O jantar dos correspondentes aconteceu esta sexta-feira depois do último ter sido interrompido por um tiroteio. Receção ao discurso de Trump foi amena.
O presidente norte-americano Donald Trump voltou ao jantar dos correspondentes esta sexta-feira. Fez algumas piadas com os jornalistas que foram recebidas com um silêncio sepulcral e fez pontaria aos seus adversários políticos. Mas também gozou com a sua própria administração e arrancou algumas gargalhadas.
Donald TrumpAP Photo/Rod Lamkey, Jr.
O primeiro jantar dos correspondentes estrangeiros ocorreu há três meses, mas acabou abruptamente depois de um atirador ter trocado tiros com as autoridades no exterior do evento. Estes jantares costumam ser uma noite em que o presidente norte-americano “se vinga” dos jornalistas, fazendo piadas sobre quem o escrutina diariamente, às vezes mais agressivamente, outras de forma mais suave. Mas desde a chegada de Trump que a dinâmica mudou, já que o presidente norte-americano goza publicamente com jornalista e adota muitas vezes um tom agressivo para os atacar. Como aceitar piadas de alguém que é, tantas vezes, abertamente hostil contra si? Os presentes neste jantar optaram por um silêncio constrangedor, segundo o Washington Post.
Adotando um tom irónico, Trump “fugiu” muitas vezes do guião, tendo dito mesmo que era um “um discurso estúpido de merda”. “Espero que todos tenham finalmente conseguido saborear na íntegra o seu delicioso lombo de vaca, uma carne muito especial. E quero que todos saibam que o Bobby Kennedy [secretário de Estado da Saúde], que está aqui mesmo, atropelou pessoalmente a vaca com o seu carro”, disse logo no arranque do discurso, recolhendo alguns risos da sala.
Durante o discurso gracejou que ia passar a ter combates duas vezes por semana no relvado da Casa Branca - muitos jornalistas criticaram a exibição de UFC no relvado, no 4 de julho, dia da Independência dos Estados Unidos -, anunciando combates entre os políticos que apoia e os que considera serem adversários. E se algumas tiradas suscitaram sorrisos, outros deixaram os correspondentes claramente desconfortáveis.
Um dos casos foi quando falou da repórter da CNN Kaitlan Collins, de quem afirmou que “nunca sorri” apesar de ser uma “mulher jovem e atraente”. Disse ainda que a confundia muitas vezes com Dylan Mulvaney, uma influencer que se tornou conhecida por detalhar o seu processo de transformação de género nas redes sociais. Ou quando falou do senador democrata Adam Schiff. “Ele é um mentiroso, e chamei-lhe ‘cabeça de melancia’ porque tem a maior cabeça que já vi com o pescoço mais fino, um pescoço de lápis. Como é que se faz com que uma cabeça gorda e feia fique num pescoço fino como um lápis”, questionou Trump. A piada foi recebida com um silêncio quase generalizado.
Pouco antes do final do discurso, Donald Trump tirou um boné (o que aparece na fotografia do artigo) e colocou-o na cabeça. Lia-se “Trump 2028”, como um assumir de que irá ser recandidato à Casa Branca daqui a dois anos, coisa que a constituição norte-americana impede. Trump já afirmou mais do que uma vez que existem formas de cumprir um terceiro mandato, mas sem avançar muita informação, tendo sido amplamente criticado pelos jornalistas por isso. "Tal como a minha presidência, a segunda vez é sempre melhor. E a terceira vez será ainda melhor", disse Trump.
Jornalistas investigados
Este discurso acontece num momento em que a administração Trump intensificou a sua perseguição judicial a jornalistas que noticiam assuntos que a Casa Branca considera ameaças à segurança nacional, tendo Trump afirmado na sexta-feira que acreditava que os jornalistas eram alvos legítimos de investigação.
Há vários processos levantados pela Casa Branca contra jornalistas, mas Trump não mostra qualquer tipo de arrependimento: “Não estamos atrás de jornalistas. Estamos atrás de quem divulga informações confidenciais. Estamos atrás de pessoas que são cobardes, pessoas que não são patriotas, pessoas que, em muitos casos, cometem traição”, disse Trump na Sala Oval, ainda esta semana, dizendo que persegue essas pessoas através dos jornalistas. “
Trump reconheceu a sua posição minoritária neste jantar: “Este é o lugar onde está a maior concentração de pessoas com a síndrome de Aversão a Trump”, começou por dizer. Mas o jantar de correspondentes é uma tradição americana que começou em 1921 e que foi interrompido durante o primeiro mandato de Trump.
Durante o jantar são atribuídos prémios e alguns jornalistas ganharam prémios pela forma como cobriram a administração atual. Entre os premiados estavam repórteres da Associated Press, incluindo um jornalista que foi expulso do grupo de imprensa da Casa Branca porque a agência se recusou a renomear o Golfo do México para “Golfo da América”.
E Trump apertou a mão a uma equipa de repórteres do The Wall Street Journal que ganhou um prémio pela cobertura das suas ligações ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, mas sorriu enquanto o pivô da CNN Wolf Blitzer relatou que o jornal tinha sido processado pelo presidente em 20 mil milhões de dólares pelas reportagens e que uma repórter foi obrigada a mudar a sua família de cidade devido a ameaças contra eles.
Em seguida, cumprimentou Tyler Pager, um repórter do The New York Times que recebeu uma intimação neste mês devido à sua cobertura de questões de segurança relacionadas com o Air Force One (oferecido pelo Qatar a Trump).
O evento foi realizado sob segurança máxima no hotel Waldorf Astoria com público reduzido, sem a tradicional passadeira vermelha e com homenagens ao agente do Serviço Secreto baleado no atentado de abril. No encerramento, o presidente norte-americano previu a falência financeira dos meios de comunicação quando deixar a Casa Branca e resumiu o jantar dizendo que a noite correu muito pior do que pensava inicialmente.
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