Entrevista
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José Pedro Zúquete: “Sá Carneiro foi o primeiro político português a defender o populismo”

José Pedro Zúquete: “Sá Carneiro foi o primeiro político português a defender o populismo”
Vanda Marques 01 de maio

Não foi o Chega a inventar o populismo em Portugal. Ventura vai buscar inspiração à nossa herança histórica que começa em Sidónio Pais. O sociólogo e investigador explica porque há tantos preconceitos.

Usada como insulto, a palavra populismo é radioativa. Mas o que significa mesmo e que políticos encaixam, afinal, nesta categoria? É que a ideia de que o populismo em Portugal foi inventado por André Ventura, do Chega, não podia estar mais longe da realidade, explica José Pedro Zúquete. O investigador principal do Instituto de Ciências Sociais, que estuda os movimentos nacionalistas e o carisma, diz que o primeiro populista foi Sidónio Pais (assassinado em 1918) e que o populismo português tem características particulares. Zúquete fez um levantamento exaustivo dos políticos nacionais – para o livro Populismos, Lá Fora e Cá Dentro – e fez descobertas que podem incomodar.


Diz que existe uma ideia errada em Portugal – que o nosso país era "um oásis antipopulista". Porquê?           
Temos a tendência para pensar que somos uma exceção em muitas coisas. A nossa noção de portugalidade inclui a ideia, por exemplo, de que em Portugal não há racismo ou de que não havia populismo. Mas as características do Chega têm um historial na política portuguesa.

Quais são?
O Chega atualiza o ideário do populismo português e intensifica algumas dinâmicas. As características como o dualismo entre o povo sadio e as elites imundas; a divisão moral entre o bem e o mal, a visão de que as elites são corruptas e traidoras e cabe ao populismo denunciar o seu clientelismo, estas características existiram noutros políticos. O populismo também celebra o País real e profundo, com uma agressividade verbal para desqualificar os detentores do poder. Existe também o discurso dos dois portugais: a divisão entre os úteis, ou seja, aqueles que trabalham, e os inúteis, que vivem à conta dos outros. A ideia do líder exemplar que tem a missão de resgatar Portugal da sua decadência. Tudo isto faz parte da história breve do Chega, mas também da história mais extensa do populismo português. Por exemplo, a ideia de martírio está presente em Sidónio Pais, que foi o primeiro populista português, e falava repetidamente disso e, aliás, acabou assassinado. Até Alberto João Jardim falou nisso.

Como é o populismo português?
Dividi o populismo português em três famílias. Temos o populismo militar, com Sidónio Pais – que dizia representar os portugueses de bem –, Humberto Delgado e depois o 25 de Abril, com Otelo e Spínola. Este populismo é composto por soldados que emergem do povo para combater determinadas elites e que cumprem uma missão de salvação do povo. Depois de cumprida a missão, regressam ao povo. O populismo militar apresenta-se sempre acima do partido, dos políticos e da politiquice. Já o populismo regenerador apresenta-se à parte dos políticos e da política, quer ser diferente e apresenta-se com vestes de pureza e com um discurso de moralização do espaço político. Este populismo pode ser de esquerda ou de direita e tem como objetivo a mudança: quer seja a reforma do sistema político ou a sua refundação. Veja-se o caso de André Ventura, qual é o seu objetivo? A quarta República. Pergunto: isso é algo novo? Não. Alberto João Jardim defendeu uma quarta República em Portugal. Depois temos um populismo local, em confronto com as elites centralistas. Este populista cultiva a proximidade do povo. 

Define Sá Carneiro como populista regenerador. Pode explicar?
Sei que não vou fazer muitos amigos, mas Sá Carneiro foi populista a partir do final de 1977, altura em que deixa a liderança do PSD, em guerra com as cúpulas de Lisboa. Sá Carneiro foi o primeiro político português a defender o populismo em Portugal e a sua tradição. Num encontro no Vimeiro, ele diz: "Então defendem esses, que rejeitam o populismo, um sistema de elites, divorciadas do sentir dos Portugueses?" Sá Carneiro faz uma defesa frontal do populismo e ataca o clientelismo político. A partir de 1977 começa a posicionar-se além da esquerda e da direita, para ter um eleitorado transversal – isso é tipicamente populista. O que é curioso é que se esqueceu tudo isto.

