A SÁBADO tem um número especial sobre o bicentenário da declaração de independência. Há festa e reflexão na América, há muito para ler nas páginas desta edição.
Primeiro era a imagem: as imagens que marcam a história da América marcam a história de todos nós, nos altos e baixos. Todos conhecemos a imagem de Armstrong na lua, como todos vimos o rosto da mãe migrante da Grande Depressão, com os filhos, marca de uma crise que afinal não foi só americana porque, já há um século, os destinos dos EUA e dos resto do mundo estavam bastante ligados. Depois, nenhum país foi tão obsessivo na forma como registou, guardou e preserva as imagens de si mesmo: os National Archives são um tesouro único de memória coletiva – e essa memória não é apenas nacional. O local americano é global nos nossos tempos.
250 anos dos Estados Unidos da AméricaSábado
Mas não basta ver. Há que celebrar, e contamos-lhe o que vai acontecer para assinalar a efeméride: Portugal, através do navio-escola Sagres, vai estar na festa.
E é preciso saber: e marcar as datas que, desde 1776, marcaram 250 anos atribulados, com muitas datas chave.
E é preciso perceber: num artigo exclusivo, José Manuel Durão Barroso, Presidente da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento), que se associa esta edição especial, escreve sobre o valor da relação transatlântica entre Portugal e os EUA, e os desafios do momento: a Europa terá de se tornar um ator geopolítico de uma forma que até hoje não foi - com uma identidade própria - e deve reforçar a sua dimensão da NATO, mantendo o compromisso com a Aliança Atlântica. Portugal está em boa posição, histórica e geopolítica, para estar à altura do desafio.
Paul C. Manuel percebe como ninguém o passado, o presente, e o valor da ligação entre Portugal e os EUA. O historiador lusodescendente , professor na universidade de Georgetown, explica em entrevista a excecionalidade americana, o pecado original da mesma, e o teste atual ao sistema criado há 250 anos. Com um olhar particular para o peso português na América: existe e deveria ser mais visível. A reserva portuguesa tem o preço de uma certa invisibilidade.
Mas a América que hoje se celebra como grande não nasceu como tal. Houve uma série de presidentes que assim a construíram, passo a passo. Vasco Rato chama-lhes os arquitetos do império. E, muito antes do make america great again, compraram, acordaram, invadiram e impuseram um território enorme e uma órbita internacional americanos que fizeram dos EUA a superpotência global dominante em que se viriam a tornar. Thomas Jefferson, James Monroe (o da doutrina Monroe que agora regressou), James Polk, William McKinley, Theodore Roosevelt e Harry Truman seguiram esse percurso – Trump tem precursores.
Os portugueses não foram indiferentes, foram agentes, estiveram lá desde os primeiros tempos. Houve um português, grande amigo de Jefferson e seu amigo pessoal, hóspede privilegiado na sua casa de Monticello, o abade Correia da Serra, que foi testemunha e provavelmente contribuinte do percurso de afirmação no arranque do novo país. E houve emigrantes, em sucessivas vagas, no Havai, na Califórnia, no Massachussets, e não só, no garimpo do ouro, na caça à baleia, nos negócios de conservas e na produção de leite – na Califórnia, os lusodesendentes ainda são 350 mil. Pouco sabemos disso, sinal e prova da boa integração da comunidade, que é hoje mais americana do que portuguesa, mas, também por isso, merece que se saiba mais. Muitos dos nossos primos americanos recuperam hoje essas raízes – e nunca perderam a prática das malassadas e de decorar as ruas para as festas do Espírito Santo.
Os EUA não mudaram apenas a forma como se pensa e faz política nas democracias liberais ocidentais. O mundo como o vivemos hoje no dia a dia deve muito, talvez quase tudo, ao engenho e arte americanos. Na parte do engenho, a IA, que tanto admiramos e tememos ao mesmo tempo, nasceu nos EUA. Where else, se, antes dela, o precedente era este: também lá foram criados a lâmpada elétrica, o telefone, o avião, a linha de montagem, a vacina da poliomielite, o pacemaker, o computador pessoal, a Internet, todos americanos, todos do mundo.
E no que à arte diz respeito, nenhum país se mostrou a si próprio de forma tão impactante, para dentro e para fora, na literatura, na música, no cinema. A América tem gosto em contar-se a si mesma, o cinema americano não é cinema americano, é de toda a gente, e quando mostra os EUA (e muito dele mostra) e a sua história, a narrativa nacional passa a softpower global.
Por fim, não perca a Opinião. João Pereira Coutinho lembra Gordon S. Wood para lembrar que "as democracias liberais em que vivemos são americanas na origem". Lívia Franco recorda-nos como, ao contrário das ideias feitas (e do que a proximidade a Inglaterra) fazem supor, fomos dos primeiros a reconhecer o novo país criado pelas 13 colónias rebeldes, e como as ideias republicanas dos EUA viajaram primeiro para a Lisboa antes de aportarem ao Brasil; Germano Almeida aponta a uma república sob ameaça", ameaça essa que a invasão ao Capitólio deixou escancarada. Natacha Pernas, vencedora da edição 2026 do Prémio Point of View da FLAD, faz uma leitura do atual ciclo eleitoral americano e do que significa para o futuro.
E o escritor Gonçalo M. Tavares vai a um velho caderno de apontamentos para recordar uma viagem (uma road trip, como se diz por lá, não é um anglicismo, só podia ser um americanismo) por nove estados e em que a paisagem natural e o vazio, esse outro lado menos evidente dos EUA, tomam conta do tempo e do espaço mental.
Um bom pretexto para pensar na próxima road trip, real ou mental: mostramos-lhe o que identifica cada um dos 50 estados americanos e porquê. Há algumas surpresas.
No editorial, resta concluir que "no mundo de 2026, e roubando a frase a um extraordinário americano, as notícias da morte da América parecem francamente exageradas. E, pelo menos no chamado mundo ocidental, em larga medida e 250 anos depois, somos todos filhos dessa América". Porque, em 2026, "não há sonho russo, não há sonho chinês, não há multidões à procura do futuro a aportar aos alegados competidores na também alegada (por enquanto) Nova Ordem Mundial".
Fechamos com o cartoon: umas quantas figuras 'conhecidas', chamemos-lhes assim, de Kennedy a Marilyn passando por Martin Luther King, desfilam numa limusina com as Torres Gémeas em fundo, o ativista dos civil rights tem microfones à frente, mas são os das redes sociais de 2026. E qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, consegue identificar aqueles rostos e aqueles símbolos.
Nascidos a 4 de julho: tudo o que pode ler sobre os 250 anos dos Estados Unidos da América
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