Sábado – Pense por si

Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
07 de maio de 2026 às 11:29

PTRR: Personal Trainer político e Rolls Royce orçamental

Ontem foi o PRR. Hoje é o PTRR. Amanhã talvez venha o PRRRR, porque em Portugal a criatividade institucional mede-se pelo número de letras repetidas numa sigla.

Há países que vivem em velocidade de cruzeiro. Crescem devagar, mas crescem. Com segurança e previsibilidade. Reformam-se gradualmente. Modernizam-se sem histerias coletivas nem anúncios messiânicos. Depois há Portugal. Um país que parece incapaz de existir sem um grande desígnio nacional embalado em siglas sonantes, powerpoints coloridos e conferências com música épica de fundo. O Vangelis nunca abandonou o nosso esforço de superação.

Ontem foi o PRR. Hoje é o PTRR. Amanhã talvez venha o PRRRR, porque em Portugal a criatividade institucional mede-se pelo número de letras repetidas numa sigla.

O novo “Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência”,  PTRR para os amigos,  surge como mais uma bazuca milagrosa. E convenhamos: a própria sigla parece saída de uma convenção de marketing motivacional. PT de personal trainer, RR de Rolls Royce. Um plano musculado, premium, resiliente, transformador, sustentável, inclusivo, verde, digital e provavelmente sem glúten. Tudo ao mesmo tempo.

Mas a verdade é que o país nunca consegue evoluir normalmente. Nunca conseguimos crescer sem dramatização. Sem epopeias. Sem promessas de refundação nacional. Um Lusíadas ambulante , eterno, em Loop. Vivemos numa espécie de bipolaridade coletiva: ou somos o maior génio da Europa ou o último dos diminuídos intelectuais do continente.

Houve o tempo de José Sócrates, em que se acreditava que emitir dívida pública era uma forma sofisticada de patriotismo económico. Depois da descoberta da roda , a eureka da descoberta da rotativa das verdinhas. Sem custo, sem culpa, sem mácula. Construía-se tudo, inaugurava-se tudo, anunciava-se tudo. O crescimento vinha “já ali”, embalado em betão, autoestradas e parcerias público-privadas que deixariam gerações inteiras a pagar a festa.

Depois tivemos sempre o mesmo ciclo de ilusões sucessivas.

O novo aeroporto, que supostamente transformaria Lisboa numa espécie de Dubai atlântico, apagando Frankfurt, Heathrow ou Schiphol do mapa como quem desliga um candeeiro.

A Ponte Vasco da Gama, apresentada quase como um misto de milagre de engenharia e campeonato mundial da feijoada, como se uma ponte suspensa fosse por si só locomotiva económica.

Foi a Expo 98. O Euro 2004. O Parque das Nações. Os estádios hoje rachados. As Jornadas Mundiais da Juventude. O Parque Tejo. Sempre a ideia de que “agora é que vai ser”.

E depois vieram as cativações. O grande truque mágico das finanças públicas portuguesas: inscrever investimento no Orçamento do Estado e depois não o executar. Uma espécie de ilusionismo contabilístico elevado a ciência de Estado. Mas “ conseguimos!  Passámos de maiores gastadores, para tios Patinhas da Europa!”

Até a pandemia nos deu direito ao habitual excesso messiânico. Fomos “os melhores vacinadores do mundo”. Um vice-almirante transformou-se em herói nacional, quase presidenciável, até ter o desplante de abrir a boca e estragar a personagem.

E então chegou o PRR. Ah, o glorioso PRR. A bazuca. A palavra “resiliência” dita com solenidade por ministros e comentadores, como se tivesse sido descoberta naquele momento. O PRR nem sequer tinha mais dinheiro do que os corriqueiros e pouco fashion quadros comunitários plurianuais. Mas tinha algo muito mais importante: era novo, excepcional e menos burocrático. Financiamento até 100%. Contratação pública mais flexível. Dinheiro rápido. Era irresistível.

Resultado? O velhinho Portugal 2030 ficou abandonado a um canto da sala como um tio pobre em jantar de família. A taxa de execução do quadro 2021-2027 permanece embaraçosamente baixa. Priorizou-se naturalmente aquilo que financiava mais, exigia menos esforço financeiro regional e permitia inaugurações mais rápidas.

Esta década de fundos excecionais, trouxe para Madeira uma evidência que não antevíamos. O acumulado entre Madeira 2030 e PRR ronda os 1300 milhões de euros. Um valor que se revela desafiante para a dimensão regional. Um desafio à capacidade instalada,  técnica, administrativa, empresarial e até material,  para executar tudo ao mesmo tempo. Em tão pouco tempo. E é natural que se priorize o que paga 100%.

Agora chegam as tempestades no continente e eis o novo grande desígnio nacional: o PTRR. Mais 22,6 mil milhões. Diz-se que não é dinheiro novo. Depois diz-se que afinal parte é. Já ninguém percebe muito bem.

