As revelações sobre espiões russos em Lisboa

As revelações sobre espiões russos em Lisboa
Nuno Tiago Pinto 23 de maio de 2016

António Figueiredo disse ao juiz Carlos Alexandre que tinha ajudado o SIS a apanhar um espião russo em Cascais e a vigiar outro em Lisboa. O magistrado ficou “perplexo”

Carlos Alexandre: Quando soube da existência desta investigação? 
António Figueiredo: Pela comunicação social.
CA: Então em que circunstâncias solicitou ao SIS [Serviço de Informações de Segurança] uma limpeza electrónica ao seu gabinete, a qual teve lugar a 27 de Fevereiro, após as 11h37?
AF: O IRN [Instituto de Registos e Notariado] e o SIS têm um protocolo (…). No âmbito da colaboração que temos com o SIS, o IRN foi abordado pelo dr. Horácio e mais dois ou três oficiais dando conta de que numa determinada conservatória existia um problema muito sério, grave, de espionagem e que um funcionário do IRN estaria a passar informação sigilosa, informação crítica, sensível, para um determinado espião.
CA: Diga o que tiver por conveniente (…)
AF: O dr. Horácio e mais três ou quatro colaboradores deram -me conta que andavam a seguir há algum tempo um elemento de uma embaixada, que entendem que era espião e que se tinha encontrado com um determinado funcionário meu, da Conservatória do Registo Civil de Cascais. Penso que posso ir mais além, o espião era russo. Estaria a obter informação privilegiada, através de cópias, que não sabiam ao certo que tipo de informação teria sido passada (…).

A primeira parte do interrogatório judicial a António Figueiredo – que não quis prestar declarações à SÁBADO – durou quase quatro horas. Mas apesar de o inquérito baptizado como operação Labirinto se debruçar em boa parte sobre suspeitas de corrupção e tráfico de influências na atribuição de Autorização de Residências para Investimento, conhecidas por vistos gold, o ex-presidente do Instituto de Registos e Notariado (IRN) passou quase duas horas desse interrogatório, a 17 de Novembro de 2014, que a SÁBADO consultou no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, a responder a questões relacionadas com a sua relação com elementos dos serviços de informações. Para o juiz de instrução criminal, Carlos Alexandre, era necessário esclarecer se o varrimento electrónico feito ao gabinete de António Figueiredo representava uma interferência dos serviços secretos numa investigação judicial.

O magistrado estava convencido de que essa acção se tinha realizado a 27 de Fevereiro de 2014 e se destinava a perceber se a Polícia Judiciária (PJ) ou o Ministério Público tinham colocado escutas no gabinete de António Figueiredo. Nessa data, a PJ fotografou o então director do SIS, Horácio Correia Pinto, a directora do departamento de contraterrorismo e contravigilância, Maria João Coelho e o número dois do Departamento Operacional 4 (DO4), J. F. a chegar ao Campus da Justiça para um encontro com António Figueiredo. Mas a explicação do ex-presidente do IRN, sobre a operação que envolveu a descoberta de um espião russo pelo do SIS deixou o magistrado surpreso. "Isto causa -me a maior das perplexidades", disse várias vezes.

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