Durante um fim de semana, Lisboa revela os bastidores daquilo que comemos. Entre cozinhas escondidas, mercados subterrâneos ou antigas hortas, a nova edição do Open House convida a percorrer a cidade através da sua paisagem alimentar.
Foi num convento que nos sentámos a olhar para as estrelas. Em concreto, na antiga cozinha do Convento das Trinas do Mocambo - hoje casa do Instituto Hidrográfico - cujo nome recorda um antigo bairro povoado por africanos. Construído ao longo de vários séculos, mas aberto em 1657, era aqui que viviam em clausura as irmãs da Ordem da Santíssima Trindade, a vertente feminina dos Trinos do Resgate dos Cativos, encarregues pelo reino de resgatar os prisioneiros da pirataria. Em clausura, as trinas tinham uma vida austera, mas também uma grande cerca com espaço de produção que servia de fonte de rendimento. Após o terramoto de 1755, começam a lotear o terreno, que está na origem do bairro da Lapa.
É o historiador Anísio Franco – investigador no Museu Nacional de Arte Antiga e autor do livro “Lisboa Desconhecida e Insólita” - que na apresentação da programação nos conta as histórias, entrelaçando temas, personagens e geografias. E é ele um dos comissários da nova edição do Open House Lisboa, ao lado da arquiteta Mariana Sanchez Salvador, que tem como objeto da sua investigação a forma como os espaços que habitamos são transformados pela alimentação. Juntos, reuniram uma lista de 77 espaços que estão de porta aberta no fim de semana de 9 e 10 de maio para nos guiar por uma viagem pela paisagem alimentar de Lisboa.
Organizado desde 2012 pela Trienal de Arquitetura de Lisboa, este ano o Open House decidiu lançar o desafio de descobrir a cidade através das várias etapas do ciclo alimentar, da produção à mesa, sem termos de estar necessariamente sentados a comer. Nos restaurantes, vamos às cozinhas. Nos mercados, levam-nos aos espaços escondidos debaixo do solo. Nas casas, conhecemos cozinhas de pessoas como nós. Nas grandes superfícies, ficamos a saber como se alimentam centenas ou milhares de pessoas de uma só vez. Nas pequenas fábricas e nas hortas que se vão escondendo pela cidade, vemos o princípio de tudo. E andamos para trás e para a frente pela história da cidade, nos espaços, mas também nas ruas à boleia de Percursos Urbanos ou mesmo munidos de um Passeio Sonoro.
Durante a apresentação, José Mateus, arquiteto e presidente da Trienal, fala-nos de "Cidades Invisíveis". Romance de Italo Calvino publicado em 1972, sobre o viajante Marco Polo que descreve 55 cidades de forma fantasiosa ao imperador mongol Kublai Khan. “A dada altura Kublai Khan pergunta: mas não está a falar sempre da mesma cidade? E nós suspeitamos que era sempre Veneza. Isso não está completamente esclarecido, mas no fundo há essa ideia muito bonita de que uma cidade contém em si muitas cidades”, defende José Mateus. E é essa a ideia do Open House, que ao longo dos anos vai virando o ângulo da forma como olhamos a cidade. “Um organismo extremamente complexo que proporciona diferentes leituras. E essas diversas cidades nós pretendemos encontrá-las escolhendo comissários diferentes em todas as edições", explica.
Dos 77 espaços que integram esta edição, há 42 estreias que “incluem uma diversidade muito grande de tipologias”. Em comum, têm o tema da alimentação que dá o mote a esta edição. “As cidades e as casas são feitas a partir das necessidades elementares das pessoas. E a água e o alimento são temas, obviamente, centrais”, diz o presidente da Trienal, recordando que “o início das cidades e da arquitetura são pequenos assentamentos em torno dos lugares onde se encontrava a água".