Mas pelo menos há uma nova agência, uma nova narrativa e uma nova oportunidade para apresentações institucionais cheias de drones e palavras como “transformação”, “resiliência” e “sustentabilidade”.

Para a Madeira, porém, este novo ciclo pode representar algo sério,  se do lado da República houver coragem política, e memória orçamental.

O PRR falhou redondamente em matérias essenciais para a Região. A cobertura da rede viária regional continua incompleta porque Bruxelas decidiu que estradas são pecado climático. A Europa trata igual o que é diferente: uma região continental plana e uma ilha montanhosa, sujeita a aluviões, derrocadas e isolamento territorial.

Na Madeira, as estradas não são luxo mas antes sobrevivência territorial.

Todos concordamos que o transporte coletivo ou ambientalmente mais amigo, como o ferroviário, deve ser privilegiado, mas é preciso ter em conta que em lugares como a Madeira, que conjuga uma orografia extremamente acidentada, desníveis enormes, zonas extensas e propensas a deslizamentos de terras e rocha, além duma dispersão populacional geograficamente desigual e desafiante, as ligações rodoviárias continuam, e sempre serão, indispensáveis para aproximar as povoações, potenciar a economia e mitigar os riscos naturais.

A não ser que haja uma aposta numa rede funicular na faixa urbana, a sul, a única que existe, e aí teríamos ( Região, país e Europa) de sentar e encetar uma negociação realmente séria, pois implicaria um financiamento gigantesco.

O fecho da Via Expresso entre Boaventura e Arco de São Jorge, agora integrado no PTRR, espera-se pela confirmação escrita, é talvez o reconhecimento tardio dessa realidade. O mesmo sucede com a ampliação do Porto do Funchal, ancoradouro de verdadeiras cidades flutuantes de inquilinos endinheirados, mas também da marinha do vacinador-mor, ou com necessidades futuras como um aeródromo alternativo, perante fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes, não podendo a ilha continuar indefinidamente a ter um aeroporto transformado em mega acampamento de turistas e residentes encalhados pela ditadura dos ventos.

Porque enquanto o continente descobre ocasionalmente a tragédia climática, a Madeira vive em erosão permanente. A nossa geografia obriga a uma reconstrução contínua da sociedade e das infraestruturas. Uma realidade cujos custos correntes e permanentes não é mensurável, nem encaixotavel em planos excecionais.

E aqui entra o maior logro de todos: a famosa Lei de Meios pós-aluvião de 2010.

Anunciaram-se mais de mil milhões de euros. Mas a República transferiu efetivamente cerca de 200 milhões. Uma verba semelhante à que o actual governo transferiu a título excecional no OE de 2025 para os Açores sem calamidade natural. Apenas orçamental. Mas na lei de meios, e excluindo esses 200 milhões, o resto foi contabilidade criativa. Verbas comunitárias às quais a Madeira já tinha direito passaram a ser contabilizadas como “apoio extraordinário” do Estado. O mais extraordinário era mesmo a habilidade contabilística.

Chegou-se ao absurdo de contabilizar financiamentos europeus do POSEUR como se fossem generosas contribuições nacionais. Até empréstimos do BEI, assumisospela própria Região, entravam na narrativa oficial da “solidariedade da República”.

Foi talvez o maior exercício de ilusionismo financeiro pré - cativações.

O risco agora é repetir o mesmo filme: muito anúncio, muita sigla, muita bazuca e pouca transformação estrutural.

Portugal parece incapaz de perceber que os países sérios não vivem permanentemente em estado de refundação nacional. Vivem de estabilidade, continuidade, planeamento e execução consistente.

Mas isso, convenhamos, impede uma boa cerimónia de anúncio e apresentação, com música do Vangelis ou com ministros a cantar o hino!

 

Mais crónicas do autor
07 de maio de 2026 às 11:29

PTRR: Personal Trainer político e Rolls Royce orçamental

Ontem foi o PRR. Hoje é o PTRR. Amanhã talvez venha o PRRRR, porque em Portugal a criatividade institucional mede-se pelo número de letras repetidas numa sigla.

18 de abril de 2026 às 08:00

Reputação, ou votar com os pés

A reputação não se decreta. Não se impõe com tarifas, nem se conquista com slogans. Constrói-se com previsibilidade, respeito e coerência. E quando se perde, o mundo responde com menos viagens, menos confiança, menos proximidade.

09 de abril de 2026 às 07:00

A beleza de matar comunistas

Se alguém publicasse um livro, uma peça de teatro, com esta formulação, seria imediatamente acusado de incitamento ao ódio. Já a inversão, “matar fascistas”, encontra, demasiadas vezes, complacência cultural.

29 de março de 2026 às 08:07

Ver-se Grego

Poucos temas têm sido tão maltratados por este jogo de espelhos como a questão da identidade de género.

13 de março de 2026 às 17:55

Poucochinho

As sondagens continuam a sugerir a mesma conclusão: o atual projeto governativo ainda não convenceu plenamente o eleitorado.

Mostrar mais crónicas