As conversas secretas dos poderosos

As conversas secretas dos poderosos
António José Vilela 13 de março de 2019

Uma investigação do Ministério Público guarda há sete anos um gigantesco arquivo de informações confidenciais. Chama-se processo “Monte Branco” e tem escutas de Ricardo Salgado, Miguel Sousa Tavares, Miguel Relvas, entre outros.

Referidos apenas como os telefones fixos e móveis dos alvos 49232M, 2H952M e 2M464, isso não permite perceber a identidade dos visados, mas os longos relatórios assinados pelo inspector tributário Paulo Silva esclarecem quase de imediato que se trata das comunicações dos então banqueiros do BES Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi e ainda do luso-angolano Fernando Teles, o homem-forte do Banco Internacional de Crédito (desde 2017, Eurobic) que em 2012 comprou ao Estado português o Banco Português de Negócios (BPN).

Teles esteve sob intercepção telefónica contínua entre 7 de Fevereiro de 2012 e 29 de Maio desse ano, um total de 114 dias. Já Salgado foi escutado durante 107 dias não seguidos, entre 31 de Outubro de 2011 e 29 de Maio de 2012. Finalmente, Ricciardi foi gravado ao telefone durante, pelo menos 335 dias, escutas que não foram contínuas e que se verificaram num período mais lato, entre 27 de Dezembro de 2011 e 25 de Março de 2013, sobretudo devido ao caso das últimas privatizações da EDP e da REN, Redes Energéticas Nacionais.

Ainda antes de chegarem às provas que indiciaram Ricardo Salgado e José Sócrates noutro processo, a hoje célebre Operação Marquês, que incluiu a partir de 2013 a realização de dezenas de escutas telefónicas em simultâneo de inúmeros suspeitos, a equipa formada pelo procurador do Ministério Público (MP) Rosário Teixeira e pelo inspector Paulo Silva usou um inquérito-crime inicialmente centrado em suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais - o caso Monte Branco - para recolher muita informação confidencial que acabou cruzada e partilhada com outras investigações.

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