“Vi corpos mutilados, braços para um lado, pernas para o outro. Imagens que vão viver para sempre na minha cabeça"

“Vi corpos mutilados, braços para um lado, pernas para o outro. Imagens que vão viver para sempre na minha cabeça'
André Rito 01 de abril

Entre 1961 e 1975 milhares de soldados portugueses combateram em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Este é o relato na primeira pessoa de Manuel Lapão, que integrou uma comissão em janeiro de 1968.

No ano em que se assinalam 60 anos do início da Guerra Colonial, a SÁBADO apresenta uma série de textos e histórias de quem viveu por dentro o maior conflito armado que envolveu diretamente Portugal. Esta é a história de Manuel Lapão, que partiu para Moçambique em 1968, para substituir um soldado morto na frente de combate. Um relato na primeira pessoa desde o embarque no Vera Cruz até à "tristeza" dos dias de hoje. "Há milhares de ex-combatentes que mereciam mais respeito da nossa sociedade".

"Não sabia ao que ia, não era alinhado com o regime, não tinha cultura política. Mas senti que ia para uma guerra com a qual não estava muito de acordo. Nunca concordei com guerras. Do meu então fraco conhecimento percebi que era uma guerra injusta, que não nos deu alternativa. Houve gente que desertou, pessoas com mais possibilidades, de famílias com posses e conhecimentos. Eu não tinha condições por isso fui obrigado a embarcar.

No cais do Vera Cruz, onde subiram a bordo 2500 soldados, estavam os meus pais, a minha namorada - hoje minha mulher e mãe dos meus filhos -, o meu padrinho e um amigo dele. A despedida foi um momento muito triste, chorei. Sou natural de uma freguesia de Borba, Santiago de Rio Moinhos, na altura houve rapazes da região que foram chamados e que infelizmente não regressaram. Tinha 20 anos quando interrompi o trabalho de mecânico de automóveis para fazer o serviço militar obrigatório e fui integrado na comissão que partiu a 31 de janeiro de 1968.

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