Este sábado, todas as distritais do partido vão a votos. Mas só em Braga há dois candidatos, um da continuidade (Paulo Cunha) e outro que vem desafiar o "regime", Carlos Eduardo Reis, arguido do processo Tutti-Fruti.
"Tenho uma pessoa aqui na concelhia que me diz que a quota dele foi paga", diz-nos um autarca do PSD do distrito de Braga. Outro conhecido político do PSD, este com responsabilidades no partido a nível nacional, e também de Braga, falou-nos em "pagamentos em massa de quotas de militantes em Barcelos". Quantos? "Uns 2.800."
Carlos Eduardo Reis, o desafiador, e Paulo Cunha, o recandidato
Estas duas declarações, feitas em off, exemplificam o ambiente pré-eleitoral que se vive em Braga, e que é caso único neste momento no PSD. No sábado, as distritais e concelhias vão a votos para escolher os seus líderes, que depois exercerão os seus pequenos e médios poderes dentro do PSD, com capacidade para influenciar eleições internas e listas de candidatos em eleições nacionais. Braga, uma das grandes distritais do partido. é a única com dois candidatos - e não são dois candidatos quaisquer.
De um lado está o recandidato, Paulo Cunha, amigo do primeiro-ministro, Luís Montenegro, próximo do secretário-geral e líder parlamentar, Hugo Soares. Está atualmente como eurodeputado em Bruxelas. É o candidato do establishment do momento no PSD, do montenegrismo.
Do outro lado está Carlos Eduardo Reis, que não é do montenegrismo, nem do passismo. É, quanto muito, um opositor regional de Hugo Soares - esteve por exemplo com Jorge Moreira da Silva nas internas do PSD de 2022, que deram a vitória a Montenegro. Ficou mais conhecido do grande público quando rebentou o caso Tutti-Frutti - está acusado de 21 crimes: cinco de corrupção ativa, um de corrupção ativa agravada, seis de prevaricação, cinco de tráfico de influências, três de branqueamento e um de abuso de poder.
Fontes de ambos os lados dizem coisas opostas. Uns dizem que Carlos Eduardo Reis tomou conta do aparelho local - sobretudo Barcelos (daí a história das quotas pagas nessa concelhia) e que por isso tem a vitória assegurada, outros dizem que a eleição está renhida. Há quem fale (como o Expresso e o Público) que José Manuel Fernandes está com Carlos Eduardo Reis. Recorde-se que o ministro da Agricultura e Mar é um histórico do PSD de Vila Verde, uma das concelhias de Braga. O seu apoio seria uma espécie de desafio ao núcleo duro do Governo. Não nos respondeu às mensagens e Carlos Eduardo Reis disse-nos que não confirma nem desmente: "Não posso falar por ele, não posso confirmar por ele".
O candidato diz-se surpreendido com a história do pagamento de quotas de Barcelos. "Não faz sentido nenhum. É tudo falso". Diz ainda que as concelhias maiores são sempre mais ativas nestes atos eleitorais, havendo uma mobilização dos militantes, o que pode explicar eventuais regularizações de quotas em atraso. "Nestas concelhias, sempre houve muita participação neste tipo de eleições, ainda mais agora, que são dois candidatos, o que não acontecia há muito tempo".
Avança ainda outra informação que diz ser fundamental para desmentir a tese dos pagamentos de quotas em massa: "Com a recente alteração dos estatutos, um militante só sai dos cadernos eleitorais se tiver quotas em atraso há mais de dois anos. Ou seja, até pode ir votar agora sem ter as quotas em dia - apenas não podem estar em atraso há mais de dois anos".
Segundo várias fontes do distrito, trata-se de um universo eleitoral a rondar os oito mil militantes ativos, assim distribuídos: cerca de 2.700 na concelhia de Famalicão, 2.900 na de Barcelos, mais ou menos 1.300 em Braga e Guimarães juntas, 1.061 em Vila Verde e cerca de 700 nas restantes.
Ricardo Araújo, presidente da câmara de Guimarães, é um dos apoiantes de Paulo Cunha, e um dos poucos a querer falar em on. Falámos-lhe da história das quotas de Barcelos, que diz desconhecer. Mas reconhece: "Sei bem que estas eleições se jogam muito na mobilização dos militantes anónimos. Tenho conhecimento que Barcelos tem um número expressivo de militantes ativos".
O autarca de Guimarães diz que está "de corpo e alma" com o recandidato, não só "pelo trabalho" que fez, mas também pela projeção que deu a Braga. O autarca recorda a recente vitória autárquica do PSD em Braga, reconquistando a cidade ao PS, as vitórias do PSD nas Legislativas neste distrito e ainda os vários elementos da distrital que estão presentes no Governo como ministros e secretários de Estado.
José Peixoto Lima, presidente da câmara de Celorico de Basto, também está com Paulo Cunha e tem a certeza que este vai ganhar na concelhia de Celorico ("Vai ter aqui uma grande vitória"), ainda que esta seja pequena e não terá, à partida, muito peso no resultado final. O autarca tem uma visão mais consensual da contenda: "O PSD sempre foi um partido com muitas disputas e divergências de opinião", diz à SÁBADO. "Não quer dizer que as pessoas se deem mal. O que está em causa é apenas o distrito, vejo tudo isto com normalidade", refere ainda o autarca, que é daqueles que acham que o resultado "vai ser equilibrado".
A este tipo de argumentos, Carlos Eduardo Reis não quis responder, remetendo tudo o que tinha a dizer para uma entrevista que deu ao Correio do Minho. Aí, diz que se candidata para "renovar e unir o partido": "Sinto que sou o candidato que tem hoje mais condições que qualquer outro no distrito para poder criar um espaço de representação do distrito, onde cabem todos e não cabem só alguns”. Diz querer uma voz “que promova afirmação do distrito a outro nível”.
Paulo Cunha não respondeu em tempo útil ao pedido de contacto da SÁBADO.
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