Sábado – Pense por si

Eurico Reis
Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
11 de janeiro de 2026 às 10:26

Ventura patriota? Não brinquem com coisas sérias

Ao contrário de Marine Le Pen, que assume uma postura cada vez mais gaulista, em coerência com a transformação da “Front Nacional” (Frente Nacional) herdada de seu pai em “Rassemblement Nacional”, Ventura continua a não criticar Trump.

Nos seus tonitruantes discursos, André Ventura afirma-se sempre muito patriota.

E faz isso sem qualquer vergonha ou pudor apesar de a sua verborreia contra os imigrantes estar não apenas a pôr em perigo as relações de Portugal com os restantes países que têm o português como língua oficial e a situação dos membros das comunidades portuguesas nesses Estados, mas também todo o passado histórico do nosso Povo, nomeadamente após a época dos descobrimentos.

E, repare-se bem, foi um brasileiro (o intelectual e cientista social Gilberto Freyre) que criou o conceito que designou por luso-tropicalismo, nunca benquista pelo Estado Novo (e seguramente rejeitada por Ventura e os seus apaniguados) devido à importância que essa ideia conferia à mestiçagem, à interpenetração de culturas, à herança árabe e africana na gênese do povo português e das sociedades criadas pela colonização lusa.

Em traços gerais, para Gilberto Freyre, os portugueses criaram a "primeira civilização moderna nos trópicos", sustentando ainda o mesmo que os isso aconteceu dada a nossa especial capacidade de adaptação aos trópicos, não sobremaneira por interesse político ou económico, mas por uma empatia criadora que seria em nós natural dada a nossa plasticidade intrínseca, resultante da nossa origem étnica híbrida, e da bi-continentalidade decorrente do longo contacto com mouros e judeus na Península Ibérica, nos primeiros séculos da construção da nacionalidade portuguesa.

No seu discurso no 10 de Junho de 2025, para grande irritação das gentes do Chega, Lídia Jorge disse algo de muito semelhante.

E facto de as elites colonialistas (até as anteriores ao Estado Novo, mas incluindo os detentores desse poder salazarista e caetanista – isto é, também no consulado de Marcelo Caetano a que o 25 de abril de 1974 pôs fim) terem, até à independência dessas ex-colónias, patrocinado e perpetrado crimes contra as populações africanas e brasileiras, não torna inválida essa tese de Gilberto Freyre.

Até porque é indispensável nunca esquecer que também o grosso dos portugueses e das portuguesas foi vítima dessas mesmas elites dirigentes.

E esta evidente contradição foi notada pelas pessoas que realmente escrevem os discursos que André Ventura papagueia – sim papagueia porque, podendo outros sê-lo igualmente, se há alguém que é verdadeiramente um fantoche e uma marioneta, essa pessoa é André Ventura – daí que, para além dos ciganos, os ataques passassem a ser dirigidos para as populações indostânicas e, muito particularmente, para os naturais do Bangladesh.

Lamentavelmente, por pura miopia cultural e incompetência política, o governo de Luís Montenegro nem essa distinção soube fazer e atacou o núcleo fundamental do relacionamento de Portugal com os outros países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua oficial Portuguesa – a língua de Camões), pondo em causa interesses vitais do nosso Estado que são estruturantes para a nossa posição no Mundo e até para a Defesa Nacional do nosso país.

E, para além disso, até atacou uma das raízes da nossa nacionalidade – Gilberto Freyre estava carregado de razão nas suas afirmações -, a saber, a comunidade judaica e os descendentes dessa diáspora, repetindo, dessa forma, os erros colossais (e os crimes) praticados nos reinados dos últimos reis da IIª Dinastia e nos da IIIª Dinastia.

É caso para perguntar, até onde podem ir a cegueira ideológica e os preconceitos a ela associados?

Voltemos, contudo, a André Ventura e às suas cambalhotas verbais já que será não apenas desastroso, mas igualmente vergonhoso, para Portugal se esse racista, xenófobo e difusor de ideias fascistas e de discursos de ódio passar à segunda volta das eleições presidenciais neste ano de 2026 (ou em qualquer outro ano).

