A conversão do antigo quartel para unidade hoteleira de cinco estrelas, do Grupo Sana, no topo de uma colina de Lisboa, tem sido contestada no bairro. Neste sábado, dia 9, as vozes da luta são seis fadistas, ao som das guitarras, que atuam em frente ao imóvel em causa.
Nem a previsão de chuva demove os ativistas de levarem fados à Graça, em modo de protesto contra a nova unidade hoteleira do Grupo Sana, no antigo quartel da zona. A mobilização está marcada para este sábado (dia 9), entre as 15h e as 18h, no coreto do Largo da Graça, à frente do edifício histórico, há muito devoluto e classificado como Monumento Nacional. Seis fadistas do clube de bairro Mirantense cantam pro bono, ao som das guitarras, para contestarem o futuro hotel de cinco estrelas, no topo da colina, que prevê 128 quartos e três pisos subterrâneos.
Protesto na Graça contra a construção de um hotelIlustração de Nuno Saraiva
O evento anuncia-se nas redes sociais pelo cartaz ilustrado, da autoria de Nuno Saraiva, um dos nomes de referência do cartoon político, e traduz simbolicamente o espírito de luta: a assistência chora, ao ouvir o fado Meu Amor, Meu Amor, de Amália Rodrigues (trasladada para o Panteão Nacional em 2001, em Alfama, perto da Graça). "Nem do fado, nem do destino, se espera algo trágico – de infortúnio, crueldade ou morte. Pode significar o contrário:
vida, harmonia, convívio, sorte. As pessoas estão com uma lágrima no olho, mas o
objetivo é regressarmos à vida neste bairro", explica o ilustrador à SÁBADO.
Nuno Saraiva tem 56 anos e uma forte ligação à Graça desde os anos 90, quando foi para lá viver, enquanto cursava Belas-Artes. À época, sentia a forte identidade cultural do bairro, à semelhança de Almada, onde foi criado. Era uma pequena Lisboa, no centro histórico, onde as diferentes gerações partilhavam as mesas das pastelarias e conversavam. Hoje, muitos destes espaços de convívio fecharam e o ilustrador nota os efeitos do turismo de massas, dia após dia, quando lá passa a caminho do atelier. A filha e a enteada, ambas de 15 anos, estudam na escola secundária Gil Vicente, muito próxima da Graça. "É uma
pena ver o bairro ser substituído por pessoas que não são habitantes", lamenta.
Quando observa as multidões de forasteiros, o artista compara-as "aos pombos" – de parte a parte. "Há uma reação de pombo para
pombo, não há partilha nem conexão, um olhar de pombo é vazio." O resultado é a perda "da alma da cidade", porque os turistas "vão e vêm". Sobre o hotel em causa, Nuno Saraiva acredita que não seja um caminho sem retorno. "Pode
ser que [o Grupo Sana] desista deste investimento."
Petição com mais de 4.500 assinaturas
As obras começaram entre março e abril, mas pouco se vê da rua, porque estão tapadas. Chiara Moneta, de 43 anos, uma das representantes da Assembleia da Graça – Parar o Hotel no Quartel, o movimento que organiza as ações de protesto, explica à SÁBADO que a tarde de fados é uma entre várias iniciativas (cerca de 15 ao todo), realizadas com regularidade mensal, embora a frequência varie consoante a época do ano e aumente com a aproximação do Verão. Lançaram uma petição, que conta com mais de 4.500 assinaturas, e, desde março, têm distribuído 300 lonas amarelas com a frase “menos turismo, mais bairro”, para que os moradores as pendurem às janelas. “Pedimos um donativo livre [pela lona, sendo aconselhável 10 euros]”, diz.
O antigo quartel da Graça há muito que estava ao abandonoPedro Catarino
Em tempos, instalou a GNR e o Exército D.R.
Vista panorãmica do hotelGonçalo Oliveira
Este movimento foi criado em novembro de 2024 e as duas primeiras assembleias decorreram na Caixa Económica Operária (fundada em 1876, na Rua da Voz do Operário). As restantes têm acontecido em coletividades, ultimamente no Teatro da Voz e no clube Mirantense. "Não há uma pessoa liderar, funciona à vez: há sempre voluntários para moderarem e fazerem as
atas. Tentamos que estas funções sejam rotativas. A assembleia é aberta a qualquer pessoa e funcionamos por consenso", esclarece Chiara Moneta. Garante ainda que contam com o apoio "de quase todo o bairro".
O objetivo é travar a chamada "turistificação" – ou seja, a transformação da zona numa atração turística, em que os edifícios de habitação, alguns deles devolutos, são convertidos em alojamentos locais ou hotéis. Chiara Moneta acrescenta: “O nosso bairro está estrangulado pelo turismo. Além disso, o quartel da Graça é um espaço muito grande e representativo do bairro. Achamos um absurdo que se transforme num hotel, seria destinado a uma minoria de pessoas que nem sequer vive cá.”
Novas vidas para o quartel
A proposta do movimento é que o quartel seja usado para benefício da comunidade, um objetivo partilhado pela freguesia que abrange a Graça. O presidente da junta de São Vicente, André Gorba Biveti, diz à SÁBADO que enviaram cartas ao ministério das Finanças e à presidência da Câmara de Lisboa, em fevereiro passado, no sentido de obterem esclarecimentos sobre o processo de concessão do edifício histórico ao Grupo Sana, envolvido em polémica. E acrescenta: "Estamos a ponderar uma providência cautelar para saber se existe incumprimento." No seu entender, o antigo quartel poderia suprir a falta de instalações culturais para os moradores: "Daria um polidesportivo, centro
de dia e cineteatro."
Recorde-se que a concessão do antigo quartel para efeito de hotelaria foi atribuída ao Grupo Sana pelo Estado, através da Direção-Geral do Tesouro e das Finanças, a17 de Dezembro de 2019. O contrato previa a conclusão de obras e abertura do hotel de luxo no final de 2023. A partir de 2024, e segundo os termos contratuais, o Grupo Sana teria de pagar uma anuidade ao Estado de 1,79 milhões de euros, segundo noticiou o jornal Público. Mas os prazos não foram cumpridos, o edifício ficou ao abandono durante anos e só recentemente as obras começaram. Contactado pela SÁBADO, por email, o Grupo Sana não respondeu às questões sobre os protestos da população e o ponto de situação do contrato de concessão celebrado com o Estado.
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