Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
07 de fevereiro de 2026 às 08:00

A tragédia e o dinossáurio de Alvaiázere

Ora a água, ora o fogo, tudo levam e neste transe português é um desacerto pensar apenas em assacar fatalidades ao clima.

Muito importa a quem sofre e a quem escapou ao pior a disfunção institucional ou incapacidade por mediocridade, incúria e desnorte de chefias políticas e seus subordinados ante desastres, catástrofes e cataclismos.

Promete-se, agora, criar um fundo para fazer face a catástrofes naturais; uma anomalia chamada SIRESP falha uma vez, falha duas vezes, falha outra vez e porfia.

Ante novo fracasso, continua-se sem estrutura permanente de monitorização, alerta e prevenção de riscos para articular as intervenções de autoridades civis e militares.

Ora a água, ora o fogo, tudo levam e neste transe português é um desacerto pensar apenas em assacar fatalidades ao clima.

Ao rumor de revolta, à desventura, à impotência triste, sobrepõe-se algo pior.

A alteração climática

A brusca ou persistente alteração climática pode alterar as condições de subsistência de uma comunidade, propiciar conflitos internos e exacerbar confrontos com populações vizinhas.

Tal violência é recorrente sobretudo em regiões em que carências de infraestruturas, frustes instituições estatais subordinadas a interesses sectoriais ou étnicos, sobrepopulação e escassez de recursos geram conflitos endémicos.

Na África Oriental, secas, chuvas torrenciais, degradação dos solos, são o pasto de guerras persistentes entre populações agrícolas e criadores de gado num quadro de diferendos entre estados pós-coloniais num mundo de fúrias étnicas e exclusivismos religiosos.

Estes conflitos são fortemente condicionados e precipitados em catadupa pelas condições ecológicas e as flutuações climatológicas e uma das razões reside na incapacidade de estruturas estatais providenciarem mínimos de apoios, solidariedade social e legitimidade política.

O acesso a água potável será cada vez mais difícil ao longo deste século, com uma redução per capita de 29% até 2099, variando, contudo, entre, por exemplo, melhorias de 28% na Europa e reduções de 67% em África, segundo estimativa do Banco Mundial, o que levará a conflitos e migrações.

O termómetro

Em 2025 a temperatura média global foi de 14,97°C.

Os últimos onze anos foram os mais quentes desde os primeiros registos datados de 1850, independentemente de variações devidas às oscilações provocadas por La Niña e El Niño ou ao ciclo solar.

As temperaturas dos oceanos, que cobrem 71% da superfície do planeta, registaram, também no ano passado, uma acumulação inaudita de calor, sobretudo no Atlântico Sul, Mediterrâneo, Norte do Índico e no Antártico.

A presente fase de aquecimento global em que são relevantes os efeitos de gases de estufa devidos a actividades humanas, enquadra-se, em termos de escalas geológicas, na época do Heloceno iniciada há mais de 11 mil anos com a retirada dos glaciares.

É um processo lento à escala das gerações humanas e não se confunde com cataclismos naturais globais como as erupções dos vulcões do Tambora, em 1815, e Krakatoa, em 1883, ambos na actual Indonésia.

Sobra, portanto, algum tempo para prevenir e procurar alternativas de subsistência, sobretudo ao

ter-se meios para previsões genéricas, apesar de incertas.

O dinossário de Alvaiázere

A água da tempestade que devastou Alvaiázere é ainda a mesma que há 195 milhões de anos caia sobre os dinossáurios que aí deixaram pegadas.

O Moyenisauropus lusitanicus da planície costeira que então existia no actual distrito de Leiria extinguiu-se, a água do planeta mantém-se indistinta e constante, e, nós por cá, impenitentes ante tragédias e cataclismos.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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