Depois da entusiástica defesa da agressão cometida pelo governo dos EUA contra a Venezuela, quando se tornou indesmentível, mesmo para os votantes e adeptos do Chega que engolem acefalamente todas as patranhas que Ventura quotidianamente vomita, que Trump e a sua camarilha queriam – e querem – apenas tomar conta daquele país sul-americano, e não derrubar a ditadura aí implantada por Maduro e os seus apaniguados, todo esse assunto foi abandonado e o tema passou a ser a defesa do patriotismo.

E, claro, a “limpeza do país da corrupção” que, segundo essa gente, grassa desde 25 de abril de 1974.

Não desminto que haja corrupção em Portugal, mas, e sendo certo que isso não é, de todo, uma fatalidade ou uma inevitabilidade (porque há países em que esse mal tem proporções

mínimas), o mesmo acontece em muitos outros países do Mundo, incluindo europeus, e é absolutamente indesmentível que a corrupção no tempo do Estado Novo derrubado por esse 25 de Abril era muito maior. Insuperavelmente maior.

Contudo e retomando a pretensa defesa da Pátria propagandeada por Ventura, usando uma expressão popular “patriotismo, o tanas!”.

O ataque do actual governo dos EUA à Venezuela, como está mais do que suficientemente demonstrado pelas posteriores diatribes de Trump relativamente à Colômbia, ao México e à Dinamarca e à Gronelândia, ao fazer completa tábua-rasa do Direito Internacional, constitui uma ameaça grave à segurança de todos os demais Estados do Mundo.

E só a miserável sabujice perante Trump, tão miserável que até dá vómitos, do secretário-geral da NATO/OTAN e das pessoas como ele, os faz levar a continuar a afirmar que o inimigo principal é a Federação Russa.

Infelizmente, sem atingir esse patamar de baixeza e de subserviência, os dirigentes da UE e da maioria dos seus Estados Membros continuam a manifestar uma tibieza totalmente consonante com a que manifestaram ao celebrar com os EUA o acordo subsequente à “guerra das tarifas alfandegárias” desencadeada pela Administração Trump.

E, ao contrário de Marine Le Pen, que assume uma postura cada vez mais gaulista, em coerência com a transformação da “Front Nacional” (Frente Nacional) herdada de seu pai em “Rassemblement Nacional” (quando os afirmados seguidores do ideário de Charles de Gaulle abandonam a sigla partidária “Rassemblement pour la Republique - RPR), Ventura continua a não criticar Trump.

O que só demonstra quão falso é o seu apregoado patriotismo.

Quando é a segurança nacional do país – de todos os países do Mundo, insisto, como até Marine Le Pen, com todos os seus defeitos, bem percebeu.

Trata-se, afinal, de mais uma desprezível mistificação, entre as muitas com que Ventura e os seus vis e repulsivos apaniguados nos mimoseiam todos os dias.

Desprezível e perigosa mistificação porque, em linha com a ameaça de ocupação da Gronelândia “quer queiram quer não” e estando pronto a agir “de forma branda ou dura”, sem descartar o uso de meios militares, não é de todo impensável ou improvável que Benjamin Netanyahu e a sua corja de criminosos de guerra recorde a Trump que os Açores são indispensáveis – porque o são mesmo - para o prosseguimento do genocídio que estão a cometer contra os palestinianos que vivem na Faixa de Gaza e da sua política de desestabilização de todo o Médio-Oriente.

Ou, quem sabe, porque as instalações dos EUA na Ilha Terceira também serão cruciais para tal, se esses israelitas e algum general estado-unidense recordar a Trump que uma intervenção no Irão só será possível com a utilização da Base das Lajes.

E esta hipótese, nos tempos que correm, não é fantasiosa nem inverosímil.

E, se tal acontecer, não será André Ventura nem o Chega que irão defender a integridade nacional de Portugal.

Já agora, face à tibieza do governo de Luís Montenegro, em total consonância com a postura pífia de António Costa, de Ursula von der Leyen e, em geral, dos demais dirigentes da UE, será preferível que passem à segunda volta das eleições presidenciais candidatos que mostrem, por actos e não apenas por palavras, uma indispensável independência face a esse actual governo de Portugal.

Independência nessa matéria e em outras, como por exemplo relativamente aos problemas da saúde e do SNS que tanto vitimam os portugueses e as portuguesas.

E “vitimar” não é, infelizmente, uma palavra de circunstância.

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