Diz que cresceu e que é líder da Direita, mas não ultrapassou a AD em número de votos, nem mobilizou o eleitorado. A derrota presidencial de Ventura foi das mais atípicas que há memória no Chega.
Para quem acompanha as noites eleitorais do Chega, foi uma noite
atípica. Foi à missa, mas chegou tarde ao Hotel Marriott,
quartel-general de André Ventura desde 2021. Não houve receção
apoteótica no lobby, como de costume, porque decidiu entrar pela
garagem, o que é raro (ou até inédito). E o primeiro berro da
noite foi pelo golo de Anísio Cabral, que marcou a reviravolta do
Benfica frente ao Alverca. E só falou já perto do fim da noite
eleitoral, em cima do palanque. Na noite em que André Ventura perdeu
a segunda volta das presidenciais para António José Seguro com metade dos votos do adversário – e contra a maior votação da história da
democracia em números absolutos, ultrapassando Mário Soares nas
presidenciais de 1991 –, o líder do Chega admitiu ‘a não
vitória’ (nunca usou a palavra derrota) e procurou alavancar a
narrativa que o favorecesse.
André Ventura depois do discurso de derrotaTIAGO PETINGA/LUSA
“Superámos a percentagem da AD [nas últimas legislativas]. É
justo dizer que, não tendo vencido, os portugueses colocaram-nos no
caminho para governar o país”, afirmou o líder do Chega. “Acho
que a mensagem dos portugueses foi clara: lideramos o espaço da
direita em Portugal – e vamos em breve governar este país”,
concretizou. O diabo está nos detalhes: não consegue dizer que
ultrapassa a AD em número absoluto de votos, mas consegue dizer que
ultrapassou a AD de Montenegro nas legislativas; não consegue dizer
que o povo não foi claro, porque, além da votação expressiva em
Seguro, o número de votos brancos foi diminuta e a abstenção em
linha com a primeira volta; não consegue dizer que capitalizou os
votos da direita, mas consegue dizer que aumentou a votação. “Não
vencemos e o reconheço que temos de fazer mais, que a mudança faz
falta. Mesmo não tendo vencido, este movimento, este partido, esta
força, teve o seu maior resultado nesta historia”, afirmou.
"Líder da Direita"? Os números dizem o contrário
Com o adiamento da votação em algumas autarquias e freguesias, que
abrange cerca de 37 mil eleitores, segundo dados da Comissão
Nacional de Eleitores, os números mostram as nuances desta eleição.
Por um lado, André Ventura subiu a votação: com mais de 1,7
milhões de votos, conseguiu subir mais 300 mil votos do que nas
legislativas, o que significa que tem novos eleitores. Por outro
lado, Ventura assume-se como líder da direita em Portugal –
argumenta que teve uma maior percentagem do que o primeiro-ministro,
Luís Montenegro, nas últimas legislativas – mas não conseguiu
galvanizar os eleitores de direita, que representam um universo de
mais de dois milhões de votos, nas legislativas e na primeira volta
das presidenciais. Ou seja, Ventura continua a crescer, é um facto,
mas a taxa de rejeição por todo o País (em especial na direita,
área política que se propõe a liderar) ainda é considerável.
Perdeu em todos os distritos do País, só venceu em dois concelhos, Elvas e São Vicente.
Aritmética à parte, Ventura acredita que continua no caminho para
vencer São Bento, o seu grande “projeto de mudar Portugal”. “Com
um sistema inteiro contra nós procurámos convencer, mobilizar. Com
uma parte do país, com Bruxelas contra nós, conseguimos ainda assim
o melhor resultado de sempre. Não vencemos, mas estamos no caminho
dessa vitória”, afirmou.
António José Seguro foi eleito, este domingo, Presidente da República de Portugal, alcançando um resultado histórico e tornando-se o candidato mais votado de sempre em eleições presidenciais no país. De acordo com os resultados provisórios da segunda volta, Seguro obteve mais de 3,47 milhões de votos, superando o recorde anterior de Mário Soares.
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