou seja, ser um empresário, e também a circunstância de a Igreja Católica, mais exactamente o papa Pio XII, só ter instituído esse dia em 1 de maio de 1955, para, como foi publicamente proclamado por esse pontífice, “ajudar os trabalhadores a não perderem o sentido cristão do trabalho”.
E, continuando a aludir aos cristãos católicos, é em 13 de maio que estes celebram a alegada aparição, em Fátima, da Virgem Maria aos três pastorinhos. E não são só os católicos portugueses que o fazem.
Já sem o sentido religioso que antes teve (quando a data era assinalada num dia fixo, que era 8 de dezembro - em termos litúrgicos, o dia da Imaculada Conceição), em Portugal festeja-se no primeiro domingo de maio o Dia da Mãe. Esses festejos ocorrem por todo o Mundo, mas acontecem em dias diferentes consoante os países.
Dia da Mãe, porque o Dia Internacional da Mulher é celebrado a 8 de março, data em que se recorda o dia 8 de março de 1857, no qual as trabalhadoras de uma indústria têxtil de Nova Iorque fizeram greve por melhores condições de trabalho e igualdades de direitos para as mulheres, movimento esse que, não surpreendentemente, foi violentamente reprimido pela polícia.
Exactamente como aconteceu a 1 de maio de 1886, quando de uma greve iniciada na cidade de Chicago, nos EUA, com o objetivo de conquistar melhores condições de trabalho, melhorias e benefícios aos trabalhadores, e principalmente a redução para 8 horas da jornada diária de trabalho, que nessa altura chegava a ser de 17 horas, resultaram confrontos que originaram a prisão e a até a morte de vários trabalhadores envolvidos nessa luta operária.
Essa iniciativa dos trabalhadores de Chicago enquadrou-se numa greve geral promovida pelos sindicatos para esse mesmo dia e que teve uma grande adesão, sendo apontado que terá envolvido cerca de 340 000 trabalhadores em todo o país.
Só no período entre as duas Guerras Mundiais essa reivindicação de reduzir para 8 horas o período de trabalho diário normal veio a ter consagração legal. Em Portugal isso aconteceu em maio de 1919.
Tanta luta, tanta repressão e tantas mortes aconteceram, para agora se querer voltar a banalizar a ideia de que é exigível que os trabalhadores nada mais façam a não ser trabalhar e gastar uma enormidade de tempo a ir de casa para o local de trabalho e a regressar daí outra vez para casa.
Isto nos casos em que esses seres humanos, iguais em direitos e deveres a todos os demais membros da Comunidade, conseguem ter uma casa para morar. O que nem sempre acontece.
E ainda há quem, despudoradamente e sem um pingo de vergonha, tenha o supremo desplante de se atrever a afirmar que esse retrocesso à barbárie é uma modernidade e uma forma de progresso.
Vamos ver o que irão proclamar esses “modernos” no dia 8 de maio (na Federação Russa, como acontecia nos tempos da União Soviética, esse acontecimento comemora-se a 9 de maio), em que se festeja a vitória dos Aliados sobre a Alemanha Nazi, acerca das questões da guerra e da paz.
Tenho alguma curiosidade acerca da forma como esse acontecimento irá ser assinalado em Portugal. Se calhar não vai ser.
Quem sabe se nesse dia mais algum drone ou outro instrumento de guerra estado-unidense irá usar a Base das Lages numa qualquer viagem para o Médio Oriente.
É que Trump já obteve do “seu” Supremo Tribunal Federal a autorização para proceder aos necessários rearranjos dos círculos eleitorais com o objectivo de impedir a eleição de senadores e membros da Casa dos Representantes do Partido Democrático nas eleições gerais que se irão realizar (será que vão mesmo?) nos EUA em 3 de novembro deste ano.
Que grandes freios e contrapesos há para aqueles lados do Mundo, não haja dúvida.
Que grande “Farol da Democracia”.
Vamos ver o que irão fazer os dirigentes europeus, da UE e dos seus Estados-Membros perante tudo o que está a acontecer nos EUA.
E, sobretudo, o que irão fazer os povos europeus perante os desmandos de Trump e de outros como ele (e não me refiro só a Putin e Netanyahu), cujas graves consequências estamos a sofrer e ainda continuaremos a sofrer por muito tempo.
As várias comemorações de Maio podem e devem motivar debates profundos acerca do nosso quotidiano.
Debates de natureza política, sem dúvida, mas também éticos e morais.
Sobre a dignidade do trabalho e dos trabalhadores (em especial os trabalhadores por conta de outrem), sobre a condição das mulheres, sejam elas mães ou não, mas igualmente sobre as relações, sempre desafiantes, entre os dois sexos (ou géneros, como agora se proclama – o que não é algo neutro nem indiferente), e sobre a organização/estruturação do Estado e as relações entre governantes de governados.
É a isso que me irei dedicar.
Até porque, há cem anos, aconteceu o 28 de maio de 1926.
As várias comemorações de Maio podem e devem motivar debates profundos acerca do nosso quotidiano. Debates de natureza política, sem dúvida, mas também éticos e morais.
Já agora, considero importante repetir, pela enésima vez, que, em termos de ciência política, quer se queira quer não, o PREC foi apenas uma crise revolucionária e não, como muitos afirmam, de ambos os lados do espectro político nacional, uma revolução falhada).
Para já, é a Demagogia que está a ganhar. Como, aliás, está a acontecer por todo o Mundo. Bem nos avisou o grego Aristóteles de que a Democracia pode, muito facilmente, degenerar em Demagogia. E ele viveu entre 384 e 322 a.C..
Estamos, felizmente, muito longe dos tempos miseráveis do Estado Novo e talvez ainda haja memória colectiva suficiente do modo como essa corja de patifes tratava os portugueses e, sobretudo, as portuguesas.
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