O negócio milionário das drogas do sexo

Tiago Carrasco 28 de março de 2018

Prometem desempenhos sexuais a preços baixos, mas podem provocar ataques cardíacos e dependência psicológica. Em 2017, os portugueses gastaram 27 milhões de euros em medicamentos para a disfunção eréctil.

João F. começou a consumir álcool e drogas ainda na adolescência sem nunca pensar que o seu maior vício seriam os potenciadores sexuais: chegou a tomar três por dia. Aos 25 anos, então estudante de Engenharia do Ambiente e DJ aos fins-de-semana na zona de Almada, levava uma vida sexual bastante activa: tinha várias parceiras e participava em orgias organizadas através de um fórum virtual de que era membro. "Como não queria que me reconhecessem perto de casa, corria todas as sex shops da Margem Sul do Tejo para comprar estimulantes. Tomava um todas as manhãs em que sabia que ia ter sexo. Conseguia aguentar várias horas seguidas, com espaços muito curtos entre as erecções. Nos grupos que frequentava, quase todos os homens usavam", conta. Experimentou muitas marcas, das originais às falsificações, acabando nos suplementos alimentares supostamente naturais, a que recorria com maior frequência: "Desvalorizava os efeitos secundários, dores de cabeça e tonturas. Como diziam ser naturais, não me preocupava muito com as consequências", diz.

Três anos mais tarde, teve uma depressão: a mãe estava gravemente doente, não conseguia encontrar emprego e muitos dos seus amigos deixaram de lhe ligar. Por essa altura, arranjou namorada. "Pensei que uma parceira fixa me ia ajudar", diz. Contudo, os problemas sexuais cedo se manifestaram: "Gostava dela, sentia-me atraído, mas deixei de ter erecção no momento da penetração. E tinha vergonha de contar isto ao médico ou aos amigos", recorda. "Gastava o pouco dinheiro que tinha em comprimidos. Mas, até mesmo o Cialis, só resultava às vezes. Aquilo afectou-me tanto que cheguei a ter ataques de ansiedade, vómitos e a sentir pânico. Pensava que tinha um problema físico, que ficara impotente. Fui parar duas vezes ao hospital, mas ainda hoje não sei se devido ao stress ou aos efeitos secundários das cápsulas."

Sem mais dinheiro - João diz ter gasto entre 1.500 e 2.000 euros em potenciadores, a uma média de 40 euros por 10 cápsulas -, preferiu terminar a relação e rejeitar o sexo durante quase dois anos. Em 2014, a sua vida estabilizou: passou a trabalhar como agente imobiliário e voltou a ter relações esporádicas. "Das primeiras vezes, ainda pensava nos comprimidos. Suava, tremia. Mas depois de ter resultado três ou quatro vezes seguidas, reparei que conseguia ter bons desempenhos sem eles. Só aí percebi que o meu corpo não tinha problemas, mas que desenvolvi uma dependência psicológica." Hoje tem uma relação estável e faz campanha na Internet contra o uso de fármacos com fins sexuais: "Percebo que sejam usados por homens com disfunção eréctil. Mas só para melhorar a performance, não. Não valem a pena", defende.

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