Como é viver num mundo do politicamente correcto

Como é viver num mundo do politicamente correcto
Pedro Marta Santos 22 de novembro

O movimento woke e a cultura de cancelamento começam a ameaçar a liberdade de expressão, um dos pilares da democracia. Como seria um Portugal woke e cancelado em 2022?

Na civilização ocidental, o cancelamento é quase tão antigo como a própria civilização. As origens do ostracismo remontam à Grécia Antiga, quando os habitantes de Atenas votavam publicamente em quem desejavam expulsar. Quando a contagem atingisse os seis mil votos, qualquer cidadão poderia ser expulso da cidade por "razões justas". 2700 anos depois, o colunista do New York Times Ross Douthat escreveu sobre as formas contemporâneas de cancelamento: "é suficiente uma piada que não soou bem nas redes sociais, ou algo que se fez há muito mas cujo registo ainda existe na Internet. Não é necessário ser famoso para ser permanentemente marcado: basta ter um dia mau". O movimento woke e a cultura de cancelamento são estratégias culturais e sociais bem-intencionadas que se transformaram numa nova forma de totalitarismo. O inimigo é o que designam de "burguesia folclórica hétero-cis-normativa". Ou seja, a larga maioria da população.

O movimento woke é o despertar de uma nova consciência étnica, com raízes no calão das comunidades afro-americanas. A cancel culture é a reprovação de figuras e atitudes públicas consideradas ofensivas. A origem entronca um desejo meritório de justiça social, contra os agressores sexuais e violadores denunciados no âmbito do movimento #MeToo e opondo-se aos protagonistas do espaço público que abusam do seu poder artístico, institucional e financeiro. O problema são os métodos e as generalizações. Em Teorias Cínicas (Guerra & Paz), James Lindsay e Helen Pluckrose, especialistas em extremismos, acusam as teorias identitárias, racializadas e de género de pretenderem impor-nos uma nova Inquisição. Segundo os autores, o belicismo do movimento woke acaba por produzir mais malefícios do que vantagens às minorias que pretende defender. Ao tentar tornar inúteis as categorias vigentes de sexo, género e sexualidade, negando submeter-se à crítica das novas categorias que procura impor, a teoria queer, em vez de resolver o problema, acrescenta-lhe novas camadas discriminatórias. Em julho de 2020, um grupo de 150 cientistas e intelectuais, incluindo Margaret Atwood e Francis Fukuyama, publicou na revista Harper’s Magazine um texto sob o título “Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto”. Nele, os subscritores lamentavam que “a livre troca de informações e ideias, força vital de uma sociedade liberal, esteja a tornar-se diariamente mais restrita”. É um dos paradoxos da cultura de cancelamento: reclamando novas formas de conhecimento consensual, simplifica o que é, por definição e natureza, complexo. No caso do mundo académico, os números são significativos: sondagens de meados deste ano atestam que 70% dos alunos do ensino superior nos EUA é favorável a denunciar professores cuja visão considere “ofensiva”.

Nos objetivos prioritários do cancelamento têm estado os livros, em paralelo com a ‘contextualização’ de filmes e séries de TV. Entre as obras de ficção mais ostracizadas na última década por escolas e bibliotecas públicas dos Estados Unidos incluem-se As Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain e O Triunfo dos Porcos de George Orwell. Clássicos como E Tudo o Vento Levou ou Lawrence da Arábia têm sido alvo de avisos prévios nas plataformas de streaming quanto às “mensagens nocivas” que propagam, e séries como Uma Família às Direitas (1971-79), com o reacionário Archie Bunker como protagonista, são precedidas de alertas sobre “conteúdos chocantes”.

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