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Seguro poderá entrar para a história não como o melhor, mas como o menos mau. E, nestes tempos, isso parece bastar.
Entre 1990 e
1994 coincidiram, nos respetivos cargos de juventude partidária, dois jovens
que não poderiam ser mais diferentes: o presidente da JSD e o secretário-geral
da JS. Um deles irradiava carisma, tinha enorme capacidade retórica, um ar
moderno e descontraído, lembramo-nos bem
das suas intervenções na Assembleia da República de camisola de algodão ou
camisa de verão, algo quase revolucionário na época, e uma presença de galã que contrastava com o
cinzentismo político dominante. Colocou-se repetidamente contra o seu próprio
partido, então no Governo pela mão de Cavaco Silva, liderando lutas contra as
propinas, contra a PGA, e promovendo campanhas de consciencialização para o uso
do preservativo num país ainda profundamente conservador e mergulhado na crise
do VIH/SIDA.
Chegou a ser
visto, por muitos comentadores, como o verdadeiro líder da oposição, num tempo
em que essa função era formalmente ocupada pelo enfadonho Jorge Sampaio ou pelo
ainda hesitante António Guterres, no seu primeiro ano à frente do PS, mais em
competição com Mário Soares, então Presidente da República, do que
verdadeiramente alternativa ao Governo do PSD. Esse jovem líder carismático
chamava-se Pedro Passos Coelho.
O outro era o
seu exato oposto: discreto, prudente, cinzento. Tinha, em teoria, todas as
condições para cavalgar o desgaste de uma governação laranja longa e já
claramente fatigada. Mas não descolava nem entusiasmava, permitindo que as
Associações de Estudantes fossem capturadas pela extrema esquerda que antecedeu
o Bloco, chamada de PSR. Chamava-se António
José Seguro.
A vida, porém,
gosta de ironias.
Já que citei o
homem, é curioso observar, hoje, o processo de reescrita da história e de
higienização da imagem de Jorge Sampaio,
um Presidente que foi, objetivamente, fraco. Sustentou uma maioria
parlamentar obtida por trocas indignas (quem não se lembra do queijo limiano?),
esticou até ao limite do admissível um Governo politicamente apodrecido como o
de António Guterres e, segundo escutas conhecidas, imiscuiu-se no poder
judicial no escândalo Casa Pia, tentando evitar que o caso viesse a público,
alegadamente para proteger o seu partido, esquecendo o juramento de
equidistância e defesa de todos os portugueses.
Foi também o
Presidente que demitiu um Governo com maioria absoluta na Assembleia da
República pelo pecado original da exoneração de um Ministro do Desporto, algo que nem Marcelo Rebelo de Sousa, o rei
das dissoluções, ousou fazer. Entrou assim para a história como o homem que
abriu as portas aos seis anos inacreditáveis e infames do consulado de José
Sócrates.
Pedro e
António voltariam a cruzar-se na primeira metade da década passada. Mais uma
vez, Pedro como o homem do confronto duro, liderando o país para fora do
Programa de Assistência Económica e Financeira e libertando-nos da tutela da
troika. António, por seu lado, optou por uma oposição responsável,
institucional, correta, mas incapaz de
capitalizar o descontentamento natural provocado pelas medidas duríssimas que
Passos Coelho teve de aplicar.
Ficou para a
história a “vitória poucachinha” nas eleições europeias, assim batizada por
António Costa, que lhe colou definitivamente a aura de insegurança, hesitação e
cinzentismo. Cavaco Silva, nas suas memórias, foi particularmente devastador
para com Seguro.
E, no entanto,
aqui estamos.
Seguro
aproveitou a crise profunda em que mergulhou o Partido Socialista para se
chegar à frente, beneficiando também do desdém e da sobranceria de várias
figuras socialistas que se julgavam naturalmente presidenciáveis. À direita, a
multiplicação de candidaturas fez o resto: António José Seguro chegou à segunda
volta tendo como oponente um candidato que pretende, a partir de Belém,
implodir o sistema e, muito provavelmente, a própria democracia.
Seguro, apesar
das suas fragilidades evidentes, sempre foi um homem de sorte. Em 2026, volta a
beneficiar de uma tempestade perfeita,
desta vez para alcançar o mais alto cargo da Nação.
Há poucas
semanas preparava-me para escrever que Seguro era o candidato ideal
precisamente pela ausência de polémicas, pela honorabilidade que transmite,
pela moderação e pelo perfil institucional,
todas qualidades tipicamente presidenciáveis. Até ao momento em que abre
a boca para opinar sobre um tema concreto e percebemos duas coisas: que é
socialista e que, pior ainda, não tem verdadeiramente uma ideia estruturada
sobre esse tema.
Estas eleições
presidenciais ficarão na história pela fraquíssima qualidade do elenco de
candidatos. E António José Seguro arrisca-se a vencer não por mérito
próprio, mas por comparação.
Na política,
como na vida, a ironia é implacável. O homem visto durante décadas como
hesitante, sem chama, sem brilho e sem carisma, conseguiu liderar a Juventude
Socialista, foi secretário-geral do PS e está agora prestes a tornar-se
Presidente da República.
Seguro poderá
entrar para a história não como o melhor,
mas como o menos mau. E, nestes tempos, isso parece bastar.
No Domingo
passado, em voto antecipado, “engoli o sapo”, “tapei o rosto”… e votei nele,
obviamente
Ventura não ganhará. E talvez fosse desejável que fizesse um percurso semelhante ao de Paulo Portas: não para se diluir numa voz indistinta, mas para, defendendo uma visão mais populista da sociedade, abandonar a verve de ameaça direta à democracia que hoje o define.
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