O instrumento está neste momento a ser instalado no deserto de Atacama, no Chile, e vai começar a funcionar no início de abril. A SÁBADO falou com um dos investigadores envolvidos, ainda com jet lag da viagem.
E se pudéssemos perceber o que se passa nas estrelas? Até agora, este era um problema impossível de resolver. Razão: estes corpos celestes estão demasiado longe para serem observados. Contudo, a história pode estar prestes a mudar graças uma solução 100% portuguesa que tem tanto de inovadora, como de ousada: usar o Sol “como cobaia”. “A ideia é olhar para o Sol e compreender o que se passa numa estrela como esta”, explica Alexandre Cabral, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
O telescópio custou cerca de 800 mil euros e foi financiado por fundos comunitáriosDR
Na verdade, o projeto já saiu do papel e está por estes dias em plena execução no deserto do Atacama, no Chile, mais concretamente no Observatório Europeu do Sul. A forma que os cientistas encontraram de o fazer foi através de um telescópio solar, que foi desenvolvido em Portugal e está agora a ser (ali) instalado.
O instrumento, batizado de PoET (Paranal solar ESPRESSO Telescope) vai permitir olhar para o Sol de uma forma única. "Vamos poder analisar zonas muito específicas, com uma resolução muito elevada, isto nunca foi feito”, explica o cientista.
Alexandre Cabral, juntamente com outros três colegas (são 12 os portugueses envolvidos, já lá vamos) já estão a trabalhar no terreno. Chegaram esta segunda-feira, dia 16 de março. Não é uma estreia, já é a 21ª vez que o físico ali está em missão - e na equipa há apenas dois estreantes. A logística para transportar o instrumento foi enorme: uma parte das peças foram levadas de barco, e as mais delicadas e pequenas foram transportadas de avião.
Num contentor marítimo viajaram oito caixas de madeira, uma delas com mais de 2 metros de altura e cerca de 1,3 toneladas. “Nós temos, por exemplo, aquilo que é a estrutura que vai controlar o posicionamento do telescópio, que é muito pesada e robusta. O telescópio tem um espelho com uma abertura de 600 milímetros, que para o Sol é bastante grande, mas no final tudo entra numa fibra ótica com um terço de 1 milímetro de diâmetro”, detalha o investigador, numa conversa Zoom com a SÁBADO, que se iniciou às 7h da manhã (10h em Lisboa).
Nas próximas três semanas, o tempo que vão ficar no observatório do Paranal, os dias vão iniciar-se sempre cedo – a ideia é começarem a trabalhar antes das 9h (no dia em que falou com a SÁBADO, terça 17, o investigador tinha acordado às 5h, ainda estava com jet lag da viagem). Os cientistas estão numa residência a cerca de três quilómetros e numa altitude 300 metros mais baixa do que no observatório. Os primeiros dias destinam-se a trabalhar na cúpula, o pequeno edifício com teto amovível onde vai ser instalado o telescópio – e que foi fabricado por uma empresa chilena.
Há pessoas de todas as áreas envolvidas no trabalho, desde da mecânica, à eletrónica, da ótica à informática. Mas no observatório internacional são mais de uma centena, sobretudo chilenos mas também europeus e de outras nacionalidades.
O ruído estelar
Há neste momento uma espécie de barreira que impede os cientistas de detetarem os chamados exoplanetas – planetas fora do Sistema Solar. A este obstáculo chama-se ruído estelar, que se refere à atividade natural das estrelas. “Ou seja, é necessário detetar sinais cuja amplitude é mais baixa do que algum do ruído”, explica Alexandre Cabral.
Para conseguirem fazer isso, os cientistas portugueses vão ligar o telescópio solar (que agora vai ser instalado) a outro equipamento que já existe no observatório, o espetrógrafo ESPRESSO – que permite estudar atmosferas de exoplanetas com grande resolução. “Neste momento, há uma dificuldade em detetar os planetas onde possam existir condições para ter vida, por causa do tal ruído estelar. Com esta conjugação dos dois instrumentos vou reduzir essa dúvida e aumentar a probabilidade de os descobrir”, acredita.
A equipa é constituída por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e também do Centro de Astronomia da Universidade do Porto. Para já, no Chile estão apenas quatro elementos, só serão 12 mais no final do mês. O telescópio foi construído no âmbito de uma bolsa do European Research Council e foi construído num tempo muito curto – demorou apenas quatro anos.
Vamos poder analisar zonas muito específicas do Sol com uma resolução muito elevada, isto nunca foi feito.Alexandre Cabral
O projeto é 100% nacional, mas houve partes do telescópio fabricadas em Itália, nomeadamente o espelho principal. Será o primeiro instrumento daquele observatório a funcionar durante o dia – até agora, as observações eram todas feitas à noite. A ideia é que funcione durante o máximo de tempo possível. “Desde por volta das 10h até o sol começar a descer”, diz. Depois de instalado, o dispositivo será operado a partir de Portugal, de forma remota – do Centro de Astronomia da Universidade do Porto.
“Trata-se quase de um robô, que tem que ser autónomo e que não precisa de ninguém. Essa foi, aliás, umas das condições que o Observatório colocou, não era viável ter um instrumento visitante a consumir recursos humanos, porque estamos no meio do deserto num sítio que tem entre 100 a 150 pessoas para tudo”, explica o investigador.
Obrigados a parar
Para já, o desafio são as próximas três semanas. Não só pela perspetiva técnica, de montar o aparelho e garantir que tudo está a funcionar corretamente, mas também por causa das condições atmosféricas.
“O pior é a humidade relativa que é muito baixa. No início do dia, uma das rotinas é besuntarmo-nos de creme hidratante e depois colocar o protetor solar. Aqui estamos a 2.600 metros de altitude, são uns níveis de raios UV consideráveis”, explica.
O prazo também é, só por si, desafiante – apesar do planeamento já ter contemplado qualquer contingência, e de haver planos B, C e D. “O ideal era estarmos aqui o dobro do tempo, para fazer as coisas com calma, poder trabalhar seis a sete horas por dia. Não é isso que vai acontecer, nós vamos estar a trabalhar fins de semana também”, revela.
Na verdade, os investigadores só podem estar ali 14 dias seguidos e depois são obrigados a parar. Trata-se de uma medida de segurança – “ao fim de duas semanas, a probabilidade de alguém cometer um erro aumenta bastante”, explica. O nível de stress tem a ver com o local em si, mas também com a tarefa que estão a desempenhar.
Se tudo correr como previsto, nos primeiros dias de abril vão ser feitas as primeiras observações ainda no Chile – para perceber o que precisa de ser afinado. E a partir de dia 8, o controlo do aparelho passa a ser remoto. Já o prazo durante o qual o telescópio vai funcionar depende do que se encontrar. “Imaginemos que os resultados são de tal forma bons e há coisas novas que fazem sentido o projeto continuar. A minha experiência de outros instrumentos é que isso acontece muitas vezes”, diz, otimista, Alexandre Cabral. Os próximos tempos dirão.
Há um telescópio português que vai ajudar a descobrir vida fora da Terra
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