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Isabel Souto
Isabel Souto Consultora da Cegoc
24 de julho de 2026 às 07:00

A fraude como falha de gestão. O custo da iliteracia ética na Administração Pública

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Sistemas frágeis produzem comportamentos frágeis. Quando os processos são ambíguos, os controlos insuficientes e os exemplos contraditórios, mesmo profissionais competentes podem tomar decisões erradas.

Sempre que surge um caso de fraude ou irregularidade na Administração Pública, o debate tende a dividir-se entre a condenação moral e a exigência de maior fiscalização. Mas esta leitura, apesar de necessária, é frequentemente incompleta. Nem todas as práticas irregulares resultam de intenção criminosa deliberada. Muitas nascem de ambientes organizacionais frágeis, culturas permissivas, ausência de supervisão ou desconhecimento das regras e dos riscos.

A simplificação do problema impede uma reflexão mais profunda sobre aquilo que está verdadeiramente em causa, a fraude não é apenas um problema jurídico ou criminal. É, muitas vezes, uma falha de gestão.

Existe uma diferença fundamental entre fraude deliberada e práticas de risco decorrentes de iliteracia ética. A primeira implica intenção consciente de obter benefício indevido. A segunda manifesta-se em decisões aparentemente “práticas” ou “eficientes” que ignoram procedimentos, relativizam conflitos de interesses ou normalizam exceções. Pequenos atalhos administrativos, ausência de segregação de funções, validações informais ou contratação sem o devido escrutínio podem não nascer de má-fé, mas criam contextos altamente vulneráveis.

É precisamente aqui que reside um dos maiores desafios das organizações públicas, o da banalização do risco ético.

Em muitas entidades, o compliance continua a ser visto como um exercício burocrático, desligado da gestão quotidiana. Códigos de ética e planos de prevenção de riscos existem, mas raramente são trabalhados como instrumentos vivos de decisão. A formação é esporádica, os mecanismos de controlo são pouco compreendidos e a liderança nem sempre assume um papel ativo na criação de uma cultura de integridade.

O resultado é um ambiente onde as pessoas conhecem regras, mas não compreendem verdadeiramente o seu propósito.

A Transparência Internacional tem alertado para a importância da cultura organizacional na prevenção da corrupção e das irregularidades. Da mesma forma, vários estudos académicos sobre governance pública demonstram que organizações com baixos níveis de maturidade ética apresentam maior exposição a riscos reputacionais, desperdício financeiro e litigância. O avanço nestas áreas, designadamente, através da definição de um novo enquadramento estratégico, da operacionalização efetiva das políticas existentes e do fortalecimento das entidades responsáveis pela sua execução, será determinante para melhorar a perceção externa sobre o compromisso de Portugal com a integridade pública nos próximos anos.

O custo destas falhas é elevado. Não apenas em dinheiro público perdido, mas também em reputação e confiança institucional. Uma organização fragilizada por suspeitas de irregularidades perde credibilidade interna e externa, reduz capacidade de decisão e cria um ambiente defensivo onde a inovação e a eficiência ficam comprometidas.

Mais grave ainda: quando os erros se repetem, instala-se a perceção de impunidade ou incompetência estrutural.

A prevenção eficaz começa muito antes da auditoria ou da investigação. Começa na preparação das pessoas. A literacia ética, entendida como a capacidade de reconhecer riscos, interpretar dilemas e tomar decisões alinhadas com princípios de integridade, tornou-se uma competência crítica de gestão.

Formar dirigentes e equipas sobre conflitos de interesses, contratação pública, gestão de risco, canais de denúncia ou tomada de decisão ética não deve ser encarado como custo adicional. É investimento estratégico. Organizações mais preparadas reduzem erros, reforçam a transparência e tornam-se menos vulneráveis a práticas abusivas ou negligentes. Tendem a tornar-se mais fortes e resilientes.

Importa também abandonar a ideia de que a ética depende exclusivamente do carácter individual. Sistemas frágeis produzem comportamentos frágeis. Quando os processos são ambíguos, os controlos insuficientes e os exemplos contraditórios, mesmo profissionais competentes podem tomar decisões erradas.

Ora, tal significa que a integridade constrói-se através de liderança, cultura, sentimento de pertença e capacitação contínua.

Num cenário de crescente exigência pública sobre transparência e accountability, as organizações que não investirem seriamente em cultura ética enfrentarão custos cada vez mais pesados, desde logo, financeiros e jurídicos, mas também de credibilidade. E nenhum plano de crise consegue reparar totalmente a erosão da confiança pública.

A verdadeira prevenção da fraude não começa na fiscalização. Começa muito antes, na qualidade da gestão, por via de uma clareza dos processos e capacidade das organizações prepararem pessoas para decidir bem, mesmo sob pressão. Com a certeza de que na Administração Pública a ética não se cinge a um princípio moral, assume-se, também, como uma competência de governação.

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