João Borges de Assunção explica que impacto imediato ainda não é possível ser observado nos indicadores de alta frequência, referentes ao consumo.
O conflito no Médio Oriente terá impacto na economia portuguesa devido à subida dos preços do petróleo, colocando também pressão sobre as contas públicas, num ano que poderá ser de défice orçamental, segundo o economista João Borges de Assunção.
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Numa entrevista no podcast "Lusa Extra", da agência Lusa, o professor na Universidade Católica Portuguesa e coordenador do NECEP - Católica Lisbon Forecasting Lab apontou que o efeito do conflito para economias como a europeia ou a portuguesa "vem acima de tudo por via do impacto que tem o aumento do preço do petróleo nos países que não são produtores de energia".
"Cada mês, a estes preços, pode cortar 0,1 [pontos percentuais no crescimento]. Portanto, três meses podem cortar 0,3, um ano inteiro pode cortar 1 ou 1,5 pontos, portanto, no fundo é uma ordem de grandeza do custo direto do aumento dos preços dos combustíveis na economia", estimou, apontando que dependerá da duração do conflito.
O impacto imediato ainda não é possível ser observado nos indicadores de alta frequência, referentes ao consumo, mas o economista alertou que "mais preocupante seria uma retração até no investimento, ou seja, se as próprias empresas, perante este ambiente e perante o potencial aumento dos custos de produção, adiarem investimentos que tinham pensado".
Isto já que o adiamento de investimentos é mais difícil de recuperar do que a perda de consumo temporária derivada de um episódio de subida de preços, explicou.
Quanto à possibilidade de uma subida de juros por parte do Banco Central Europeu (BCE) para fazer face ao aumento de preços, João Borges de Assunção considerou que este episódio em si mesmo não parece justificar um aumento das taxas diretoras.
"Até porque o efeito desta crise, deste aumento dos preços, tem uma dimensão recessiva, potencialmente, e portanto até levaria o BCE a ser mais acomodatício na sua política", salientou, acrescentando que "poderia haver espaço para aproveitar esta oportunidade e repensar alguma da política energética europeia e também portuguesa e tomar decisões pontuais ou permanentes de alteração dessa estrutura de impostos associados aos bens energéticos".
O Governo já avançou com medidas para fazer face aos preços na energia, nomeadamente no ISP, que podem colocar pressão sobre o orçamento.
Ainda assim, dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostraram que Portugal fechou 2025 com um excedente orçamental de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), acima da estimativa de 0,3% do Governo.
Este excedente acima do esperado "facilita" o esforço orçamental ao dar "uma folga adicional ao Governo", de cerca de 0,4 pontos percentuais, "que é a diferença entre o que estava para 2025 no orçamento que o Governo entregou e agora o número que é revelado pelo INE".
Mesmo assim, o economista considera que Portugal "não precisa do fetiche do excedente", precisa é de "continuar a descer a dívida pública", o que pode acontecer mesmo tendo ligeiros défices.
"A estimativa no NECEP já era que o orçamento que o Governo apresentou iria dar défice, em parte por causa do financiamento dos projetos do Plano de Recuperação e Resiliência", salientou, desdramatizando a possibilidade de um saldo negativo, ainda que dependendo das condições em que tal se verifica.
A perspetiva de um défice é diferente se "resultar de aumentos permanentes de despesas ou de satisfação de algumas corporações", ou seja, "usar a desculpa das crises para fazer aumentos de despesas noutras áreas e isso sim cria problemas às finanças públicas portuguesas a prazo", avisou.
Esta despesa com medidas para fazer face à subida de preços vem somar-se aos apoios para as tempestades cuja dimensão ainda é incerta. "Se for um montante volumoso, o Governo deveria apresentar, sem nenhuma preocupação, um orçamento retificativo", argumentou.
A previsão do executivo era um excedente de 0,1% do PIB este ano, valor que poderá ser revisto.
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