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República das Marias do Loureiro acusa Universidade de Coimbra de “assédio imobiliário”

Coimbra tem mais de duas dezenas de Repúblicas de estudantes e pelo menos duas estão em risco de encerrar. Nas redes sociais, a República das Marias do Loureiro acusa a Universidade de Coimbra de "assédio imobiliário".

A República das Marias do Loureiro acusa a Universidade de Coimbra (UC) de "assédio imobiliário" e de tentar encerrar uma das mais conhecidas repúblicas estudantis da cidade. A universidade rejeita as críticas, argumentando que o edifício - no Largo de S. Salvador - apresenta problemas estruturais que colocam em causa a segurança dos residentes e que as moradoras recusaram uma proposta de realojamento temporário.

O edifício onde moram Real República Baco e a República Das Marias Do Loureiro (imagem de 2018)
O edifício onde moram Real República Baco e a República Das Marias Do Loureiro (imagem de 2018) DR

“Um dos legados mais únicos da vida académica portuguesa”. O elogio pode ser encontrado numa página dedicada às Repúblicas de Coimbra, no , que os descreve como “espaços comunitários, autogeridos por estudantes” que, além de habitação, são “também verdadeiros centros de partilha, cultura e construção de laços que atravessam gerações”. A lista oficial conta 24, mas há pelo menos duas Repúblicas que partilham o mesmo edifício e podem não sobreviver: a Real República Baco e a República Das Marias Do Loureiro.

O assunto não é novo e em agosto do ano passado o  dava conta da presença de representantes das duas Repúblicas numa reunião da Câmara de Coimbra, onde pediam a ajuda do município para uma situação de possível despejo, promovida pela UC. Na altura, o presidente da Câmara de Coimbra, José Manuel Silva disse não ter dúvidas de que a UC estaria "interessada em resolver esta questão em diálogo”. Mas esta segunda-feira a República Das Marias Do Loureiro serviu-se das redes sociais para pedir ajuda: “No dia 15 de julho de 2026 recebemos um articulado apresentado pelo escritório de advogados que representa a UC, comunicando a intenção de denúncia do contrato de arrendamento da República das Marias do Loureiro”.

Num longo “carrossel” de Instagram, a República recua a julho de 2025 para contar a história. Em resumo, no dia 8 desse mês “representantes da UC e dos Serviços de Ação Social da UC dirigiram-se à nossa casa para pressionar as residentes a abandonar o edifício antes do início do ano letivo”, lê-se na publicação. Posteriormente, a UC terá fornecido um relatório técnico que, na visão desta República “não esclarecia a existência de qualquer urgência estrutural que justificasse a retirada imediata das moradoras”. No mês seguinte, dizem, a UC propôs um acordo de suspensão do contrato de arrendamento que não garantia realojamento durante as obras, nem data de regresso, pelo que recusaram assiná-lo.

Em abril deste ano foi realizada uma vistoria da Proteção Civil ao edifício, mas segundo a partilha da República no Instagram, o relatório nunca lhes chegou às mãos. As Marias do Loureiro dizem ter continuado a pagar a renda, mas desde setembro de 2025 que a UC “passou a devolver”. “Paralelamente, a Universidade deixou de nos encaminhar as contas de água e eletricidade que anteriormente nos eram remetidas para pagamento”, acusam.

“Tudo isto acontece num momento em que Portugal atravessa uma profunda crise da habitação. Em Coimbra, encontrar um quarto a preço acessível tornou-se praticamente impossível para muitas estudantes”, alertam os membros da República em causa, para os quais este conjunto de ações configura "assédio imobiliário”.

Universidade de Coimbra é acusada de "assédio imobiliário"
Universidade de Coimbra é acusada de "assédio imobiliário" Miriam Pereira

Em resposta à agência Lusa, a UC confirma que as repúblicas foram notificadas para desocuparem o edifício, por apresentar riscos de segurança. Mas só após terem recusado uma proposta de saída temporária.

Sobre a vistoria técnica às condições do edifício, a UC avança que não estavam reunidas as “condições de habitabilidade, estando em causa a segurança de pessoas e bens, razão pela qual deveria ser desocupado até ao final do ano letivo de 2024/2025”, uma avaliação semelhante à feita posteriormente pela Proteção Civil. A instituição tem ainda uma versão diferente quanto à possibilidade de deslocamento temporário de residência. Diz ter entrado em contacto com as repúblicas das Marias do Loureiro e Baco “no sentido de acordar as condições de saída para restaurar a república, tendo proposto o alojamento em residências da UC, bem como a possibilidade de regresso ao edifício após o período de angariação de financiamento, elaboração do projeto e realização das obras de requalificação".

Perante a impossibilidade de chegar a uma solução consensual e a necessidade de reabilitar o edifício, a UC decidiu avançar com a denúncia dos contratos de arrendamento, após obtenção de “autorização ministerial”.

Mas, defendem As Marias, “as Repúblicas não se despejam”. “Aquilo que está hoje em causa ultrapassa largamente um contrato de arrendamento. Está em causa a habitação estudantil, a preservação do património estudantil de Coimbra e a continuidade de um projeto coletivo construído ao longo de mais de três décadas”.

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