Inclui vários exemplos de políticos populistas portugueses. Alberto João Jardim não podia faltar?
Inclui-o no populismo local mas também está na fronteira com o regenerador. Porque ele tem um discurso focado no povo e contra as elites. É um discurso muito feroz sobre as sociedades secretas e sempre muito crítico da classe política. Ele é um caso de populismo de alta intensidade e também defende o populismo. Dizia que quando o acusavam de populismo o faziam para tentar desqualificar as reações populares.

Os populistas são muitas vezes acusados de demagogia. Marinho e Pinto dizia que criticava os privilégios, mas mantinha a sua remuneração de eurodeputado...
O que aconteceu? Ele desapareceu. Porquê? Perdeu a autenticidade. A questão de ir para parlamento europeu e ganhar o que ganhava, e criticar esse ordenado, e não se coibir de o receber... As pessoas têm que saber que a devoção do líder é autêntica, quando isso não acontece é o início do fim desse líder.

A autenticidade é mais importante do que não ter problemas com a justiça. Isaltino até esteve preso. 
Em 2005, houve vários políticos locais com esses problemas que foram reeleitos, como Valentim Loureiro. A história das questões judiciais integra bem na visão populista: "O líder representa-nos e por isso é que é perseguido." Os populistas alimentam essa ideia, porque é uma prova da autenticidade. O mais importante é fazer obra para o povo, que é visto como uma questão muito pessoal.

Diz que Ventura para ser líder teve de personificar o "português comum". Como?
O uso que faz da religião. Ele faz questão de ir à igreja e de ser filmado a rezar. A maneira como expõe a religiosidade não é típica das elites.

Mas André Ventura mudou o jogo político de alguma forma?
Acho que tem a ver com o próprio contexto da emergência do Chega. Surge no momento em que o populismo está na boca dos media por causa do que aconteceu no Brasil e nos EUA. A reação foi: "Já temos o nosso populista." Os populistas aproveitam-se dos media e usam-nos para o sensacionalismo. Vamos ser honestos: o mundo da política é extremamente aborrecido. Mas os media, até os menos tabloide, seguem a política como se fosse um filme de ação, com protagonistas, com volte-faces – nesses meios o populista é como peixe na água. Além disso, houve mudanças drásticas na sociedade portuguesa. Há coisas que foram ditas há 20 anos que hoje não poderiam ser ditas.

Por exemplo?
Veja o que Durão Barroso disse sobre a imigração, em 2000: "Essas comunidades trazem problemas de marginalidade, toxicodependência, doenças infetocontagiosas e criminalidade." E ainda: "Hoje, grande parte dos problemas de insegurança que há no País têm que ver com os problemas de falta de integração das comunidades imigrantes." A nossa cultura político-social sofreu grandes mudanças demográficas.

No livro diz que falta um debate sobre o impacto de "tríade composta por um modelo de sociedade multiculturalista, pelas imigrações em massa e pela liberalização das leis da nacionalidade".
No fundo, as mudanças demográficas em Portugal, a maior abertura à imigração, o multiculturalismo, podem contribuir para o enfraquecimento de uma narrativa de portugalidade a que chamo de religião cívica – assente em dogmas e com uma componente de fé – e que vê Portugal como um modelo superior de convivência entre os povos. Uma ideia cada vez mais contestada que pode contribuir para um maior tribalismo e um fortalecimento do populismo identitário. Os temas da imigração são difíceis de abordar porque rapidamente se transformam numa disputa moral entre bem e mal. É uma discussão que ainda não passou para a esfera política.

O populismo tem uma conotação má e perigosa. Porquê?
Populismo é uma palavra radioativa. Tem muito a ver com o tempo em que vivemos. Estamos inseridos em democracias liberais e os populistas são vistos como demopatas, ou seja, que usam a democracia para tentar subverter e destruir o sistema. Os populistas fazem uma crítica à democracia liberal e veem-na como dominada por oligarquias que usurparam a soberania popular. Já os liberais atacam o populismo e dizem que tem uma visão homogénea e que esmagam o pluralismo. Mas o principal perigo é o que o populismo tem no seu âmago um ímpeto transformador, isso pode levar ao choque com certas instituições.

Somos um País populista?
Portugal também é um país populista, mas é mais do que isso. Vi uma crítica ao meu livro que dizia: "Afinal o populismo em Portugal já tem barbas." Eu acrescento: Já tem barbas e brancas.

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