O programa inclui cinco Percursos Urbanos, preparados e conduzidos por especialistas: A Cidade Também se Mastiga, por Joana Lucas (da Jorta do Alto da Eira à Quinta do Ferro); Uma Sardinha na Cidade, por Francisco Henriques (do Mercado da Ribeira à Conserveira de Lisboa); Ventos que Alimentaram Lisboa, por Leonor Medeiros (do Moinho do Penedo ao Parque Urbano Moinhos de Santana); A Escala do Invisível: o Aqueduto como Espinha, por Bárbara Sofia Bruno (do Aqueduto das Águas Livres a São Pedro de Alcântara); e Carlos Mardel e a Água das Fontes, por Joaquim Caetano (da Mãe d’Água das Amoreiras ao Chafariz da Esperança). Destaque também para um novo Passeio Sonoro, que se junta à coleção em streaming composta pelos passeios online de edições passadas (e que também convidam a sair de casa), este ano com o título “A Rua de Entrecampos é um mundo”, por Alexandra Prado Coelho.
Nos bastidores das operações
A toponímia da cidade denuncia “o carácter produtivo histórico da cidade", conta-nos Mariana Sanchez Salvador. O Alto dos Moinhos, a Rua Nova do Loureiro, os Olivais, as Laranjeiras. Ou mesmo o nome pelo qual são conhecidos os lisboetas: alfacinhas. “As hortas de Lisboa eram famosíssimas pela produtividade - cinco, seis colheitas por ano. E, de facto, uma das grandes produções características de Lisboa era alface”, conta a arquiteta. Um dos produtos que dá cor aos muitos mercados da cidade, em destaque na programação. É o caso do Mercado de Benfica, Mercado 31 de Janeiro, Mercado de Santos, Mercado do Bairro Padre Cruz ou Mercado da Ribeira.
E, claro, quando o tema é a comida não podiam faltar os restaurantes. Mas o que está atrás do pano. "Escolhemos alguns mais icónicos, ou mais históricos. O Galeto que faz 60 anos, o Casa Nostra que faz 40 anos, ou a Cervejaria Trindade”. No Mercado da Ribeira, por exemplo – e em jeito de dois em um - será também possível conhecer a cozinha do Pap’Açorda, um clássico da cidade que há dez anos trocou o Bairro Alto, onde abriu em 1981, por um amplo espaço no primeiro piso do Time Out Market, que ocupa um dos lados do edifício. No leme da cozinha está a chef Manuela Brandão, que trabalha na cozinha do restaurante quase desde o início. E mantém a alma dos pratos. “Aqui é outro tipo de público, mas a questão da cozinha, da comida e assim, não mudou. Eu sou fiel à cozinha portuguesa”, diz orgulhosa, durante uma visita ao mercado com a equipa do Open House. A açorda, a cabidela ou a mousse, de receita ainda secreta, continuam a acompanhar a carta, onde a chef mais recentemente acabou por incluir pratos vegan e vegetarianos “para adaptar um bocadinho aos dias de hoje”. E assim sempre estão mais próximos dos seus fornecedores de sempre, no Mercado da Ribeira. Aliás, os visitantes vão perceber que a área de armazenamento desta cozinha nunca precisa de estar muito cheia.
A comissária explica que nos mercados incluídos no menu do Open House tentaram que se veja também o que são “os bastidores destas operações, os pisos subterrâneos que os mercados têm, que às vezes não são visíveis, as zonas de cargas e descargas, os armazenamentos, portanto, esse lado escondido dentro daquilo que ainda temos acesso como consumidores”. Mas os comissários quiseram também mostrar “como isto funciona dentro de grandes edifícios”, como as escolas, hotéis ou hospitais”, e perceber “como é a máquina que efetivamente alimenta estas pessoas”.â
Passando do grande para o mais pequeno, as casas. “Queríamos muito trazer casas privadas, embora, às vezes, seja difícil. Hoje em dia as pessoas não querem abrir a porta a milhares de pessoas que visitam o Open House”, explica Mariana Sanchez Salvador, mas ao mesmo tempo sentiram que esta “é a dimensão que dá nome ao próprio evento [Open House]”. Ou, continua, “aquilo que faz com que cada um de nós reflita como a nossa própria casa também faz parte da paisagem alimentar de Lisboa”.
A programação completa está disponível no site do Open House.